Um exame de sangue que auxilia na identificação de alterações biológicas associadas à doença de Alzheimer começou a ser oferecido no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS). Disponível na rede privada, o teste tem preço estimado em R$ 3 mil e representa uma alternativa menos invasiva para ajudar médicos a investigar pacientes com sintomas de comprometimento cognitivo.
A tecnologia analisa a proteína p-tau217, um biomarcador relacionado a alterações cerebrais associadas ao Alzheimer. O resultado pode contribuir para a investigação clínica e, em determinadas situações, reduzir a necessidade de procedimentos como a punção lombar e o PET amiloide.
Apesar do avanço, o exame não deve ser confundido com um teste capaz de diagnosticar a doença sozinho. A indicação depende de avaliação médica, e os resultados precisam ser interpretados em conjunto com os sintomas e outros dados clínicos.
Como funciona o teste de Alzheimer?
A proteína p-tau217 é uma forma modificada da proteína tau. Níveis elevados desse biomarcador no sangue estão associados à presença de alterações biológicas relacionadas à doença de Alzheimer.
Um estudo publicado em 2025 na revista científica Nature Medicine avaliou a dosagem de p-tau217 em 1.767 pessoas com sintomas cognitivos, atendidas em cinco grupos de pesquisa na Suécia, na Espanha e na Itália.
Os pesquisadores observaram desempenho elevado na identificação de alterações associadas ao Alzheimer, com áreas sob a curva de precisão entre 0,93 e 0,96. Esse indicador avalia a capacidade de um teste distinguir pessoas com e sem determinada condição, mas não significa que ele acerte em 93% a 96% de todos os pacientes em qualquer situação.
Os resultados também não garantem o mesmo desempenho em todas as populações ou em pessoas sem sintomas. A pesquisa foi realizada com participantes que já apresentavam queixas cognitivas e estavam em investigação clínica.
Quem pode fazer o exame?
O teste é voltado principalmente a pessoas que já apresentam sintomas ou sinais objetivos de comprometimento cognitivo e precisam investigar a causa dessas alterações.
A indicação deve ser feita por um profissional de saúde após avaliação clínica. Esquecimentos frequentes podem justificar uma consulta, mas não significam necessariamente que a pessoa tenha Alzheimer.
Problemas de memória também podem estar relacionados a outras condições de saúde, medicamentos, distúrbios do sono e diferentes fatores que precisam ser considerados pelo médico.
O exame não é recomendado como rastreamento indiscriminado de pessoas saudáveis. Ainda não há evidências suficientes para tratar um resultado positivo em alguém sem sintomas como uma previsão individual confiável de que a doença surgirá no futuro.
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Resultado positivo significa que a pessoa tem Alzheimer?
Não necessariamente. O exame identifica um marcador biológico relacionado à doença, mas o diagnóstico exige uma avaliação mais ampla.
Um resultado positivo pode reforçar a suspeita de alterações associadas ao Alzheimer, mas não determina sozinho a gravidade dos sintomas nem comprova que a pessoa apresenta demência. Da mesma forma, um resultado negativo não elimina todas as possibilidades diagnósticas.
A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, destaca que testes sanguíneos desse tipo devem ser interpretados junto a outras informações clínicas e não utilizados isoladamente para definir o diagnóstico ou o tratamento.
Em 2025, a FDA autorizou o uso de um teste da plataforma Lumipulse que combina a medição de p-tau217 e beta-amiloide 1-42 no plasma sanguíneo. Esse produto específico não deve ser confundido automaticamente com todos os exames comerciais que medem apenas a p-tau217: as características e o desempenho variam conforme o método utilizado.
Qual é a diferença para o PET e a punção lombar?
A investigação das alterações biológicas associadas ao Alzheimer pode utilizar exames de imagem e análise do líquor, líquido que envolve o cérebro e a medula espinhal.
O PET amiloide é um exame de medicina nuclear que permite visualizar o acúmulo de placas de beta-amiloide no cérebro. Já a análise do líquor depende da coleta do líquido por meio de uma punção lombar.
O exame de sangue tem a vantagem de exigir apenas uma coleta convencional, o que pode facilitar o acesso à investigação. Entretanto, a possibilidade de substituir os outros métodos depende do teste específico, da confiabilidade dos resultados e da situação clínica.
Diretrizes publicadas pela Associação de Alzheimer em 2025 recomendam que biomarcadores sanguíneos sejam utilizados por profissionais capacitados no contexto de uma avaliação clínica. A entidade também alerta que nem todos os testes disponíveis no mercado atingem os níveis de desempenho necessários para substituir outros exames.
Quanto custa o teste?
O exame oferecido no Hospital Moinhos de Vento tem preço estimado em R$ 3 mil. Outros testes sanguíneos relacionados à investigação do Alzheimer também são comercializados no Brasil, com valores que variam de acordo com o método, o laboratório e a necessidade de processamento da amostra no exterior.
Levantamento publicado pela Folha de S.Paulo em setembro de 2026 apontou preços entre R$ 841 e R$ 5 mil para diferentes exames disponíveis na rede privada.
A cobertura por planos de saúde não deve ser presumida: é necessário consultar a operadora e o laboratório responsável pelo procedimento. A realização do teste também não dispensa o acompanhamento médico.
A principal contribuição dessa tecnologia é ampliar as ferramentas disponíveis para investigar pacientes com sintomas cognitivos. O diagnóstico, porém, continua dependendo da análise conjunta de sinais clínicos, exames e histórico de saúde.