FEMINICÍDIO

'Me deixa em paz', disse Lívia antes de ser morta pelo ex no Vale

Por Da redação | Pindamonhangaba
| Tempo de leitura: 4 min
Reprodução
Carlos Eduardo foi preso pelo feminicídio de Lívia Berthoud
Carlos Eduardo foi preso pelo feminicídio de Lívia Berthoud

Dois dias antes de ser assassinada a tiros pelo ex-namorado, a universitária Lívia Berthoud, de 23 anos, deixou registrada em uma troca de mensagens a dimensão dos conflitos que marcaram o fim do relacionamento.

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A conversa, publicada nas redes sociais pela irmã da jovem, Laura Berthoud, mostra Lívia recusando uma tentativa de reconciliação e pedindo que o ex-namorado a deixasse em paz.

A mensagem foi enviada em 4 de agosto de 2026, seis dias antes do feminicídio em Pindamonhangaba. Na conversa, Carlos Eduardo Barbosa Vieira Leite, 25 anos, tenta convencer Lívia a retomar o relacionamento. "Vamo sentar, conversar, existe caminho pra nós, existe espaço, vamo vencer essas barreiras juntos", escreveu ele.

Na resposta, Lívia relata que havia sido enganada durante quase quatro anos e afirma que o ex era agressivo e gritava com ela. A jovem também diz ter se culpado durante muito tempo pelas reações dele e afirma que passou a perceber que o relacionamento era sustentado por mentiras.

"Você continua sendo um grande egoísta e só pensando em você mesmo", escreveu Lívia. No fim da mensagem, ela é direta sobre o desejo de romper definitivamente o contato: "Eu não quero nunca mais falar com você, menos ainda pessoalmente. Então me deixa em paz".

Lívia registrou BO contra ex

Dois dias depois dessa conversa, segundo a família, Lívia foi informada por um familiar de Carlos Eduardo de que ele possuía uma arma de fogo. A jovem registrou um boletim de ocorrência e conseguiu uma medida protetiva de urgência no dia 6 de agosto.

A decisão determinava que Carlos Eduardo mantivesse distância mínima de 100 metros da estudante. Segundo informações registradas no boletim de ocorrência, familiares também relataram que ele não aceitava o fim do relacionamento e já havia feito ameaças contra Lívia.

“A história do crime da Lívia começa quando ela decidiu terminar um relacionamento de quatro anos e um término, ele deveria significar apenas uma coisa, uma decisão que precisa ser respeitada. Mas aí vieram as mensagens, os números diferentes, recados por terceiros, contatos indesejados, ela fez tudo o que dizem para a vítima fazer”, disse Laura em um vídeo nas redes sociais.

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Perseguição e tiros

Na manhã de 10 de agosto, Lívia saiu de casa, no Jardim Campo Alegre, para ir à academia. Nas proximidades da residência, ela foi abordada e perseguida pelo ex-namorado.

Imagens de uma câmera de segurança registraram parte da perseguição. Lívia aparece correndo pela rua e tentando pedir ajuda a um carro que passava pelo local. O veículo não parou.

Na sequência, a jovem foi alcançada e atingida pelas costas. Segundo a família, foram três tiros. Carlos Eduardo fugiu a pé e foi localizado posteriormente pela Polícia Militar em um apartamento no bairro Bela Vista.

De acordo com o registro policial, ele teria efetuado um disparo contra si próprio depois de retornar ao imóvel. Os policiais apreenderam no local um revólver Taurus calibre .38, com quatro munições deflagradas no tambor.

Carlos Eduardo foi levado ao Pronto-Socorro Municipal de Pindamonhangaba e permaneceu internado. A prisão em flagrante foi convertida em preventiva pela Justiça em 11 de agosto. Como estava hospitalizado, ele não participou presencialmente da audiência de custódia.

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Acusado está em hospital penitenciário

Posteriormente, Carlos Eduardo foi transferido para um hospital penitenciário. A informação foi divulgada por Laura nas redes sociais.

Segundo a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária), ele foi incluído na Divisão de Ações de Segurança Hospitalar, antigo Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário de São Paulo.

A Polícia Civil investiga o caso como feminicídio. O investigado deverá prestar depoimento quando estiver em condições clínicas para participar dos atos processuais.

Família cobra justiça

Em uma publicação feita em 1º de outubro, Laura explicou que decidiu divulgar a última mensagem respondida por Lívia diante de dúvidas sobre o que a jovem sabia a respeito das informações e mentiras relacionadas ao ex-namorado.

“Quando um homem não aceita um não, o nome disso não é amor, não é paixão, ou tragédia romântica, como eu já ouvi em algumas manchetes. Na verdade é posse, é controle, é violência, isso é a raiz do feminicídio”, afirmou Laura.

Em outra publicação, a irmã descreveu o período entre o registro da ocorrência e o assassinato. Segundo Laura, depois de saber que Carlos Eduardo tinha uma arma, Lívia passou a enxergar a perseguição como um risco concreto.

"Ela foi perseguida, gritou, implorou por socorro, mas não foi ouvida. Não havia ninguém", escreveu Laura ao relembrar a manhã de 10 de agosto.

A família afirma que continuará acompanhando o processo até o julgamento. "Seguimos na luta por justiça e por respostas. Essa história não pode ser esquecida", publicou Laura.

Lívia era estudante de Direito na Unitau (Universidade de Taubaté) quando foi assassinada. O caso é tratado pela Polícia Civil como feminicídio e segue em investigação.

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