Muito antes de se consolidar como um dos principais polos urbanos do Vale do Paraíba, Taubaté já escrevia parte da história da música brasileira. A cidade preserva um dos mais antigos registros musicais do país: os Motetos de Taubaté, conjunto de oito composições sacras do século 18 que representa um valioso testemunho da cultura e da religiosidade no período colonial.
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Os manuscritos foram localizados pelo musicólogo Régis Duprat durante suas pesquisas e receberam o nome de Motetos de Taubaté justamente por terem sido encontrados na cidade.
Embora as cópias preservadas sejam do início do século 19, especialistas afirmam que as obras foram compostas no século 18, tornando-se algumas das mais antigas peças musicais preservadas no Brasil.
As partituras foram transcritas pela pesquisadora Mary Angela Biason e passaram a ser executadas a partir de 1984. Posteriormente, integraram a obra Música Sacra Paulista (1999), organizada por Duprat.
Segundo o historiador Angelo Rubim, pesquisador e editor do Almanaque Urupês, a descoberta revela importantes aspectos das práticas culturais e religiosas desenvolvidas em Taubaté durante o período colonial.
“São peças sem autoria definida, mas inegavelmente composições do século 18 e constituem eloquente amostragem do repertório executado no Vale em época tão recuada de nossa história”, disse Angelo em vídeo no canal do Almanaque.
Mesmo sem autoria conhecida, os motetos representam uma rara amostra do repertório executado no Vale do Paraíba há mais de dois séculos. Para Duprat, trata-se de um conjunto de enorme importância histórica para compreender a formação da música sacra paulista e brasileira.
Essa reportagem integra o projeto especial Taubaté#400, desenvolvido por OVALE, com apoio institucional da Prefeitura de Taubaté, Unitau (Universidade de Taubaté) e Creci (Conselho Regional de Corretores de Imóveis). Veja a apresentação do projeto nesse link.
Música da Procissão dos Passos
As oito composições eram executadas durante a tradicional Procissão dos Passos, celebração da Quaresma trazida de Portugal ainda no período colonial.
O ritual representa o caminho percorrido por Jesus Cristo até o Calvário, dividido em sete estações. Em cada parada havia um oratório onde era cantado um moteto em latim, inspirado em episódios da Paixão de Cristo.
No Brasil, há registros dessa tradição desde o século 17. Em São Paulo e Minas Gerais, a devoção foi amplamente difundida por irmandades religiosas e ordens terceiras, tornando-se uma das manifestações religiosas mais populares da América Portuguesa.
O pesquisador Paulo Castagna, autor de estudos sobre a Procissão dos Passos, destaca que essa cerimônia foi uma das práticas devocionais que mais rapidamente se espalharam pelo país durante o período colonial.
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Oito composições preservadas
O acervo reúne as seguintes obras: Pater Mi, Bajulans, Angariaverunt, O Vos Omnes, Exeamus, Filiae Jerusalem, Popule Meus, e Domine Jesu. Todas foram compiladas por Régis Duprat na publicação Música Sacra Paulista.
Entre as obras mais conhecidas está O Vos Omnes, interpretada pelo CoralUSP sob regência do professor Alberto Cunha.
O texto é inspirado nas Lamentações do profeta Jeremias e faz referência ao sofrimento diante da destruição de Jerusalém. Em tradução livre, diz: "Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se existe dor semelhante à minha dor".
Segundo Alberto Cunha, diversos compositores escreveram obras com esse mesmo texto ao longo da história da música. A versão encontrada em Taubaté, porém, possui características do classicismo europeu do século 18 e foi escrita para coro misto em quatro vozes.
Para o regente, os Motetos de Taubaté figuram entre as mais antigas composições musicais preservadas no Brasil.
A interpretação de O Vos Omnes, acompanhada por uma explicação sobre sua importância histórica e musical, está disponível no Acervo CoralUSP e também foi destacada pelo Almanaque Urupês (veja aqui).
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Patrimônio histórico do Vale do Paraíba
Mais do que um conjunto de partituras antigas, os Motetos de Taubaté ajudam a preservar parte da memória cultural brasileira. As composições revelam como a música fazia parte das manifestações religiosas do período colonial e reforçam a relevância histórica de Taubaté na formação do patrimônio artístico nacional.
A descoberta também evidencia que o Vale do Paraíba desempenhou papel importante na preservação de tradições musicais que atravessaram séculos e continuam sendo estudadas e executadas por pesquisadores e músicos especializados em música antiga.
* Com informações do Almanaque Urupês