TAUBATÉ#400

Taubaté mudou a história do Brasil ao revelar o caminho do ouro

Por Xandu Alves | Taubaté
| Tempo de leitura: 5 min
Imagem gerada por IA
Caminho do Ouro Paulista colocou Taubaté no centro da História do Brasil
Caminho do Ouro Paulista colocou Taubaté no centro da História do Brasil

O caminho de Taubaté.

Muito antes da famosa Estrada Real ganhar os livros de História, Taubaté já ocupava um papel decisivo na descoberta do ouro brasileiro e na transformação econômica do país.

Clique aqui para fazer parte da comunidade de OVALE no WhatsApp e receber notícias em primeira mão. E clique aqui para participar também do canal de OVALE no WhatsApp

Pesquisas realizadas nas últimas décadas revelaram que o Vale do Paraíba abrigava um caminho mais antigo que a rota oficial da Coroa Portuguesa — uma trilha aberta ainda no século 16 e usada para transportar ouro de Minas Gerais até Paraty, no litoral fluminense, de onde seguia em navios rumo a Portugal.

A descoberta do chamado Caminho do Ouro Paulista colocou Taubaté novamente no centro da História do Brasil e reacendeu debates sobre o protagonismo da cidade no ciclo do ouro, um dos períodos mais importantes da formação econômica do país.

Essa reportagem integra o projeto especial Taubaté#400, desenvolvido por OVALE, com apoio institucional da Prefeitura de Taubaté. Veja a apresentação do projeto nesse link.

Leia mais: Taubaté#400: OVALE lança projeto para discutir o futuro da cidade

Leia mais: OVALE é protagonista no debate sobre o futuro de Taubaté

Documentos faziam referências ao antigo caminho

A pesquisa ganhou força a partir de 2008, quando a paleógrafa Lia Carolina Mariotto, após três décadas de trabalho no Arquivo Histórico de Taubaté, encontrou referências ao antigo caminho em documentos do século 17.

Ao analisar inventários, testamentos e registros de sesmarias, Lia percebeu que existiam menções constantes a uma rota usada antes mesmo da consolidação da Estrada Real.

“Nunca tinha estudado sobre uma estrada anterior ao caminho velho. Imaginei que teria alguém passando por lá, pois não teria razão uma estrada sem trânsito”, afirmou a pesquisadora em seus estudos.

A partir dos documentos, Lia reconstruiu no mapa moderno a antiga ligação entre Paraty e Taubaté. Segundo ela, o caminho começou a ser utilizado em 1596, décadas antes da fundação oficial da Vila de São Francisco das Chagas de Taubaté, em 1645.

O trajeto aproveitava antigas trilhas indígenas e cortava áreas rurais de Cunha, Lagoinha, Taubaté e Pindamonhangaba. Era por ali que o ouro vindo das minas seguia até o litoral.

Capítulo importante da história colonial brasileira

O pesquisador Pedro Rubim, do Almanaque Urupês, afirma que o caminho representa um dos capítulos mais importantes da história colonial brasileira.

“Portugal procurou ouro por cerca de 200 anos. A notícia que a Coroa queria ouvir veio a partir de Taubaté. Foram os taubateanos que informaram ao governador do Rio de Janeiro que as minas haviam sido encontradas”, explicou.

Segundo Pedro, o papel estratégico da cidade transformou Taubaté em uma espécie de posto avançado português no interior do Brasil.

“O ouro saía das Minas de Taubaté, como era chamado na época, passava pela Casa de Fundição instalada na cidade e descia até Paraty. Dali seguia para o Rio de Janeiro e depois para Portugal”, disse.

A Casa de Fundição funcionava próxima da atual Praça do Convento Santa Clara. No local, o ouro era registrado e tributado antes de seguir viagem.

O pesquisador lembra ainda que a descoberta das minas alterou completamente os rumos da colônia portuguesa.

“Esse foi o primeiro momento em que Taubaté mudou efetivamente a história do país. O ciclo do ouro transformou a economia brasileira e a cidade esteve no centro desse processo”, afirmou.

Aventureiro inglês descreveu percurso

O historiador Angelo Rubim acrescenta que a origem do caminho também está cercada de histórias pouco conhecidas, envolvendo aventureiros europeus e expedições em busca de riquezas lendárias.

Segundo ele, um inglês abandonado no litoral brasileiro em 1596 acabou participando de expedições pelo Vale do Paraíba em busca da mítica Sabarabuçu — uma lendária montanha de ouro que mobilizava exploradores da época.

"Ele estava em um navio inglês que se perde no meio do caminho, no Estreito de Magalhães, e sofre todo tipo de intempéries. Então, o aventureiro é abandonado em Ilhabela para morrer. Acontece que ele sobrevive. E nesse processo de sobrevivência, ele é capturado pelos portugueses, escravizado e acaba entrando numa expedição para buscar a Sabarabuçu. Era um lugar lendário, seria um monte de ouro, que todos procuravam o mito do ouro", contou Angelo.

"E nesse percurso, ele é tão detalhista, que vai descrevendo esse percurso que vai bater exatamente com a documentação que a Lia localizou há 20 anos. Esse aventureiro descreveu o percurso com riqueza de detalhes. O trajeto coincide exatamente com os documentos encontrados séculos depois pela professora Lia Mariotto”, disse o historiador.

Para os pesquisadores, isso fortalece a tese de que o Caminho do Ouro Paulista existia antes da Estrada Real e teve importância decisiva na ocupação do interior do Brasil.

Expedição pelo caminho antigo

A confirmação prática veio em 2019, quando pesquisadores, guias e produtores culturais percorreram os cerca de 120 quilômetros do antigo trajeto em uma expedição histórica entre Paraty e Taubaté.

A viagem foi liderada pelo guia Silésio Francisco Tomé e pela produtora cultural Cláudia Perroni. Durante três dias, o grupo atravessou estradas rurais, serras, fazendas históricas e antigas trilhas coloniais.

“É uma sensação diferente porque você está andando dentro da História. Para entender o caminho dos bandeirantes, precisava ser feito a pé”, afirmou Silésio.

Além do valor histórico, o Caminho do Ouro Paulista passou a ser visto como oportunidade de desenvolvimento econômico, turismo cultural e preservação ambiental.

Trechos da rota já foram reconhecidos oficialmente por municípios da região, enquanto projetos protocolados na Assembleia Legislativa de São Paulo buscam transformar o antigo caminho em patrimônio histórico paulista.

Para Cláudia Perroni, o potencial turístico da rota é enorme. “O caminho reúne natureza, arqueologia, gastronomia, arquitetura e memória histórica. É uma oportunidade única para o Vale do Paraíba”, afirmou.

Hoje, mais de quatro séculos depois das primeiras expedições, a antiga trilha do ouro segue viva entre montanhas, bairros rurais e estradas de terra do Vale do Paraíba.

E, aos poucos, Taubaté volta a reivindicar um lugar que, segundo historiadores e pesquisadores, jamais deveria ter sido esquecido: o de cidade que ajudou a mudar os rumos da história do Brasil.

Comentários

Comentários