Antes da educação, o esquecimento: Escola Moraes Barros foi construída sobre área que abrigou cemitério de escravizados e antiga cadeia
Pouco conhecida pela maioria da população, a história do local onde hoje funciona a Escola Estadual Moraes Barros, no Centro de Piracicaba, revela um passado marcado por funções muito diferentes da educação. De acordo com documentos históricos e pesquisas do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, a área abrigou, ao longo do século XIX, a antiga cadeia pública do município e um cemitério destinado ao sepultamento de negros escravizados.
Antes da construção do grupo escolar, inaugurado no início do século XX, o espaço era conhecido como Praça Boa Vista, nome dado pela vista privilegiada para o Rio Piracicaba e para a Rua do Porto. O local também ficou popularmente chamado de Largo da Cadeia Velha, por sediar a antiga prisão da cidade. Segundo o historiador e membro do Instituto, Noedi Monteiro, o cemitério funcionava principalmente para o sepultamento de integrantes da Irmandade de São Benedito, associação religiosa formada por negros escravizados e libertos, cuja igreja ficava a poucos metros dali.
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A existência do cemitério é comprovada por uma ata da Câmara de Vereadores de Piracicaba datada de 1824, documento oficial que registra a construção do espaço funerário. O local continuou sendo citado em registros públicos até 1872, quando foi criado e municipalizado um novo cemitério, posteriormente denominado Cemitério da Saudade. Após a transferência dos sepultamentos, a antiga Praça Boa Vista passou por sucessivas transformações urbanas, foi rebatizada como Praça Tibiriçá e, anos depois, recebeu o prédio do Grupo Escolar Moraes Barros.
O memorialista Francisco de Assis Iglésias descreveu o espaço antes da construção da escola como uma área amplamente arborizada, com paineiras frondosas, chafariz de água potável e intensa vida natural. Segundo seus relatos, a vegetação foi totalmente suprimida durante as obras para a implantação do edifício escolar, encerrando um ciclo importante da paisagem urbana piracicabana.
Atualmente, o prédio da Escola Moraes Barros é tombado como patrimônio histórico em âmbito municipal e estadual, sob proteção do CONDEPHAAT. Apesar do reconhecimento arquitetônico e educacional, o passado do local como espaço de sepultamento de negros escravizados e de encarceramento nunca recebeu sinalização ou memorial oficial que registre essa parte da história da cidade.
Para o Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, o reconhecimento desse passado não diminui a importância da escola, mas amplia seu valor simbólico. A preservação da memória permite compreender as diferentes camadas da formação urbana e social do município, revelando que o mesmo solo que hoje abriga salas de aula já foi palco de dor, exclusão e apagamento histórico.