Poucas cidades do interior paulista ainda preservam, em seu centro histórico, o desenho urbano criado há quase 400 anos. Em Taubaté, algumas das primeiras ruas abertas durante a fundação da cidade continuam praticamente com o mesmo traçado do século 17, formando um verdadeiro roteiro pela história do Vale do Paraíba.
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As vias estreitas que ligam a Igreja Matriz, a Capela do Pilar e a Igreja do Rosário revelam o núcleo original da cidade e ajudam a contar como Taubaté se tornou um dos principais pontos de ocupação do interior paulista durante o período das bandeiras.
Muito antes da chegada da ferrovia e do ciclo do café, Taubaté já desempenhava um papel estratégico na expansão do território paulista. A partir da cidade surgiram outros importantes núcleos urbanos da região, como Pindamonhangaba e Tremembé, consolidando sua posição como um dos berços da ocupação do Vale do Paraíba.
Essa reportagem integra o projeto especial Taubaté#400, desenvolvido por OVALE, com apoio institucional da Prefeitura de Taubaté, Unitau (Universidade de Taubaté), Creci (Conselho Regional de Corretores de Imóveis) e da empresa Milclean. Veja a apresentação do projeto nesse link.
Traçado original permanece identificável
Segundo o arquiteto e professor aposentado de História da Cultura e Patrimônio Cultural da Unitau (Universidade de Taubaté), Benedito Assagra Ribas de Mello, ex-presidente do Conselho de Patrimônio Histórico da cidade, o traçado urbano original permanece facilmente identificável.
"Podemos dizer que o núcleo compreendido entre a Igreja do Rosário, a Matriz e a Capela do Pilar preserva o traçado original da cidade. São aquelas ruas estreitas e pequenas", afirma.
Ele explica que a configuração das vias ainda lembra as cidades paulistas do século 19.
"Se observarmos fotografias antigas de São Paulo feitas por Militão Augusto de Azevedo, muitas imagens poderiam facilmente ser confundidas com Taubaté. As ruas estreitas, os lampiões a gás, os sobrados com grandes beirais... tudo isso fazia parte da mesma técnica construtiva e da mesma arquitetura."
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As primeiras ruas de Taubaté
O núcleo urbano surgiu em terrenos planos, onde era possível utilizar a taipa de pilão, principal técnica construtiva dos primeiros paulistas. Feitas de terra compactada, essas edificações exigiam áreas sem grandes declives para garantir sua estabilidade.
Foi nesse cenário que nasceram as primeiras ruas da cidade, organizadas ao redor da antiga capela que deu origem à atual Igreja Matriz. Ali também está o marco zero de Taubaté, localizado na soleira da igreja, ponto utilizado até hoje como referência para medir as distâncias do município.
Ao longo dos séculos, o centro cresceu, mas preservou a estrutura urbana inicial, permitindo que moradores e visitantes caminhem praticamente pelo mesmo caminho percorrido pelos primeiros habitantes da cidade.
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O eixo religioso que moldou a cidade
A organização do centro histórico foi marcada por um eixo religioso que atravessa alguns dos principais patrimônios de Taubaté.
Esse percurso começa no Convento de Santa Clara, passa pela Capela do Pilar, segue até a Igreja Matriz, alcança a Igreja do Rosário e, posteriormente, foi ampliado com a inclusão da Igreja de Santa Teresinha.
Cada um desses monumentos representa uma fase da formação da cidade.
O Convento de Santa Clara simboliza o início da ocupação territorial e a chegada do ensino religioso. A Capela do Pilar, considerada uma das maiores joias do patrimônio paulista, preserva características únicas da arquitetura brasileira em taipa de pilão.
“A Capela do Pilar é uma verdadeira joia. É uma construção impecável e sempre digo que é uma alegria contemplá-la. É uma pena que permaneça fechada. Espero que volte a ser aberta ao público o quanto antes”, destaca Benedito.
Já a Igreja Matriz concentra parte importante da história local. Embora tenha passado por diversas reformas, ainda conserva trechos originais em taipa de pilão e um altar-mor rococó esculpido em madeira.
No outro extremo do núcleo histórico está a Igreja do Rosário, considerada um dos monumentos mais importantes da cidade.
Além de representar a memória da população escravizada que participou da construção de Taubaté, o templo também marcava o limite urbano da antiga vila.
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O antigo eixo comercial
Enquanto as igrejas estruturavam a vida religiosa, outro conjunto de vias organizava a economia da cidade.
O chamado eixo comercial ligava o Mercado Municipal à antiga estação ferroviária, inaugurada na década de 1870. A chegada dos trilhos transformou Taubaté em um dos principais centros econômicos do Vale do Paraíba e impulsionou o crescimento urbano em direção à ferrovia.
Segundo Benedito, durante muitos anos o centro histórico foi delimitado por quatro grandes referências urbanas: o Convento de Santa Clara, a Igreja do Rosário, o Mercado Municipal e a estação ferroviária.
Esses pontos formavam uma espécie de cruz sobre a cidade. Um dos eixos concentrava o comércio; o outro reunia os principais edifícios religiosos que moldaram a identidade de Taubaté.
Mais tarde, com o desenvolvimento industrial, esse núcleo foi ampliado para incluir patrimônios como a CTI (Companhia Taubaté Industrial), a antiga Fábrica Corozita, o Colégio Bom Conselho, o prédio Adolfo Lutz e outras construções que passaram a integrar a paisagem histórica do município.
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Patrimônio que conta a história do Vale
A riqueza arquitetônica de Taubaté acompanha praticamente todos os ciclos econômicos que marcaram o estado de São Paulo.
A Capela do Pilar remete ao ciclo do ouro e possui forte ligação com a Inconfidência Mineira. As antigas casas senhoriais, como a residência da família Oliveira Costa e o Solar da Viscondessa, representam a prosperidade proporcionada pelo café.
Já a antiga estação ferroviária, a CTI e a Corozita simbolizam a industrialização que transformou o município entre o fim do século 19 e o início do século 20.
Para Benedito, cada edifício preservado representa uma etapa da formação da cidade.
“Podemos identificar, por meio do patrimônio tombado da cidade, diferentes momentos da história de Taubaté.”
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Preservar é cuidar da identidade
Apesar de ainda reunir um dos conjuntos históricos mais importantes do interior paulista, Taubaté perdeu parte significativa de seu patrimônio ao longo do desenvolvimento urbano.
Mesmo assim, o arquiteto acredita que os edifícios históricos continuam exercendo um papel essencial na vida da população.
“O patrimônio cultural construído representa a memória desses quase 400 anos de história. Não se trata de uma joia guardada apenas para ser mostrada aos visitantes. O patrimônio precisa fazer parte do cotidiano.”
Para ele, preservar esses espaços vai muito além da arquitetura.
“Esses patrimônios não servem apenas para enfeitar a cidade. Eles dão dignidade, identidade ao taubateano e representam mais um elemento de qualidade de vida.”
Ao caminhar pelas antigas ruas do centro, é possível perceber que Taubaté preserva muito mais do que construções centenárias. Conserva o desenho urbano que deu origem a uma das cidades mais importantes da história paulista e mantém viva a memória de quase quatro séculos de formação do Vale do Paraíba.