São José e eu somos leoninas, e sim, somos vaidosas e gostamos de elogios, mas a generosidade é nossa maior virtude. Gostamos de ver o sorriso alheio e a juventude prosperando através de nossos feitos. Nasci numa de suas veias principais, a avenida José Longo, imponente, importante. Passei minha infância na rua mais fofa do Vale dos Pinheiros, onde havia uma quadra inteirinha arborizada só para mim. Lembro do meu pai me mostrando a torre da Rhodia do outro lado do Banhado, no mês de dezembro toda enfeitada para o Natal. Ele também me levava para tomar caldo de cana lá perto do Viaduto da Alpargatas, hoje o Vale Sul. Nossa, aquilo era muito longe! E as manhãs de domingo? Eram tão doces.
Saíamos da missa da Sagrada Família para a fila do pão. Aquele pão era tão fofo, tão doce, tão cor-de-rosa, tinha gosto de felicidade. Nunca pude passear na Avenida Pôr do Sol aos domingos, a Anchieta, porque era muito jovem. Mas um dia, uma amiga e eu pegamos nossas Cecis e escapamos para lá. Ficamos fazendo zigue-zague com as bicicletas -- definitivamente, eu era jovem demais para paquerar. Noutra ocasião, nosso passeio acabou em um terrível acidente que me levou ao Policlin e naquele dia o sol não se pôs. Sou de uma São José de quando o bairro Jardim Satélite era longe demais, o Jardim Paulista era onde ficava o Zimbreira e o bairro do Vila Ema era só uma vila sem o charme de hoje.
Lá no Vale dos Pinheiros, às vezes, a Maria Isabel chamava as meninas para mostrar sua coleção de vinil do Elvis Presley e a cada capa ela contava um filme do astro. Às vezes, ela nos levava para comer cachorro-quente nas Lojas Americanas, na Rua 15 de Novembro. E às vezes, quando estava mais animada, nos levava ao cinema. Lembro-me de quando fomos assistir, num verão, Rocky III e a luz do cinema acabou porque caiu uma tempestade enorme no centro de São José dos Campos. Foi uma das maiores aventuras da minha vida.
São José cresceu comigo. Juntas, saímos de nossas zonas perimetrais, eu mesma passei um tempo sem perceber o quanto a cidade havia crescido.
Vieram o trabalho, o primeiro carro, as primeiras grandes responsabilidades. Acreditam que trabalhei na Johnson & Johnson? Sim, aos 19 anos. Foi uma experiência fantástica, mas no fundo sabia que aquele não era o meu lugar, minha vocação eram as Letras, daí encontrei meu caminho na Educação Joseense, claro.
É aqui que pertenço.
Hoje, São José tem bairros que nunca fui, mas continuo olhando para ela com os mesmos olhos de quem ama seu chão, não sei se ela me vê ainda como filhinha, faz tempo que minha São José não me abraça... Deve ser porque cresceu como eu e, às vezes, a sinto um pouco fria, talvez seja o clima, talvez seja essa condição de viver entre duas grandes capitais que causam essa sensação de reinvenção frenética...
Seja como for, uma coisa nunca mudou: São José dos Campos é, definitivamente, a minha cidade.

*Glauce Leite é escritora e professora em São José dos Campos