TAUBATÉ#400

Onde ficava a primeira 'casa da moeda' do Brasil? Era em Taubaté

Por Xandu Alves | Taubaté
| Tempo de leitura: 5 min
Imagem gerada por IA
Taubaté abrigou a primeira Casa de Fundição de Ouro do território brasileiro
Taubaté abrigou a primeira Casa de Fundição de Ouro do território brasileiro

Muito antes de o Brasil conquistar sua independência, Taubaté ocupou um lugar de destaque na história da colonização portuguesa. Entre aproximadamente os anos de 1695 e 1704, a cidade sediou a primeira Casa de Fundição de Ouro do território brasileiro, estrutura que desempenhava funções semelhantes às da atual Casa da Moeda.

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Era ali que o ouro extraído das recém-descobertas minas passava pelo controle da Coroa Portuguesa, tinha os impostos recolhidos e era transformado em barras oficiais.

A história, pouco conhecida fora dos círculos acadêmicos, foi resgatada pelos historiadores, pesquisadores e editores do Almanaque Urupês, Angelo Rubim e Pedro Rubim, que reuniram documentos históricos para explicar por que Taubaté se tornou peça-chave na economia do império português.

Essa reportagem integra o projeto especial Taubaté#400, desenvolvido por OVALE, com apoio institucional da Prefeitura de Taubaté, Unitau (Universidade de Taubaté), Creci (Conselho Regional de Corretores de Imóveis) e da empresa Milclean. Veja a apresentação do projeto nesse link.

Recompensa pela lealdade de Taubaté

A criação da Casa de Fundição foi determinada em janeiro de 1695 pelo governador do Rio de Janeiro, Minas e São Paulo, César Antônio Pais de Sande. A decisão foi oficializada por meio de uma Carta de Provisão, que classificava a instalação da fundição como um reconhecimento à lealdade, à honradez e à confiança depositadas nos moradores de Taubaté.

Segundo os pesquisadores, o documento deixava claro que a escolha da cidade representava uma homenagem à terra dos bandeirantes responsáveis pela descoberta das primeiras jazidas de ouro nos sertões que hoje pertencem a Minas Gerais.

Naquele momento, Taubaté já ocupava posição estratégica. A vila era o principal ponto de partida das expedições que seguiam rumo ao interior em busca de metais preciosos e servia como elo entre o litoral e as regiões mineradoras.

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Como funcionava a Casa da Moeda

A função da Casa de Fundição era centralizar todo o ouro extraído das minas. Os mineradores eram obrigados a levar o metal até Taubaté, onde ele era fundido às custas do Estado.

Antes de o ouro voltar às mãos de seus proprietários, a Coroa recolhia o chamado "quinto", imposto equivalente a 20% de toda a produção. Depois disso, o restante era transformado em barras oficiais que recebiam o cunho real, garantindo sua autenticidade e valor comercial.

Na prática, explicam Angelo Rubim e Pedro Rubim, o estabelecimento exercia o mesmo papel desempenhado atualmente pela Casa da Moeda: transformar riqueza mineral em patrimônio oficialmente reconhecido pelo Estado.

O primeiro responsável pela unidade foi o bandeirante Carlos Pedroso da Silveira, integrante da bandeira liderada por Rodrigues Arzão, um dos pioneiros na exploração das minas de ouro.

Entre 1696 e 1697, a Casa de Fundição arrecadou cerca de 3 arrobas e 4 arratéis de ouro, o equivalente a 14.080 oitavas, apenas na cobrança do imposto devido à Coroa.

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Cidade mais importante do Reino

Para compreender a importância daquele período, é preciso lembrar que o Brasil ainda fazia parte do Reino de Portugal.

Com a descoberta das minas, Taubaté passou a concentrar o controle da principal riqueza do império português nas Américas. Segundo a pesquisa do Almanaque Urupês, por alguns anos a vila tornou-se a mais importante do reino em território brasileiro e uma das mais relevantes de todo o império, atrás apenas de Lisboa.

Era em Taubaté que o ouro era oficialmente recebido, fiscalizado, tributado e transformado em riqueza monetária para a Coroa Portuguesa.

O historiador Pedro Calmon, em sua obra História da Civilização Brasileira, definiu a criação da Casa de Fundição de Taubaté como "o início de uma nova civilização", em referência ao impacto econômico provocado pela exploração do ouro.

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A prensa que nunca chegou

O crescimento das atividades levou o governador Artur de Sá Menezes, sucessor de César Antônio Pais de Sande, a enviar, em 1702, um engenho de cunhagem — uma prensa destinada à fabricação das moedas.

A máquina desembarcou em Paraty, mas jamais chegou a Taubaté.

O capitão-mor da vila alegou que o equipamento era pesado demais para ser transportado pela Serra do Mar. A justificativa foi aceita pelo então governador Álvaro da Silveira Albuquerque, que determinou o armazenamento da prensa em local seguro até nova decisão da Coroa.

Dois anos depois, em 1704, uma Carta Régia criou a Casa de Fundição de Paraty, encerrando o protagonismo exercido por Taubaté.

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Ouro não significou riqueza para Taubaté

Apesar de controlar a principal riqueza do império português por quase uma década, Taubaté não se transformou em uma cidade próspera naquele período.

De acordo com Angelo Rubim e Pedro Rubim, a maior parte do ouro seguia para Portugal. A economia local permaneceu modesta e muitos moradores deixaram a vila para tentar fortuna diretamente nas regiões mineradoras.

O principal reflexo da atividade foi o aumento da presença militar, necessária para proteger as cargas de ouro que chegavam das minas.

O desenvolvimento urbano da cidade só ganharia força mais de um século depois, ao longo do século 19.

Onde funcionava a Casa de Fundição

Embora não exista um registro definitivo sobre o endereço exato, as pesquisas do Almanaque Urupês apontam que a antiga Casa de Fundição provavelmente funcionava nas proximidades do Convento de Santa Clara, entre as atuais ruas Visconde do Rio Branco e Gastão da Câmara Leal, ou ainda na região onde hoje está instalado o Fórum de Taubaté.

Na época da fundação da Casa de Fundição, o entorno era pouco ocupado. A urbanização daquela área só aconteceria de forma mais intensa na segunda metade do século 19.

Mais de três séculos depois, a antiga Casa de Fundição permanece como um dos capítulos mais relevantes — e menos conhecidos — da história de Taubaté. A cidade foi o primeiro grande centro de controle do ouro brasileiro e desempenhou papel decisivo na organização econômica da exploração mineral que mudaria os rumos da colonização portuguesa na América.

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