A antiga Avenida Cavarucanguera, em Taubaté, é muito mais do que uma via que marcou gerações de moradores. Seu nome guarda pistas sobre a formação do Vale do Paraíba, a influência indígena na cultura regional e até mesmo a origem de características marcantes do sotaque caipira, tão presente no interior paulista.
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Antes de se tornar a atual Avenida Brigadeiro José Vicente de Faria Lima, a Cavarucanguera integrava uma região atravessada por antigas trilhas indígenas que, tempos depois, serviriam de base para o chamado Caminho do Ouro Paulista. Por essas rotas passavam bandeirantes, tropeiros, exploradores e carregamentos de ouro que seguiam entre Minas Gerais e o porto de Paraty, no Rio de Janeiro, durante o período colonial.
A ligação da Cavarucanguera com esse importante corredor histórico faz da região um dos marcos da ocupação e do desenvolvimento de Taubaté. Os caminhos abertos pelos povos indígenas conectavam o interior ao litoral e foram fundamentais para a expansão econômica da colônia portuguesa.
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Essa reportagem integra o projeto especial Taubaté#400, desenvolvido por OVALE, com apoio institucional da Prefeitura de Taubaté. Veja a apresentação do projeto nesse link.
Sotaque caipira
Mas a importância da Cavarucanguera vai além da geografia e da história. Seu próprio nome ajuda a explicar um fenômeno linguístico que influenciou profundamente a fala dos paulistas do interior.
Segundo o historiador Angelo Rubim, pesquisador do Almanaque Urupês, e o tupinólogo taubateano Hugo Di Domenico, autor da obra "Léxico Tupi-Português", o termo Cavarucanguera deriva do tupi antigo e pode ser interpretado como "caveira de cavalo" ou "ossada de cavalo".
A palavra traz um detalhe curioso: os indígenas não possuíam, em muitas de suas línguas, o som correspondente à letra "L". Por isso, quando tiveram contato com os cavalos trazidos pelos europeus, passaram a pronunciar "cavalo" como "cavaro".
Esse fenômeno linguístico é conhecido como rotacismo, processo em que o som do "L" é substituído pelo "R". A influência indígena sobre a chamada Língua Geral Paulista — mistura de português e tupi amplamente falada no Brasil até o século 18 — deixou marcas que permanecem até hoje no vocabulário popular.
É justamente essa herança que ajuda a explicar expressões típicas do falar caipira, como "pranta" em vez de planta, "farta" em vez de falta e "bicicreta" no lugar de bicicleta. Muito antes de serem vistas como simples regionalismos, essas formas de pronúncia carregam séculos de história e o encontro entre culturas indígenas e europeias.
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Caveira de cavalo
A tradição oral também preserva uma curiosa explicação para o surgimento do nome Cavarucanguera. Segundo relatos antigos, uma caveira de cavalo teria sido colocada sobre uma estaca na região para atrair sorte e prosperidade às plantações.
Apesar de o bairro ainda conservar o nome histórico, a antiga avenida foi rebatizada em dezembro de 1969. Por iniciativa do vereador Daniel Pereira da Silva, passou a homenagear o brigadeiro José Vicente de Faria Lima, ex-prefeito de São Paulo que havia recebido o título de cidadão taubateano dois anos antes.
Mesmo com a mudança, a memória da antiga Cavarucanguera permanece viva. O nome segue identificado ao bairro, à Praça Cavarucanguera e, principalmente, à história de Taubaté. Uma história que conecta os antigos caminhos do ouro, as raízes indígenas e a origem de um dos sotaques mais característicos do Brasil.
* Com informações do Almanaque Urupês