TRADIÇÃO

Ofícios que resistem ao tempo ainda fazem parte de Piracicaba

Por Bia Xavier - Jornal de Piracicaba |
| Tempo de leitura: 6 min
Imagem criada por IA/JP
Em Piracicaba, profissionais de diferentes gerações mostram como antigos ofícios continuam fazendo parte da rotina da cidade.
Em Piracicaba, profissionais de diferentes gerações mostram como antigos ofícios continuam fazendo parte da rotina da cidade.

Em meio às novas tecnologias, às mudanças nos hábitos de consumo e ao surgimento de serviços cada vez mais automatizados, algumas profissões que fizeram parte da rotina de gerações ainda encontram espaço em Piracicaba. São ofícios que dependem de habilidade manual, experiência e conhecimentos transmitidos ao longo dos anos e que, mesmo diante das transformações, continuam sendo procurados por quem valoriza o trabalho especializado. O Jornal de Piracicaba reuniu algumas dessas profissões que resistem ao tempo e ainda fazem parte do cotidiano da cidade.

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Relojoeiro

Aos 87 anos, o comerciante Jair Venceto é um exemplo de quem fez da profissão uma história de vida. Em entrevista ao JP, realizada alguns meses atrás, ele contou sobre as mais de seis décadas dedicadas ao conserto e à restauração de relógios. Jair começou a aprender o ofício ainda jovem, depois que seu cunhado, Waldomiro Scarpari, que mantinha uma relojoaria na Vila Rezende, o convidou para aprender a consertar relógios. Desde então, nunca abandonou a atividade e chegou a trabalhar à noite em uma pequena oficina montada em sua própria casa, enquanto durante o dia trabalhava no Café Morro Grande.

A trajetória profissional também se confunde com a história do comércio piracicabano. Em 1972, Jair se associou a Alcides Gomes Ferreira, conhecido como Miguelito, e os dois abriram a Relojoaria Santo Antonio, na Rua Rangel Pestana, no Centro. Anos depois, Jair ainda passou pela Relojoaria Dom Bosco e pela Relojoaria Alvorada, onde continua trabalhando. Atualmente, ele se dedica principalmente aos relógios de parede, despertadores e modelos de mesa, enquanto o filho Vanderlei atua com relógios de pulso, eletrônicos, automáticos e a corda.

Ao longo de décadas de profissão, Jair acompanhou uma transformação profunda no setor. Segundo ele, antigamente era mais fácil encontrar peças para os mecanismos, enquanto muitos modelos atuais utilizam componentes eletrônicos e descartáveis. Mesmo assim, os relógios antigos continuam chegando às suas mãos, especialmente aqueles que passam de uma geração para outra. “É a profissão na qual me realizo, que trouxe muita felicidade e prosperidade em minha vida”, afirmou. Para ele, restaurar essas peças significa preservar não apenas um objeto, mas também as histórias e memórias das famílias que as guardam.

Alfaiate

Na família Cechetto, o trabalho com roupas sob medida atravessa mais de seis décadas e está na terceira geração. Leonardo Toledo conta que aprendeu a atividade dentro da própria oficina, acompanhando de perto o corte, a costura e o cuidado com as medidas de cada cliente. O conhecimento foi passado de pai para filho ao longo dos anos, principalmente pela prática diária. “O aprendizado não veio de cursos teóricos rápidos, mas sim da vivência diária de oficina”, explicou ao JP.

Hoje, segundo Leonardo, o atendimento envolve muito mais do que a confecção de uma peça. A escolha do tecido, o caimento, o conforto e os detalhes de personalização fazem parte do processo. A camisaria sob medida é um dos principais serviços procurados, com destaque para tecidos de fibras naturais, como algodão, linho e fios italianos. Colarinhos, punhos e monogramas bordados também podem ser definidos de acordo com a preferência de cada cliente.

Para Leonardo, as mudanças no comportamento dos consumidores não significaram o fim da alfaiataria, mas transformaram seu espaço no mercado. O serviço passou a ser associado à exclusividade, à sustentabilidade e à valorização do trabalho manual. Ao mesmo tempo, encontrar profissionais experientes se tornou um desafio, já que a formação depende de tempo e prática. “Há, sim, uma escassez real de mão de obra experiente”, afirmou. Apesar disso, ele observa um interesse crescente de jovens pelo design autoral, pela elegância clássica e pelo trabalho artesanal.

