Uma negociação entre o Banco Central do Brasil e o Banco Central Europeu (BCE) pode levar o Pix a uma nova etapa de internacionalização. As instituições estudam uma possível conexão entre o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos e o TIPS, infraestrutura europeia para transferências imediatas em euros.
A discussão ainda está em fase preliminar. Segundo documento do BCE sobre os projetos de pagamentos transfronteiriços, a possível ligação com o Pix está atualmente em etapa de pré-investigação.
Nessa fase, estão sendo avaliados aspectos jurídicos, técnicos, operacionais e de segurança que seriam necessários para uma futura integração entre as duas infraestruturas.
O BCE confirmou que as tratativas existem e informou que uma investigação inicial sobre a possibilidade de conectar o TIPS ao Pix está em andamento.
Pagamento em euro pelo celular
Caso o projeto avance, brasileiros poderiam ter uma nova alternativa para realizar pagamentos durante viagens pela Europa.
A ideia estudada permitiria que uma pessoa utilizasse sua conta bancária no Brasil para fazer um pagamento por meio do Pix, inclusive utilizando um QR Code apresentado por uma loja ou supermercado europeu.
Na prática, o consumidor faria o pagamento em reais a partir de sua conta brasileira, enquanto o estabelecimento receberia o valor convertido para a moeda local.
A conversão cambial ocorreria durante a operação. Ainda não estão definidos os custos que poderiam ser cobrados dos usuários nem o modelo definitivo para o câmbio.
Segundo Thiago Cavalcanti, presidente da Associação Nacional dos Auditores do Banco Central do Brasil (ANBCB), uma das questões importantes será garantir que as condições de conversão sejam competitivas e transparentes para quem utilizar o sistema.
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Projeto ainda depende de estudos
A possível integração não está pronta para ser utilizada. Antes de uma eventual implementação, os bancos centrais precisam concluir uma série de análises e estabelecer como funcionaria a conexão entre os sistemas.
No Banco Central brasileiro, nove áreas teriam sido mobilizadas para estudar questões relacionadas à governança e à compatibilidade das duas plataformas.
Entre os pontos que deverão ser avaliados estão a demanda potencial, os possíveis casos de uso, os custos de implementação, a sustentabilidade da operação e os modelos de participação e liquidação.
Também será necessário definir como funcionaria a conversão das moedas e quais regras seriam aplicadas às instituições financeiras envolvidas.
A etapa inicial de investigação do BCE está prevista para terminar em setembro. Depois disso, o planejamento preliminar prevê uma fase de exploração entre outubro de 2026 e março de 2027.
Quando o Pix poderia funcionar na Europa?
O cronograma ainda é considerado preliminar e pode sofrer alterações durante os estudos.
Se as negociações avançarem e os dois bancos centrais aprovarem as próximas etapas, uma fase de implementação poderia ocorrer entre abril de 2027 e junho de 2028.
O planejamento atualmente considerado pelos técnicos prevê que o corredor entre Pix e TIPS poderia ficar tecnicamente operacional em novembro de 2027. Um piloto seria lançado posteriormente, com previsão para junho de 2028.
As datas, entretanto, não representam uma garantia de que o serviço estará disponível ao público nesses períodos. O cronograma depende de decisões regulatórias, definições técnicas e acordos com participantes do mercado.
Pix já começa a atravessar fronteiras
A eventual conexão com o sistema europeu ampliaria uma estratégia que o Banco Central já vem desenvolvendo para permitir o uso do Pix em operações internacionais.
Atualmente, existem acordos que possibilitam transações envolvendo brasileiros em países como Argentina, Estados Unidos, em locais como Miami e Orlando, e Portugal, por meio de instituições financeiras parceiras.
O funcionamento dessas operações não significa que o Pix tenha se transformado em um sistema internacional. A infraestrutura do Pix continua voltada às transações domésticas.
Nas operações internacionais, o pagamento pode ser feito instantaneamente em reais entre o usuário e uma instituição brasileira. Depois, a instituição realiza a transferência internacional por mecanismos tradicionais, fazendo com que o estabelecimento receba o dinheiro em sua moeda.
Como seria o Pix para estrangeiros no Brasil?
A lógica também pode funcionar no sentido contrário.
Um estrangeiro poderia utilizar o aplicativo de uma instituição financeira de seu país para escanear um QR Code Pix apresentado por um estabelecimento brasileiro.
Nesse caso, o parceiro brasileiro faria o Pix para o comerciante em reais. Ao mesmo tempo, a instituição estrangeira debitaria o valor correspondente da conta do cliente em sua moeda, aplicando a taxa de câmbio oferecida.
A transferência internacional entre as instituições ocorreria posteriormente por mecanismos tradicionais, sem utilizar diretamente a infraestrutura doméstica do Pix.
TIPS funciona de forma parecida com o Pix
O TIPS, sigla para Target Instant Payment Settlement, é uma infraestrutura administrada pelo Eurosistema para a liquidação de pagamentos instantâneos.
O sistema permite que provedores de serviços de pagamento ofereçam transferências em tempo real durante 24 horas por dia, todos os dias do ano.
Segundo o BCE, o TIPS realiza a liquidação definitiva e irrevogável de pagamentos instantâneos em moedas como euro, coroa sueca e coroa dinamarquesa.
Assim como o Pix, a plataforma foi criada para permitir que pagamentos sejam processados rapidamente. A principal diferença é que o TIPS funciona dentro da infraestrutura financeira europeia, enquanto o Pix é o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos.
Próximos passos
Antes de uma eventual integração, os bancos centrais ainda terão de responder a questões sobre segurança, regras de participação, câmbio, custos e funcionamento operacional.
Também estão previstas reuniões entre equipes das duas instituições. No Banco Central brasileiro, um comitê formado por chefes-adjuntos deverá visitar o BCE em outubro.
Se o projeto superar as etapas de análise e receber as aprovações necessárias, a conexão entre Pix e TIPS poderá representar uma ampliação significativa das possibilidades de pagamentos internacionais para brasileiros.
Por enquanto, porém, trata-se de uma negociação em fase de estudos, sem confirmação de que a integração será efetivamente implementada.