TAUBATÉ#400

Luta por fé e liberdade: conheça a Igreja do Rosário de Taubaté

Por Xandu Alves | Taubaté
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução/Mistau
Igreja do Rosário de Taubaté
Igreja do Rosário de Taubaté

Poucos edifícios em Taubaté carregam uma história tão profunda quanto a Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Muito mais do que um patrimônio arquitetônico, o templo preserva a memória da população negra que ajudou a construir a cidade e encontrou naquele espaço um raro ambiente de organização, acolhimento e resistência durante o período escravista.

Clique aqui para fazer parte da comunidade de OVALE no WhatsApp e receber notícias em primeira mão. E clique aqui para participar também do canal de OVALE no WhatsApp

Pesquisas dos historiadores Angelo Rubim e Pedro Rubim, pesquisadores e editores do Almanaque Urupês, indicam que a Irmandade do Rosário dos Pretos da Vila de Taubaté surgiu entre o fim do século 17 e o início do século 18, há mais de 320 anos. A confraria recebeu autorização para funcionar em uma capela própria em 1705, construída pelos próprios integrantes.

A importância da igreja era tamanha que a principal via da cidade passou a ser conhecida como Rua do Rosário. Somente no final do século 19 a denominação foi alterada para Rua Visconde do Rio Branco.

Em 2024, a digitalização do “Compromisso da Irmandade da Senhora do Rozario dos Pretos da Vila de Taubate”, publicada pelo Arquivo Histórico Ultramarino, reforçou informações já apresentadas na tese da historiadora Fábia Barbosa Ribeiro, referência nacional nos estudos sobre as irmandades negras no Vale do Paraíba.

Segundo a pesquisadora, essas confrarias reuniam africanos, crioulos, libertos, escravizados, pardos e até pessoas brancas, funcionando como importantes espaços de organização social, assistência mútua e vivências de liberdade em uma sociedade marcada pela escravidão.

Essa reportagem integra o projeto especial Taubaté#400, desenvolvido por OVALE, com apoio institucional da Prefeitura de Taubaté, Unitau (Universidade de Taubaté), Creci (Conselho Regional de Corretores de Imóveis) e da empresa Milclean. Veja a apresentação do projeto nesse link.

Um patrimônio da memória negra

Para Angelo Rubim, a Igreja do Rosário representa um dos maiores símbolos da história de Taubaté.

“Essa é a Igreja do Rosário de Taubaté, um dos mais importantes patrimônios arquitetônicos da cidade. Ela foi construída no lugar onde antes existia uma capela da mesma devoção, erguida pela Irmandade do Rosário dos Pretos da Vila de Taubaté por volta de 1700. Era uma irmandade formada e liderada por pessoas escravizadas”, disse ele em vídeo do Almanaque Urupês.

Antes de possuir um templo próprio, a confraria realizava suas atividades em um altar da antiga Igreja Matriz. Com a autorização recebida em 1705, passou a contar com sua própria capela, consolidando um espaço de referência para centenas de irmãos.

O ingresso na irmandade exigia o compromisso formal dos participantes e o pagamento periódico de contribuições. Em troca, os membros encontravam uma verdadeira rede de proteção espiritual e social.

"A irmandade promovia missas regulares, auxiliava irmãos enfermos, garantia os sacramentos aos moribundos, oferecia auxílio funerário, velório, sepultura sagrada e missas perpétuas para os irmãos falecidos", explica Angelo.

Toda essa estrutura era organizada por uma mesa diretora composta por juiz, escrivão, procurador, tesoureiro, andadores e outros irmãos responsáveis pela administração da instituição. Também existiam cargos simbólicos, como juiz, juíza, rei e rainha das festividades religiosas.

Leia mais: Ruas históricas de Taubaté preservam origem da cidade há 400 anos

Leia mais: Após o caminho de Minas, Taubaté descobre o 'ouro verde'

Leia mais: Cidades, ouro e conquistas: veja as marcas de Taubaté em Minas

Espaço de resistência e liberdade

Os estudos de Fábia Barbosa Ribeiro revelam que a Irmandade do Rosário era uma das poucas instituições capazes de proporcionar algum grau de autonomia à população negra durante o período escravista.

Segundo Angelo Rubim, a pesquisadora identificou que, embora senhores e escravizados participassem da confraria, os principais cargos eram ocupados justamente por pessoas escravizadas.

“A documentação mostra que a Irmandade era uma das poucas vias sociais de acesso à experiência da liberdade dentro do universo escravista.”

Ele lembra, porém, que ainda existem muitas lacunas sobre os primeiros cem anos da instituição.

“A documentação é fragmentada e incompleta, embora suficiente para revelar a importância daquela confraria. Há muito pouco sobre os seus cem primeiros anos, o que nos provoca a ampliar as pesquisas.”

Para o historiador, a igreja permanece como um monumento à memória da população negra de Taubaté.

“A Igreja se configura como símbolo da memória de pessoas que, parafraseando Fábia Ribeiro, encontravam ali algumas de suas experiências de liberdade.”

Leia mais: Taubaté levou ao ouro em Minas, mas não ficou com a riqueza

Leia mais: Formação de Taubaté causou expulsão, fuga e morte de indígenas

Leia mais: Taubaté abrigou Casa da Moeda e virou centro da riqueza colonial

Marco da formação urbana de Taubaté

O arquiteto Benedito Assagra Ribas de Mello, professor aposentado de História da Cultura e Patrimônio Cultural da Unitau (Universidade de Taubaté), afirma que o conjunto do Rosário possui valor histórico que vai além da arquitetura.

“Além de sua importância arquitetônica, a Igreja do Rosário representa a memória da população escravizada que contribuiu decisivamente para a construção da cidade.”

Segundo ele, a igreja também delimitava o antigo núcleo urbano taubateano.

“A cidade se estendia do Convento de Santa Clara até o Rosário. Atrás da igreja ficava o antigo cemitério, localizado fora do arrabalde da cidade.”

Com a chegada da Estrada de Ferro, na década de 1870, Taubaté passou a crescer em direção aos trilhos, ampliando seu centro histórico.

Benedito explica que esse núcleo original era formado por quatro referências urbanas: o Convento de Santa Clara, a Igreja do Rosário, o Mercado Municipal e a estação ferroviária.

“Esses pontos formavam uma cruz. Um eixo era comercial, ligando o Mercado à estação. O outro era religioso, passando por Santa Clara, Pilar, Matriz e Rosário.”

Arquitetura preserva técnica colonial

Outro destaque da Igreja do Rosário está em sua construção em taipa de pilão, uma das técnicas mais tradicionais da arquitetura colonial paulista.

O método consiste na compactação de barro entre grandes painéis de madeira, formando paredes largas e extremamente resistentes. Para garantir durabilidade, essas edificações eram construídas em terrenos planos e protegidas por grandes beirais, que evitavam a ação direta da chuva.

Segundo Benedito, essa técnica também pode ser encontrada em outros importantes edifícios históricos de Taubaté, como a Capela do Pilar, partes do Bom Conselho, a Casa Oliveira Costa, antigas estruturas do Palácio do Bispo e remanescentes da Catedral.

Mais de três séculos após sua origem, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário continua sendo um dos maiores símbolos da identidade de Taubaté. Entre paredes de taipa, documentos históricos e memórias preservadas, o templo segue lembrando que a história da cidade também foi construída pela fé, pela solidariedade e pela resistência da população negra.

Comentários

Comentários