Quando se fala em touradas, a imagem que surge imediatamente é a da Espanha ou de Portugal. O que pouca gente sabe é que esse tipo de espetáculo também fez parte da vida cultural brasileira durante mais de dois séculos.
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Em Taubaté, no Vale do Paraíba, as corridas de touros atraíam multidões e aconteciam em algumas das ruas e praças mais tradicionais da cidade, hoje consideradas parte importante do patrimônio histórico local.
Documentos preservados em jornais antigos e pesquisas realizadas no Arquivo Histórico Municipal Félix Guisard Filho revelam que as touradas foram uma atração popular em Taubaté entre o final do século 19 e o início do século 20.
Os eventos reuniam moradores, visitantes e artistas especializados em apresentações que misturavam entretenimento, festividades religiosas e manifestações culturais herdadas da colonização portuguesa.
Essa reportagem integra o projeto especial Taubaté#400, desenvolvido por OVALE, com apoio institucional da Prefeitura de Taubaté, Unitau (Universidade de Taubaté) e Creci (Conselho Regional de Corretores de Imóveis). Veja a apresentação do projeto nesse link.
Tradições trazidas pelos portugueses
A historiadora Amanda Oliveira, formada pela Unitau (Universidade de Taubaté) e pesquisadora do Arquivo Histórico Municipal, além de mestranda em Filologia e Língua Portuguesa pela USP (Universidade de São Paulo), explica que a presença das touradas na região está diretamente ligada às tradições trazidas pelos portugueses.
"As touradas eram práticas comuns em diversas regiões do Brasil durante os séculos 18 e 19. Elas geralmente aconteciam associadas a festividades religiosas e celebrações públicas, funcionando como uma importante forma de entretenimento coletivo", afirma.
Segundo estudos do historiador Vitor Andrade de Melo, as corridas de touros eram realizadas em várias partes do país, frequentemente ao lado das cavalhadas e de grandes comemorações promovidas em datas festivas. As apresentações simbolizavam a ligação entre a colônia e a Coroa portuguesa e podiam durar vários dias.
Com a chegada da Família Real ao Brasil, em 1808, os espetáculos ganharam ainda mais força. A partir da década de 1820, as touradas deixaram de ser apenas uma atração vinculada às festas religiosas e passaram a se tornar eventos organizados comercialmente. Empresários contratavam toureiros, promoviam apresentações circenses e exploravam financeiramente os espetáculos.
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Touradas aconteciam em ruas históricas de Taubaté
Os registros mais antigos localizados em jornais da época mostram que Taubaté acompanhou essa tendência. A primeira notícia sobre uma tourada na cidade foi publicada pela Gazeta de Taubaté em 14 de agosto de 1881. O jornal informava a realização de apresentações organizadas pelo empresário Duarte Leitão durante as festividades ligadas à sagração de Dom José Pereira da Silva Barros, bispo de Olinda.
Mas o que mais chama a atenção é o local onde esses eventos aconteciam.
As arenas improvisadas eram montadas em algumas das vias e espaços urbanos mais antigos de Taubaté, muitos deles ainda existentes e conhecidos pela população.
Entre os locais identificados nos jornais históricos estão o Largo Costa Guimarães, atual Praça Santa Teresinha; a Rua Jacques Félix; a região da Rua Coronel João Afonso; o Largo Doutor Paula Toledo, próximo ao Mercado Municipal; a Rua 4 de Março; a Rua Doutor Winther e a área do Parque Doutor Barbosa.
É interessante observar que as touradas ocupavam espaços centrais da cidade, muitos deles considerados hoje áreas históricas de Taubaté. Isso demonstra como esses espetáculos estavam integrados ao cotidiano urbano e à vida social da população.
A Rua Jacques Félix, por exemplo, é uma das mais tradicionais do município e faz parte do núcleo urbano que se consolidou ainda nos primeiros séculos de ocupação da cidade. O mesmo ocorre com a Rua Doutor Winther, a Rua Coronel João Afonso e a região do Mercado Municipal, áreas que permanecem entre os principais marcos históricos do centro taubateano.
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Touradas em Taubaté / Almanaque Urupês
Touros, aplausos e multidões
Os jornais da época descrevem apresentações marcadas por emoção, risco e grande participação popular.
Uma das reportagens mais curiosas foi publicada pelo jornal O Noticiarista, em 1890, ao relatar as festividades do Senhor Bom Jesus, em Tremembé. O periódico descrevia os animais como "o terror da humanidade" e narrava episódios envolvendo os toureiros durante as apresentações.
Entre os destaques estava o espanhol Frederico Llado, conhecido como El Maneta. Segundo os relatos, ele conquistou o público ao realizar manobras que provocavam aplausos entusiasmados e até o lançamento de chapéus para dentro da arena.
Outras notícias registram desafios aos espectadores mais corajosos. Em dezembro de 1896, por exemplo, um dos touros foi liberado para que qualquer participante tentasse montá-lo. Quem conseguisse permanecer sobre o animal receberia uma recompensa em dinheiro.
Em 1906, outro fato chamou a atenção dos taubateanos: o empresário e toureiro Fernando Blasco promoveu corridas de touros durante a noite, uma novidade para a época.
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O fim das touradas no Brasil
Os registros encontrados nos jornais de Taubaté indicam que as apresentações continuaram acontecendo até pelo menos 1913. Aos poucos, porém, os interesses culturais da população começaram a mudar e as touradas perderam espaço.
O encerramento definitivo ocorreu em âmbito nacional em 1934, quando o presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto nº 24.645, que estabeleceu medidas de proteção aos animais. A legislação passou a considerar maus-tratos a realização de lutas entre animais e também as touradas e seus simulacros.
Os registros históricos não servem para celebrar a prática, mas para compreender a formação cultural da sociedade brasileira.
Esses documentos nos ajudam a entender hábitos, valores e formas de entretenimento de outras épocas. São vestígios importantes da memória coletiva e permitem compreender como a cultura local foi construída ao longo do tempo.
As lembranças das touradas também foram preservadas pelo escritor Oswaldo Barbosa Guisard em sua obra "Taubaté no aflorar do século". No livro, ele descreve os espetáculos, as roupas dos toureiros, a participação do público e a atmosfera das apresentações que movimentavam a cidade.
Hoje, quando as touradas são vistas pelos brasileiros como uma tradição exclusivamente espanhola, os documentos históricos revelam uma realidade surpreendente: durante décadas, elas fizeram parte da paisagem urbana de Taubaté e ocuparam algumas das ruas mais antigas e importantes do município, deixando marcas curiosas na memória da cidade.
* Com informações do Almanaque Urupês e da historiadora Amanda Oliveira
