Muito antes de ganhar ruas asfaltadas, prédios e avenidas movimentadas, Taubaté era uma espécie de “gigante” territorial do Brasil colonial. O antigo Termo de Taubaté abrangia uma área tão extensa que começava na região do litoral ligado à Capitania de Itanhaém, passava por Cunha e avançava rumo ao sertão que, mais tarde, se transformaria em Minas Gerais.
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Na prática, Taubaté foi um dos principais centros de poder e expansão territorial do interior paulista no século 17. A então vila funcionava como porta de entrada para o desconhecido — um elo estratégico entre a colônia portuguesa e o sertão ainda pouco explorado.
“Taubaté era uma região bem grande, que começava onde é a atual cidade de Cunha, lá tinha uma região chamada Facão, e terminava em Minas Gerais. Então, era o Termo de Taubaté”, explica o historiador e pesquisador do Almanaque Urupês, Angelo Rubim.
O chamado “Termo de Taubaté” era uma subdivisão administrativa e jurídica da época colonial. Isso significa que diversas cidades que hoje têm vida própria, como Pindamonhangaba e Caçapava, nasceram subordinadas à antiga vila taubateana antes de conquistarem independência política.
Era em Taubaté que se resolviam disputas de terra, inventários, nomeações e decisões administrativas de toda a região. O poder político e econômico irradiava dali.
Essa reportagem integra o projeto especial Taubaté#400, desenvolvido por OVALE, com apoio institucional da Prefeitura de Taubaté. Veja a apresentação do projeto nesse link.
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O início da ocupação do Vale
A história oficial de ocupação da região começa em 20 de janeiro de 1636, quando a donatária da Capitania de Itanhaém, a portuguesa Mariana de Sousa Guerra, a Condessa de Vimieiro, determinou que Jacques Felix organizasse a colonização do Vale do Paraíba.
Três anos depois, a ordem foi ratificada, e os primeiros núcleos populacionais começaram a surgir. Jacques Felix distribuiu sesmarias que partiam de Taubaté em direção ao litoral e também ao sertão mineiro.
A fundação oficial da vila ocorreu em 5 de dezembro de 1645, quando o povoado passou a reunir os requisitos exigidos pela Coroa Portuguesa: igreja matriz, cadeia e câmara municipal. Nascia ali a Vila de São Francisco das Chagas de Taubaté.
Embora os registros da época não indiquem o tamanho exato da população ou da área urbana, os historiadores afirmam que o pequeno núcleo já exercia influência gigantesca sobre o território.
“Era quase impossível, com os instrumentos precários daquela época, se fazer esse levantamento territorial. O que se sabe é que Taubaté começava na Capitania de Itanhaém, no litoral, e seguia até o sul de Minas. Era um território gigantesco”, disse Pedro Rubim, pesquisador do Almanaque Urupês.
Segundo ele, praticamente durante sete anos, entre 1645 e 1652, essa “Taubaté gigantesca” reinou praticamente sozinha. Esse território somente seria reduzido após as divisões que originaram Guaratinguetá e depois as demais outras cidades da região por desmembramento das duas “cidades-mãe”.
Mais do que um povoado, Taubaté se tornou um posto avançado da expansão portuguesa. Era como se a Coroa tivesse instalado um representante permanente na porta do sertão.
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A estrada que levava ao ouro
Décadas antes da explosão do ciclo do ouro em Minas Gerais, Taubaté já funcionava como passagem obrigatória para bandeirantes, tropeiros e exploradores.
Pesquisas da paleógrafa Lia Carolina Mariotto identificaram intensa movimentação na chamada “antevéspera do ciclo do ouro”. Em documentos antigos, inventários e testamentos, ela encontrou registros de propriedades distribuídas justamente ao longo do trajeto usado pelos antigos caminhos coloniais.
“Ela localizou propriedades de antigos sesmeiros justamente nesse percurso e passou a investigar por que havia tantas terras ocupadas nesse caminho”, contou Angelo Rubim.
Um dos pontos mais estratégicos era a Garganta do Piracuama, atual região de Pindamonhangaba. O local funcionava como acesso natural ao sertão. O caminho era tão importante que, em 1702, a Coroa proibiu o transporte de ouro por ali para evitar desvios do metal precioso.
Outro eixo fundamental era o Rio Una, que servia como referência para ligação até o Rio Paraíba. Na região de Tremembé, existia um marco colonial que indicava o encontro entre o Antigo Caminho do Ouro e a Estrada Geral de Piratininga.
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Terras indígenas e caminhos antigos
Os documentos históricos também revelam a presença indígena na região. Uma das referências mais antigas aparece na chamada “tapera do gentio”, localizada na sesmaria de Jacques Felix, em Tremembé.
Entre as missões do fundador de Taubaté estava justamente a chamada “pacificação dos índios”, prática comum — e violenta — durante a expansão colonial portuguesa.
Outro trecho histórico importante era o Caminho do Bom Jesus, uma das rotas mais antigas registradas no território taubateano.
Já uma das propriedades mais antigas conhecidas no trajeto colonial pertenceu a João do Prado Martins. Por volta de 1644, ele recebeu uma faixa de terras que começava no atual município de Jambeiro e seguia até o bairro do Faxinal, em Lagoinha, onde fica a famosa Cachoeira Grande.
De vila colonial à cidade
Apesar da importância histórica, Taubaté só recebeu oficialmente o título de cidade em 1842. Até então, era classificada como vila.
A mudança foi proposta pelo padre e deputado provincial Manoel Joaquim do Amaral Gurgel e oficializada por decreto assinado pelo presidente da Província de São Paulo, José da Costa Carvalho, o Barão de Monte Alegre.
Na prática, pouca coisa mudou além do nome. O antigo título “São Francisco das Chagas de Taubaté” já estava caindo em desuso, e a cidade passou a ser chamada simplesmente de Taubaté — nome que atravessou séculos e permaneceu até hoje.
Mas o legado daquela “gigante colonial” continua vivo. Em cada estrada antiga, nos caminhos do ouro e na origem das cidades vizinhas, Taubaté ainda carrega marcas do tempo em que comandava um território que ia do litoral paulista até as portas de Minas Gerais.
* Com informações do Almanaque Urupês