Brasil reavalia postura e discute acordo Mercosul-China
O Brasil passou a considerar, pela primeira vez, a possibilidade de um acordo comercial parcial entre o Mercosul e a China. A mudança representa uma inflexão na postura histórica do país, que tradicionalmente vetava negociações formais com Pequim para proteger a indústria nacional do avanço de produtos chineses.
A reavaliação ocorre em meio a um cenário de transformações no comércio global, marcado pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos e pela reorganização de alianças econômicas. Integrantes do governo brasileiro avaliam que, embora um acordo amplo esteja distante, um pacto parcial pode avançar no longo prazo.
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A sinalização ganhou força após declaração conjunta divulgada durante visita do presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, a Pequim, onde se reuniu com o presidente chinês, Xi Jinping. No documento, ambos defenderam que as negociações de livre comércio entre China e Mercosul comecem “o mais rápido possível”.
Segundo representantes do governo brasileiro, o bloco poderia avançar inicialmente em temas específicos, como cotas de importação, procedimentos alfandegários e regras sanitárias e de segurança. Esses pontos já abririam espaço relevante no mercado chinês. Ainda assim, o tema é tratado como complexo e sensível, especialmente para setores industriais brasileiros.
Especialistas avaliam que o chamado “novo cenário global” também é influenciado pelas políticas do ex-presidente americano Donald Trump, que pressionou países latino-americanos a reduzir laços com a China. Esse contexto pode ter incentivado Pequim a intensificar a busca por acordos comerciais na região.
Apesar da sinalização brasileira, qualquer avanço depende do consenso entre os membros do Mercosul. O Paraguai mantém relações diplomáticas com Taiwan território reivindicado por Pequim, o que pode dificultar as negociações, embora o país já participe das discussões comerciais com a China. O presidente paraguaio, Santiago Peña, afirmou que não se opõe a um acordo, desde que seja preservado o direito de manter relações com Taiwan.
A Argentina também pode representar um desafio. Desde a posse do presidente Javier Milei, em 2023, Buenos Aires tem priorizado o fortalecimento das relações com Washington. Ainda assim, a China permanece como importante credora e uma das principais compradoras das exportações agrícolas argentinas.
Nos bastidores, a avaliação é de que ideias antes consideradas inviáveis passaram a ganhar espaço diante das mudanças no comércio internacional. Mesmo assim, o governo brasileiro trata o tema com cautela e ressalta que qualquer decisão dependerá de negociações internas no bloco e de avaliações sobre impactos econômicos e diplomáticos.