Durante os primeiros 250 anos de sua história, Taubaté cresceu de forma lenta e chegou a enfrentar o risco de permanecer uma pequena vila de passagem. Apesar da importância estratégica durante o ciclo do ouro em Minas Gerais, a riqueza gerada pelo metal precioso não permaneceu na cidade. O verdadeiro desenvolvimento econômico só viria décadas depois, impulsionado pela expansão da cultura do café no século 19.
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Essa é uma das conclusões da pesquisa desenvolvida pelos historiadores e pesquisadores Angelo Rubim e Pedro Rubim, responsáveis pelo Almanaque Urupês, que reúne documentos históricos e estudos sobre a formação de Taubaté e do Vale do Paraíba.
Segundo os pesquisadores, a descoberta do ouro em Minas Gerais colocou Taubaté em posição privilegiada no fim do século 17. A vila tornou-se um importante ponto de apoio para bandeirantes, comerciantes e expedições que seguiam em direção às minas. No entanto, esse protagonismo não foi suficiente para promover um crescimento urbano consistente.
Essa reportagem integra o projeto especial Taubaté#400, desenvolvido por OVALE, com apoio institucional da Prefeitura de Taubaté, Unitau (Universidade de Taubaté) e Creci (Conselho Regional de Corretores de Imóveis). Veja a apresentação do projeto nesse link.
Entreposto comercial
Durante décadas, Taubaté funcionou principalmente como um entreposto comercial. Pessoas chegavam, abasteciam suas tropas e seguiam viagem. Poucos permaneciam definitivamente na cidade. Esse movimento explica por que o crescimento populacional permaneceu bastante contido nos seus primeiros dois séculos e meio de existência.
De acordo com Angelo e Pedro Rubim, o ciclo do ouro foi relativamente curto. Nos primeiros 20 a 30 anos após a confirmação da descoberta das jazidas mineiras, houve intensa extração. Porém, o volume caiu rapidamente, reduzindo a circulação de riquezas e encerrando um período de prosperidade que durou pouco.
Os pesquisadores destacam que Taubaté teve papel decisivo na história da mineração brasileira. Foi da cidade que partiu a notícia confirmando a existência de ouro em abundância e de boa qualidade em Minas Gerais, informação levada ao Rio de Janeiro pelo bandeirante Carlos Pedroso da Silveira. A descoberta foi resultado de quase dois séculos de buscas iniciadas logo após a colonização portuguesa.
Antes disso, diversas expedições já percorriam o interior em busca de metais preciosos. Entre elas, destacam-se as viagens atribuídas ao bandeirante Antônio Rodrigues Arzão, considerado um dos pioneiros na localização de ouro na região mineira, embora tenha hesitado em anunciar oficialmente a descoberta por receio dos riscos durante a viagem de retorno.
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Caminhos do ouro passavam por Taubaté
A pesquisa também revela que Taubaté ocupava posição estratégica na ligação entre São Paulo e Minas Gerais. Um dos acessos mais utilizados passava pela Garganta do Piracuama, caminho considerado tão favorável ao transporte clandestino de ouro que acabou sendo fechado pela Coroa Portuguesa para combater o contrabando.
A alternativa oficial passou a ser a rota pela Garganta do Embaú, mais fácil de fiscalizar. Mesmo assim, o intenso fluxo de viajantes consolidou Taubaté como ponto de apoio obrigatório para quem seguia em direção às áreas de mineração.
Estudos históricos indicam ainda que, entre 1695 e 1704, aproximadamente 250 quilos de ouro passaram pela Casa de Fundição de Taubaté apenas na forma de tributos oficiais. Os pesquisadores ressaltam que esse volume pode ter sido muito maior, considerando a grande quantidade de ouro desviada do controle da Coroa.
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Cidade viveu período de dificuldades
Apesar da movimentação econômica provocada pelo ouro, a riqueza concentrava-se nas regiões mineradoras. Como consequência, Taubaté não experimentou um desenvolvimento urbano significativo naquele período.
Os pesquisadores explicam que a inflação provocada pela mineração elevava o preço dos alimentos e incentivava produtores a abastecer Minas Gerais, reduzindo os investimentos locais. Esse cenário limitava o crescimento econômico da vila.
Relatos históricos reforçam essa realidade. No início do século 19, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire descreveu Taubaté como a principal vila do Vale do Paraíba, mas registrou sinais evidentes de pobreza e dificuldades econômicas.
A pesquisa mostra que a cidade chegou a correr o risco de permanecer apenas como um ponto de passagem entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Sua sobrevivência esteve diretamente ligada à posição geográfica privilegiada, utilizada pelas expedições que avançavam para o interior do Brasil.
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Café transforma a economia
Foi somente com a expansão da cafeicultura que Taubaté iniciou uma fase de crescimento acelerado. A produção cafeeira transformou a economia regional, impulsionou investimentos, ampliou a população e consolidou a cidade como um dos principais polos econômicos do Vale do Paraíba durante o século 19.
Antes do café, outras atividades, como a produção de cana-de-açúcar e a economia baseada no trabalho escravizado, contribuíram para sustentar a região. Inclusive, a pesquisa identifica o primeiro registro nominal conhecido de uma pessoa escravizada em Taubaté: um homem chamado Augustinho, documento localizado por pesquisadores dedicados à história local.
Para Angelo e Pedro Rubim, compreender esse período ajuda a desfazer a ideia de que Taubaté enriqueceu imediatamente com o ouro. Na realidade, a cidade passou por décadas de crescimento lento, enfrentou dificuldades econômicas e somente alcançou prosperidade quando o ciclo do café redefiniu o desenvolvimento do Vale do Paraíba.