GOLPE COM IA

Falso padre criado por IA engana fiéis e pede Pix; VEJA

Por Redação/JP1 |
| Tempo de leitura: 4 min
Reprodução
Um vídeo produzido com inteligência artificial está sendo usado em uma campanha falsa para convencer fiéis a fazer doações via Pix.
Um vídeo produzido com inteligência artificial está sendo usado em uma campanha falsa para convencer fiéis a fazer doações via Pix.

Um vídeo produzido com inteligência artificial está sendo usado em uma campanha falsa para convencer fiéis a fazer doações via Pix. A história apresenta um suposto padre chamado Mateus, que teria perdido as duas pernas e precisaria de próteses com urgência.

A fraude foi identificada em Valinhos (SP) depois que um abrigo para idosos desconfiou do conteúdo publicado nas redes sociais. A gravação utiliza personagens e uma narrativa desenvolvidos para provocar comoção e estimular transferências financeiras.

A campanha ganhou milhares de visualizações e mais de mil compartilhamentos. Enquanto alguns usuários ofereceram ajuda financeira ou orações, outros passaram a questionar a autenticidade da história.

Vídeo cria personagens e situação que não existem

A publicação apresenta o chamado “padre Mateus”, descrito como um sacerdote de 38 anos que teria amputado as pernas e precisaria conseguir próteses dentro de um prazo de quatro meses.

A história ainda inclui outros personagens, como uma mulher chamada Lourdes, de 72 anos, e um suposto coroinha identificado como Enzo, de 14 anos. Os personagens aparecem como parte da rotina do falso sacerdote.

A narrativa também utiliza um argumento de urgência. Segundo o vídeo, seria necessário conseguir rapidamente o dinheiro para evitar que a musculatura das pernas do personagem sofresse consequências permanentes.

O conteúdo foi divulgado por uma página chamada “Caminhada Curta”, criada em agosto de 2026.


VEJA MAIS:


  • Clique aqui e receba, gratuitamente, as principais notícias da cidade, no seu WhatsApp, em tempo real. 

Falhas ajudaram a levantar suspeitas

O jornalista e teólogo Felipe Zangari percebeu que havia algo estranho no material e analisou a gravação.

Entre os indícios encontrados estava a falta de naturalidade na movimentação da boca do personagem durante a fala. A suspeita levou à realização de um teste com o Pix disponibilizado na campanha, permitindo identificar informações relacionadas ao destino das doações.

O caso chama atenção para uma dificuldade crescente: vídeos produzidos por inteligência artificial estão ficando cada vez mais convincentes, tornando mais difícil para o público distinguir conteúdos reais de materiais fabricados.

Para onde vai o dinheiro das doações?

A campanha direciona os interessados para um site denominado “Ande com Padre Mateus”. Os registros analisados na apuração apontam que os pagamentos via Pix não seriam destinados a uma paróquia ou instituição religiosa.

O beneficiário identificado nas transações é uma empresa chamada Gestão Solidar Digital LTDA, com registro em Florianópolis.

Também foram encontradas associações com outras empresas e dados cadastrais que levantaram dúvidas durante a investigação.

A empresa responsável pela intermediação dos pagamentos seria a fintech Cartwave. Telefones relacionados às empresas citadas não foram atendidos durante as tentativas de contato, e pedidos de esclarecimento enviados por email não haviam sido respondidos até a publicação da reportagem.

Especialistas alertam para dificuldade de identificar deepfakes

Para o advogado Rafael Maciel, especialista em inteligência artificial, deixar a responsabilidade exclusivamente nas mãos do público para identificar conteúdos falsos pode ser insuficiente.

Segundo ele, até mesmo pessoas acostumadas a analisar materiais produzidos artificialmente podem ter dificuldades para reconhecer uma falsificação bem elaborada.

Por isso, uma das principais recomendações é não realizar doações imediatamente após assistir a vídeos emocionais nas redes sociais.

No caso de campanhas atribuídas a padres, paróquias ou instituições religiosas, a orientação é confirmar diretamente com a diocese ou arquidiocese se a arrecadação realmente existe.

Golpe pode gerar consequências criminais

O advogado criminalista André Fini Terçarolli explica que a utilização de inteligência artificial para enganar vítimas pode se enquadrar como fraude eletrônica, uma modalidade mais grave de estelionato.

A pena prevista para esse tipo de crime pode chegar a oito anos de prisão, além de multa, conforme as circunstâncias do caso.

O especialista também chama atenção para a utilização indevida de dados de terceiros. Uma pessoa cujo nome ou CPF aparece associado a uma conta usada para receber valores não necessariamente participa conscientemente do esquema.

Nesse tipo de situação, é importante registrar boletim de ocorrência, contestar movimentações suspeitas e buscar os canais oficiais das instituições financeiras.

O que fazer se você caiu no golpe?

Quem realizou uma transferência para uma campanha suspeita deve procurar imediatamente o banco e solicitar a abertura do Mecanismo Especial de Devolução (MED), utilizado em casos de fraude envolvendo Pix.

Também é recomendado:

  • registrar um boletim de ocorrência;
  • guardar comprovantes e dados da transferência;
  • salvar prints, vídeos e mensagens relacionados à campanha;
  • informar ao banco que a transferência ocorreu em possível situação de fraude;
  • evitar novos pagamentos até confirmar a legitimidade da campanha.

O MED, porém, não garante que o dinheiro será recuperado, especialmente se os valores já tiverem sido retirados ou transferidos da conta utilizada pelos golpistas.

O caso reforça a necessidade de verificar campanhas de arrecadação diretamente com a instituição ou pessoa supostamente beneficiada antes de fazer qualquer pagamento.

Comentários

Comentários