Muito antes de se consolidar como uma das principais cidades do interior paulista, Taubaté surgiu como um grande empreendimento econômico da colonização portuguesa.
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A fundação da vila, em 1645, não teve como principal objetivo criar um núcleo urbano para formar uma comunidade permanente, mas servir aos interesses da Coroa Portuguesa na exploração das riquezas do interior do Brasil.
Essa é uma das principais conclusões das pesquisas desenvolvidas pelos historiadores Pedro Rubim e Angelo Rubim, do Almanaque Urupês.
Segundo eles, Taubaté nasceu como uma verdadeira "empresa colonial", criada para viabilizar a expansão rumo aos sertões e facilitar a busca pelo ouro que, acreditava-se, existia em abundância na lendária região do Sabarabuçu, no atual território de Minas Gerais.
Essa reportagem integra o projeto especial Taubaté#400, desenvolvido por OVALE, com apoio institucional da Prefeitura de Taubaté, Unitau (Universidade de Taubaté) e Creci (Conselho Regional de Corretores de Imóveis). Veja a apresentação do projeto nesse link.
Criação da vila
Na lógica econômica do século 17, fundar uma vila significava criar uma estrutura capaz de garantir segurança, abastecimento e controle administrativo para as expedições bandeirantes. Taubaté passou a desempenhar exatamente esse papel, tornando-se um dos principais pontos de apoio da colonização portuguesa na marcha para o interior.
Os pesquisadores explicam que havia um forte interesse da Coroa em localizar jazidas de metais preciosos. A crença na existência do chamado “Morro Dourado” (Sabarabuçu), descrito em relatos da época como uma região extremamente rica em ouro, estimulou sucessivas expedições e investimentos na abertura de caminhos.
Nesse contexto, Jacques Félix recebeu a missão de organizar a ocupação da região onde surgiria Taubaté. Sua atuação consistia em preparar o território para a expansão colonial, eliminando obstáculos que impediam a passagem das bandeiras rumo às áreas onde se acreditava existir ouro.
Remoção violenta de indígenas
Segundo Pedro Rubim e Angelo Rubim, essa preparação não significava apenas abrir trilhas na mata. O processo envolveu a remoção violenta dos povos indígenas que ocupavam o Vale do Paraíba.
A chamada "limpeza dos caminhos", expressão utilizada nos documentos da época, representava também o enfrentamento, a expulsão e, muitas vezes, o assassinato daqueles que resistiam ao avanço dos colonizadores.
Os pesquisadores destacam que a expansão portuguesa foi marcada por um intenso processo de violência contra as populações originárias. Inventários e testamentos do século 17 apontam que entre cinco mil e seis mil indígenas foram capturados e incorporados ao sistema colonial sob diferentes formas de escravização e servidão.
A eficiência atribuída a Jacques Félix pelos administradores coloniais estava diretamente ligada à capacidade de tornar seguro o acesso às rotas utilizadas pelas bandeiras. O objetivo era garantir que os exploradores alcançassem o interior sem enfrentar resistência indígena, permitindo a continuidade do projeto econômico da Coroa Portuguesa.
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Instituições fundamentais
Com a criação oficial da vila, Taubaté recebeu instituições fundamentais da administração colonial, como Câmara Municipal, cadeia, igreja e a distribuição das primeiras sesmarias. A estrutura consolidou a cidade como um centro estratégico para o avanço da ocupação do interior paulista.
A aposta econômica mostrou resultados. Bandeirantes que partiram de Taubaté participaram das expedições responsáveis pela localização das primeiras jazidas de ouro em Minas Gerais no final do século 17. A cidade passou, então, a ocupar posição privilegiada dentro da economia colonial.
O prestígio alcançado foi tamanho que Taubaté recebeu uma das primeiras Casas de Fundição e de Cunhagem de Ouro da região. Entre aproximadamente 1695 e 1704, tornou-se responsável pelo controle de parte significativa da produção aurífera, concentrando a arrecadação de impostos e a transformação do ouro em moeda oficial.
Crescimento econômico
Ao mesmo tempo em que impulsionou o crescimento econômico, esse processo deixou profundas marcas sociais e humanas. A expansão territorial portuguesa foi construída sobre conflitos, deslocamentos forçados e a desestruturação das comunidades indígenas que habitavam o Vale do Paraíba muito antes da chegada dos colonizadores.
Para Pedro Rubim e Angelo Rubim, compreender a origem de Taubaté exige olhar para todas essas dimensões. A cidade nasceu como um empreendimento econômico voltado à exploração de riquezas, mas sua história também reúne episódios de violência, conquista territorial, formação da cultura caipira e consolidação da ocupação do interior do Brasil.
Mais de 380 anos depois, a trajetória de Taubaté revela que sua fundação esteve muito além da criação de um simples povoado: foi parte de um ambicioso projeto econômico que ajudou a transformar o Vale do Paraíba em uma das regiões mais importantes da história da colonização portuguesa.
* Com informações do Almanaque Urupês