TAUBATÉ#400

Cidades, ouro e conquistas: veja as marcas de Taubaté em Minas

Por Xandu Alves | Taubaté
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução/Acervo Biblioteca Brasiliana Guita e José Midlin - BBM/UPS
Imagem 'Strasse im unteren Theile der Stadt Ouro Preto', de Herman Burmeister
Imagem 'Strasse im unteren Theile der Stadt Ouro Preto', de Herman Burmeister

Muito antes de o café transformar o Vale do Paraíba em um dos motores da economia brasileira, Taubaté já ocupava um papel decisivo na construção da história nacional. No fim do século 17 e início do século 18, a então vila foi o principal centro de onde partiram bandeirantes que desbravaram o interior do país, descobriram ouro em Minas Gerais e fundaram cidades que hoje fazem parte do patrimônio histórico brasileiro.

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Levantamentos históricos apontam que 18 municípios mineiros tiveram participação direta de taubateanos em sua fundação, um legado que poucos brasileiros conhecem, mas que ajudou a definir a ocupação territorial do país durante o período colonial.

Entre as cidades estão Sabará, Mariana, Pouso Alto, Baependi, Campanha, Pitangui, Itaverava, Ouro Preto, Antônio Dias, São João del-Rei, Tiradentes, Carrancas, Piranga, Aiuruoca, Caxambu, Itabira, Delfim Moreira e Itutinga.

Os dados foram reunidos pela paleógrafa Lia Carolina Prado Alves Mariotto, autora do estudo “Expansão taubateana em território mineiro”, considerado uma das principais referências sobre a presença dos bandeirantes taubateanos em Minas Gerais.

Essa reportagem integra o projeto especial Taubaté#400, desenvolvido por OVALE, com apoio institucional da Prefeitura de Taubaté, Unitau (Universidade de Taubaté) e Creci (Conselho Regional de Corretores de Imóveis). Veja a apresentação do projeto nesse link.

Taubaté era a porta de entrada para Minas Gerais

A importância de Taubaté não aconteceu por acaso.

Fundada oficialmente em 1645 por Jacques Félix, a vila era o primeiro grande núcleo urbano do Vale do Paraíba e ocupava uma posição estratégica entre o litoral paulista e o sertão ainda pouco conhecido pelos portugueses.

Na prática, quem desejava seguir em direção às terras onde se acreditava existir ouro passava por Taubaté.

Na época, o antigo Termo de Taubaté possuía dimensões gigantescas, alcançando áreas que hoje pertencem ao Vale do Paraíba, ao litoral paulista e ao atual território mineiro. A vila tornou-se uma espécie de base logística para as bandeiras que buscavam riquezas no interior da colônia.

Pesquisas dos historiadores Angelo Rubim e Pedro Rubim mostram que décadas antes da confirmação das jazidas mineiras já existia intensa circulação de exploradores utilizando caminhos que partiam da cidade.

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O primeiro ouro encontrado em Minas

Entre os personagens mais importantes dessa história está o bandeirante Antônio Rodrigues Arzão, nascido em Taubaté.

Segundo a tradição histórica, foi ele quem encontrou, em 1693, as primeiras evidências de ouro em Minas Gerais, tornando-se um dos pioneiros da mineração brasileira.

A descoberta mudaria completamente os rumos da economia colonial.

Poucos anos depois, novas expedições partiram da cidade e chegaram às regiões que dariam origem às minas de Ouro Preto, Mariana e São João del-Rei, desencadeando uma das maiores corridas do ouro da história portuguesa.

Outro nome marcante foi o do bandeirante Antônio Dias, que participou da exploração dos ribeirões de Ouro Preto e acabou dando nome a um dos mais tradicionais distritos da cidade histórica mineira.

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Como nasceram cidades históricas

Os primeiros desbravadores seguiam pela Serra da Mantiqueira enfrentando meses de viagem.

Depois de localizar ouro, os acampamentos improvisados rapidamente se transformavam em povoados.

Com a chegada de novos moradores, comerciantes e autoridades portuguesas, surgiam igrejas, casas, mercados e, posteriormente, vilas oficialmente reconhecidas pela Coroa.

Foi assim que nasceram algumas das cidades mais importantes do período colonial, hoje conhecidas mundialmente por sua arquitetura barroca e pelo patrimônio cultural preservado.

O município de Piranga é um exemplo dessa influência. Seu fundador, o bandeirante João de Siqueira Afonso, era natural de Taubaté e iniciou o povoamento da região após estabelecer um centro de exploração aurífera às margens do rio Guarapiranga, atual rio Piranga.

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A riqueza passou por Taubaté

A descoberta do ouro elevou ainda mais a importância da antiga vila paulista.

Pesquisadores destacam que a notícia oficial da existência de grandes jazidas saiu de Taubaté rumo ao Rio de Janeiro, consolidando a cidade como elo entre as minas e a administração portuguesa.

Durante alguns anos, Taubaté chegou a sediar uma Casa de Fundição, responsável pela arrecadação do chamado "quinto do ouro", imposto cobrado pela Coroa Portuguesa sobre a produção mineral.

Na prática, a cidade tornou-se um dos principais centros administrativos da riqueza produzida no Brasil colonial.

Influência que atravessou fronteiras

A relação entre Taubaté e Minas Gerais não ficou restrita ao ciclo do ouro.

No século 18, o barroco mineiro inspirou construções importantes na cidade do Vale do Paraíba, como a Capela de Nossa Senhora do Pilar.

Também durante a Inconfidência Mineira, dois taubateanos participaram do movimento contra a Coroa Portuguesa. O padre Carlos Corrêa de Toledo Piza e seu irmão, Luiz Vaz de Toledo Piza, foram condenados ao degredo por envolvimento na conspiração de 1789.

Décadas depois, em 1822, moradores de Taubaté integraram a comitiva que acompanhou dom Pedro até a proclamação da Independência do Brasil.

Taubaté quase virou capital de uma nova província

A relevância histórica da cidade permaneceu ao longo do século 19.

Em 1887, o senador Joaquim Floriano de Godoy apresentou um projeto propondo a criação da Província do Rio Sapucaí, formada pelo Sul de Minas Gerais e pelo Norte de São Paulo.

A capital escolhida seria justamente Taubaté.

A justificativa destacava a infraestrutura urbana da cidade, sua importância econômica e sua posição estratégica para administrar a nova unidade federativa.

Embora a proposta nunca tenha sido aprovada, ela demonstra o prestígio que Taubaté possuía no cenário político brasileiro da época.

Um legado pouco conhecido

Para os historiadores, compreender a participação de Taubaté na expansão territorial do Brasil também exige reconhecer as consequências desse processo para os povos indígenas que habitavam a região. As expedições bandeirantes abriram caminhos para a ocupação colonial, mas ocorreram em um contexto marcado por conflitos, violência e escravização de comunidades originárias.

Ao mesmo tempo, é inegável que a antiga vila exerceu papel central na interiorização do território brasileiro e na formação de Minas Gerais.

Passados mais de 300 anos, cidades como Ouro Preto, Mariana, Tiradentes e São João del-Rei continuam atraindo milhões de turistas interessados na história do Brasil — uma trajetória que começou, em grande parte, com homens que partiram de Taubaté em direção ao desconhecido.

* Com informações do Almanaque Urupês

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