O avanço dos exames de sangue para investigar a doença de Alzheimer abre novas possibilidades para o diagnóstico, mas o acesso à tecnologia ainda é limitado no Brasil. Embora testes que identificam biomarcadores associados à doença estejam disponíveis na rede privada, não há previsão confirmada para que o exame oferecido recentemente em Porto Alegre seja incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS).
O Ministério da Saúde informou que, até o momento, não recebeu uma solicitação específica para avaliar a incorporação do teste de p-tau217 citado na divulgação do Hospital Moinhos de Vento.
A inclusão de uma tecnologia na rede pública depende de uma análise que considera evidências científicas, segurança, benefícios para os pacientes, custo-efetividade e impacto financeiro. O registro sanitário pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por si só, não garante o fornecimento gratuito.
O que falta para o exame ser oferecido pelo SUS?
Para que uma nova tecnologia seja incorporada ao SUS, é necessário passar pelo processo de avaliação conduzido pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec).
A análise considera se o procedimento oferece benefícios relevantes em comparação com as alternativas já utilizadas, além de avaliar os custos e os efeitos esperados para o sistema público.
No caso dos exames sanguíneos para Alzheimer, a discussão envolve não apenas a precisão dos resultados, mas também a indicação adequada, a capacidade de melhorar o diagnóstico e a possibilidade de reduzir a necessidade de procedimentos mais caros ou invasivos.
A existência de estudos científicos promissores não significa que todos os testes disponíveis sejam equivalentes. A Associação de Alzheimer publicou, em 2025, diretrizes que estabelecem critérios mínimos de desempenho para o uso de biomarcadores sanguíneos em pacientes com comprometimento cognitivo atendidos em serviços especializados.
A entidade recomenda que a escolha do exame considere as evidências disponíveis para cada método e que os resultados sejam interpretados dentro de uma avaliação clínica completa.
Como funciona o diagnóstico na rede pública?
Enquanto a eventual incorporação de novos testes não ocorre, a investigação do Alzheimer no SUS continua baseada na avaliação médica, no histórico do paciente, em testes cognitivos e em exames complementares indicados conforme cada caso.
A tomografia computadorizada e a ressonância magnética podem ajudar a investigar alterações cerebrais e descartar outras causas dos sintomas. Exames laboratoriais também podem ser solicitados para identificar condições que afetam a memória e o raciocínio.
A doença de Alzheimer é progressiva e pode provocar perda de memória, dificuldades de linguagem, alterações de comportamento e redução da capacidade de realizar atividades cotidianas.
Entretanto, nem todo esquecimento está relacionado à doença. Por isso, a avaliação profissional é importante para identificar a causa dos sintomas e definir a conduta adequada.
VEJA MAIS:
- 38 obras feitas com IA são barradas pelo 53º Salão de Humor; Veja
- Idoso de 71 anos se perde e cai com carro em ribanceira na SP 308
- Caminhão com 38 toneladas de telhas tomba na Rodovia do Açucar
- Clique aqui e receba, gratuitamente, as principais notícias da cidade, no seu WhatsApp, em tempo real.
Novos medicamentos podem retardar a progressão?
O diagnóstico em uma fase inicial pode ajudar o paciente a avaliar as opções de acompanhamento e tratamento. No Brasil, dois medicamentos que atuam sobre a proteína beta-amiloide receberam registro da Anvisa para pacientes selecionados com Alzheimer em estágio inicial: donanemabe e lecanemabe.
O donanemabe, comercializado como Kisunla, teve seu registro publicado em abril de 2025. O lecanemabe, conhecido como Leqembi, foi registrado em dezembro de 2025, com divulgação da aprovação pela Anvisa em janeiro de 2026.
Os dois medicamentos são anticorpos monoclonais que atuam sobre a beta-amiloide, proteína que forma placas associadas à doença. Os estudos clínicos indicaram redução da velocidade de declínio cognitivo em determinados grupos de pacientes, mas não demonstraram cura nem interrupção da evolução do Alzheimer.
A indicação é restrita e exige avaliação especializada. Antes do tratamento, é necessário confirmar a presença de alterações biológicas relacionadas à doença e verificar se o paciente atende aos critérios previstos na autorização sanitária.
Os medicamentos também podem provocar efeitos adversos importantes, incluindo alterações cerebrais relacionadas à remoção de placas amiloides, como inchaço e pequenos sangramentos. Por isso, o tratamento exige seleção criteriosa dos pacientes e monitoramento médico.
Medicamentos aprovados não significam acesso gratuito
A autorização da Anvisa permite que um medicamento seja comercializado conforme as condições aprovadas, mas não significa que ele esteja automaticamente disponível no SUS.
A oferta pela rede pública depende de avaliação e decisão específicas de incorporação. Os tratamentos com donanemabe e lecanemabe também envolvem custos elevados, infusões periódicas e acompanhamento especializado.
Esses fatores fazem parte da discussão sobre acesso e custo-efetividade. A decisão sobre o uso deve considerar os possíveis benefícios, os riscos, as condições clínicas e a situação individual do paciente.
Os tratamentos sintomáticos e o acompanhamento multidisciplinar continuam tendo papel importante no cuidado de pessoas com Alzheimer. A assistência também envolve orientação aos familiares, suporte aos cuidadores e planejamento para as mudanças que podem ocorrer ao longo da doença.
Quando procurar atendimento médico?
Pessoas que apresentam esquecimentos frequentes, repetição constante de perguntas, dificuldade para encontrar palavras ou problemas para realizar tarefas que antes eram simples devem procurar avaliação de saúde, principalmente quando os sinais persistem ou interferem na rotina.
Neurologistas, geriatras e outros profissionais capacitados podem investigar as causas das alterações cognitivas e orientar os próximos passos.
Não é necessário esperar por um exame específico para buscar ajuda. A avaliação clínica permite identificar condições que podem exigir tratamento e verificar se existe indicação para testes adicionais.
Os exames de sangue representam um avanço na investigação do Alzheimer, mas sua utilidade depende da escolha adequada do método e da interpretação médica. A ampliação do acesso pelo SUS ainda exige avaliação formal, e não há data confirmada para que o teste citado passe a ser oferecido gratuitamente.