ALERTA

Brinquedos com IA exigem atenção de pais e responsáveis

Por Da Redação |
| Tempo de leitura: 7 min
Agência Brasil
Brinquedos com inteligência artificial podem conversar com crianças e personalizar respostas, mas também levantam preocupações sobre privacidade, coleta de dados e vínculos emocionais.
Brinquedos com inteligência artificial podem conversar com crianças e personalizar respostas, mas também levantam preocupações sobre privacidade, coleta de dados e vínculos emocionais.

Brinquedos que conversam com crianças, memorizam suas preferências e respondem com palavras de carinho e empatia estão ganhando espaço no cotidiano das famílias. Com o avanço da inteligência artificial (IA), esses produtos passaram a oferecer experiências cada vez mais personalizadas. Apesar das possibilidades de interação, a tecnologia também levanta preocupações relacionadas à privacidade, à segurança e ao desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes.

Diante desse cenário, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgou um alerta com orientações para pais e responsáveis sobre a escolha e o acompanhamento do uso de brinquedos equipados com inteligência artificial. A iniciativa busca reduzir os riscos de exposição indevida e chamar a atenção para funcionalidades que podem ir além da proposta tradicional de entretenimento.

Segundo a entidade, os sistemas de inteligência artificial generativa são capazes de reconhecer voz e imagem, recordar informações fornecidas durante as interações, adaptar respostas às preferências dos usuários e manter conversas que não se limitam a falas previamente programadas. Essas características tornam os brinquedos mais interativos, mas também ampliam a necessidade de avaliar como funcionam e quais informações podem coletar.

A SBP considera o tema urgente diante da expansão de dispositivos que incorporam agentes de IA em formatos físicos, portáteis e personalizados. Como exemplo, a entidade citou o anúncio do Muse Charm, da Meta, que ganhou repercussão em setembro de 2026 e foi comparado pela imprensa a um Tamagotchi com inteligência artificial. Embora não seja um brinquedo desenvolvido especificamente para crianças, o dispositivo ilustra a tendência de levar sistemas inteligentes para objetos que acompanham os usuários no cotidiano.

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Interação pode estimular vínculos emocionais

Uma das principais preocupações dos pediatras envolve a maneira como crianças e adolescentes interpretam as respostas oferecidas por esses dispositivos. Ao utilizar linguagem afetiva, demonstrar aparente empatia e responder de maneira personalizada, a inteligência artificial pode transmitir a impressão de que existe uma relação emocional semelhante à estabelecida com uma pessoa.

A SBP ressalta, porém, que a tecnologia não possui sentimentos humanos, mesmo quando consegue reproduzir expressões de carinho, atenção e acolhimento. Dependendo da idade e do nível de compreensão da criança, essa diferença pode não ser evidente.

De acordo com a entidade, uma revisão publicada na revista científica Pediatrics destaca o risco de crianças desenvolverem percepções equivocadas da inteligência artificial como amiga ou cuidadora a partir do contato com brinquedos que oferecem esse tipo de interação.

A preocupação também aparece em alertas do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) sobre os chamados AI companions, expressão utilizada para descrever companheiros de inteligência artificial. Esses produtos e sistemas estimulam conversas que podem simular relacionamentos, amizade e proximidade emocional com crianças e adolescentes.

Apesar da aparência inofensiva, a interação frequente com esses dispositivos pode levantar questões sobre dependência do produto, exposição a informações inadequadas e possíveis prejuízos à saúde e ao comportamento. Por isso, os especialistas defendem que os adultos observem não apenas o conteúdo das conversas, mas também a maneira como a criança se relaciona com a tecnologia.

O acompanhamento é especialmente importante quando o brinquedo passa a ocupar um espaço significativo na rotina ou é apresentado como alguém capaz de oferecer companhia, conforto ou apoio emocional. Nessas situações, é necessário garantir que a tecnologia não substitua o convívio com familiares, amigos e outras pessoas de referência.

Coleta de dados exige atenção das famílias

Além dos possíveis efeitos emocionais, a privacidade é outro ponto central do alerta. Alguns brinquedos conectados podem contar com microfones, câmeras, acesso à internet e recursos de personalização que permitem registrar informações durante as interações.

Dependendo do funcionamento do produto, esses dados podem incluir gravações de voz, imagens, preferências e informações compartilhadas pela criança durante as conversas. A preocupação está relacionada à finalidade dessa coleta, à forma de armazenamento e à possibilidade de compartilhamento com empresas ou terceiros.

A SBP recomenda que pais e responsáveis verifiquem quais recursos tecnológicos estão presentes no brinquedo e compreendam quais informações são solicitadas ou registradas. Também é necessário identificar se os dados podem ser utilizados para personalizar respostas, direcionar publicidade ou estimular novas interações com o dispositivo.