Sapateiro

A tradição também atravessa gerações na família Malusá. Carlos Alberto Malusá é a terceira geração de sapateiros e conta que a história começou com o avô, que já exercia o ofício na Croácia. Depois de participar da Primeira Guerra Mundial, ele foi para a Itália, onde conheceu a futura esposa. Mais tarde, a família veio para o Brasil e se estabeleceu em Santana, em Piracicaba, levando o conhecimento adquirido na Europa. A tradição chegou ao pai de Carlos, Hélio Malusá, e posteriormente a ele. “Eu sou a terceira geração de sapateiro da família. Começou com o meu avô, na Europa, na Croácia”, contou ao JP.

Carlos começou a trabalhar ainda criança, aos 11 anos, aprendendo tarefas como passar cola e pintar os calçados. Com o tempo, passou a atuar também na fabricação de botas sob medida e nos diferentes tipos de reparos. Atualmente, a Malusá reúne profissionais que trabalham com pintura, acabamento, costura e consertos. Entre os serviços estão troca de solas e saltos, colagem, reforços e ajustes em calçados, além de trabalhos em tênis e malas.

Assim como outros ofícios manuais, o trabalho também mudou com os materiais utilizados na fabricação dos calçados. Carlos lembra que, quando começou, era comum o uso de solados de couro, enquanto atualmente predominam os modelos de borracha. Mesmo com as mudanças, ele acredita que sempre haverá pessoas interessadas em recuperar um calçado, seja pela necessidade, seja pelo valor afetivo. O principal desafio, segundo ele, é encontrar quem queira aprender a profissão. “Acho que todas as profissões manuais, né? E sapateiro é uma delas, que nunca vai faltar serviço”, afirmou.

Chaveiro

Com 47 anos de história em Piracicaba, o Chaveiro Santo Antônio também representa uma tradição familiar que atravessou gerações. A empresa foi fundada por Edgar, pai de Simony Liborio Galvão, que aprendeu o ofício ainda aos 8 anos com o próprio pai, também chaveiro. Depois de se casar, Edgar deixou o negócio da família e abriu uma pequena loja no endereço onde a empresa permanece até hoje. “Ser chaveiro, não só abrir fechaduras. É uma profissão assim que a gente devolve a paz, a tranquilidade para o cliente”, explicou Simony ao JP.

Simony e o irmão, Marcelo, começaram a trabalhar na empresa ainda na infância, por volta dos 12 anos. Há cerca de 22 anos, quando o pai se aposentou, os dois passaram a administrar o negócio. Atualmente, Marcelo é responsável principalmente pela área automotiva, enquanto Simony atua nos serviços residenciais. A profissão também precisou acompanhar as mudanças tecnológicas. Desde o surgimento das chaves codificadas, em 1998, a empresa passou a investir em equipamentos e treinamento. Hoje, fechaduras digitais estão entre os serviços procurados, enquanto a área automotiva inclui cópia de chaves, reparos de controles e alarmes.

Mesmo com a modernização, Simony afirma que a tecnologia não substituiu o trabalho do chaveiro, que continua dependendo de conhecimento técnico e da confiança dos clientes. Segundo ela, ainda há pessoas que frequentam o estabelecimento desde a época de seu pai e fazem questão de perguntar por ele. A formação, por sua vez, continua sendo bastante prática e baseada na transmissão do conhecimento entre profissionais. “Não existe um curso formal, né? O aprendizado é passado de técnico para técnico”, afirmou. Para ela, a experiência acumulada ao longo dos anos continua sendo essencial para manter a qualidade dos serviços.

Mais do que resistirem às mudanças, esses profissionais mostram que o trabalho manual ainda encontra espaço em uma cidade que também se transforma. Entre relógios, roupas, calçados e chaves, conhecimento, experiência e confiança continuam sendo parte essencial de serviços que atravessam gerações e ajudam a manter vivas histórias que fazem parte de Piracicaba.

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