Outro aspecto importante é a transparência dos fabricantes. As informações sobre o funcionamento do brinquedo, os mecanismos de proteção e o tratamento dos dados devem estar disponíveis em linguagem acessível, permitindo que os responsáveis tomem uma decisão consciente antes de realizar a compra.

Para a entidade, não basta avaliar apenas o que o produto promete fazer. É fundamental compreender como a tecnologia funciona, quais informações coleta, para que elas são utilizadas e quais medidas de segurança estão disponíveis para proteger crianças e adolescentes.

SBP recomenda cautela na escolha dos brinquedos

No alerta, a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda cuidado especial com brinquedos que utilizam inteligência artificial generativa, permitem conversas abertas, coletam dados pessoais ou simulam amizade, afeto, cuidado e apoio emocional.

Quando essas funcionalidades não oferecem benefícios claros para a brincadeira ou quando faltam informações transparentes sobre o funcionamento e a proteção do dispositivo, a orientação é priorizar produtos sem esses recursos.

A entidade também destaca que os efeitos de longo prazo dessas novas formas de interação sobre a saúde mental e o comportamento infantil ainda não estão suficientemente esclarecidos. A ausência de evidências conclusivas, portanto, não significa que os produtos estejam livres de riscos.

Antes de comprar um brinquedo com inteligência artificial, a SBP recomenda que as famílias reflitam sobre o benefício que a tecnologia acrescenta à experiência da criança e se ela continua participando ativamente da brincadeira ou passa a depender do dispositivo para se divertir.

Também é importante verificar a classificação etária, a necessidade de conexão com a internet, a presença de câmera e microfone e a existência de orientações claras para a supervisão dos responsáveis.

A entidade propõe ainda que os adultos avaliem se a criança conseguirá compreender, de acordo com sua idade, que está interagindo com um sistema de inteligência artificial, e não com uma pessoa real. A forma como o produto apresenta suas respostas e simula sentimentos deve fazer parte dessa análise.

Outro ponto de atenção é o espaço que o brinquedo ocupa na rotina. O uso da tecnologia não deve comprometer o sono, a atividade física, a leitura, as brincadeiras livres, o contato com a natureza e a convivência familiar.

Informações devem estar disponíveis antes da compra

A SBP orienta que os fabricantes forneçam informações claras sobre os recursos e as condições de utilização dos brinquedos. Entre os dados que devem ser verificados estão a presença de câmera e microfone, a necessidade de acesso à internet e os tipos de informações registrados durante as interações.

Os responsáveis também devem procurar esclarecimentos sobre onde os dados são armazenados, se são compartilhados com terceiros, para quais finalidades são utilizados e se existe a possibilidade de solicitar sua exclusão.

É importante observar, ainda, quais funcionalidades de monitoramento e proteção estão ativadas por padrão e se existem mecanismos de controle parental. A ausência dessas informações dificulta a avaliação dos riscos e pode comprometer a capacidade dos responsáveis de acompanhar a experiência da criança.

A recomendação da entidade é não adquirir o produto quando informações essenciais sobre seu funcionamento e suas medidas de segurança não estiverem acessíveis. Nesses casos, a alternativa é escolher outro brinquedo que ofereça condições mais claras de utilização.

Empresas também têm responsabilidades

O alerta destaca que a proteção das crianças não deve depender exclusivamente da atenção dos pais. Fabricantes e fornecedores também têm responsabilidades relacionadas à informação sobre riscos, à segurança dos produtos, à privacidade e à proteção dos dados pessoais.

Caso identifiquem coleta de informações sem esclarecimentos adequados, exposição a conteúdos impróprios, falhas de segurança ou dificuldades para exercer seus direitos, as famílias podem procurar a empresa responsável e solicitar informações sobre o tratamento dos dados da criança. Conforme o caso, também é possível pedir a correção ou a eliminação dessas informações, observadas as regras aplicáveis.

Nas compras realizadas fora de estabelecimentos comerciais, como pela internet ou por telefone, o consumidor pode exercer o direito de arrependimento no prazo de sete dias, conforme as condições previstas no Código de Defesa do Consumidor.

Outras possibilidades incluem utilizar os canais de atendimento e notificação disponibilizados pelo fornecedor e registrar reclamações no Procon, na plataforma consumidor.gov.br ou junto à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), conforme a natureza do problema.

O alerta da Sociedade Brasileira de Pediatria reforça que a presença da inteligência artificial nos brinquedos exige uma avaliação que vai além das funcionalidades anunciadas. Para os responsáveis, conhecer os recursos disponíveis, compreender o tratamento das informações pessoais e acompanhar a forma como a criança utiliza esses produtos são medidas importantes para reduzir riscos e preservar experiências fundamentais da infância.

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