MORTA NO VALE

Feminicídio: irmã de Lívia critica fala de Eduarda Campopiano

Por Da redação | Pindamonhangaba
| Tempo de leitura: 6 min
Reprodução
Eduarda (à esq.) foi eleita com votação recorde em SP; Lívia Berthoud (à dir.) tinha 23 anos e era estudante de Direito; ex foi preso pelo crime
Eduarda (à esq.) foi eleita com votação recorde em SP; Lívia Berthoud (à dir.) tinha 23 anos e era estudante de Direito; ex foi preso pelo crime

A irmã de Lívia Berthoud, de 23 anos, assassinada a tiros pelo ex-namorado em Pindamonhangaba, publicou uma série de mensagens nas redes sociais em tom crítico à posição da deputada estadual eleita Eduarda Campopiano, também de 23 anos, sobre feminicídio e violência contra a mulher.

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Laura Berthoud fez as publicações ao comentar a repercussão da morte da irmã e compartilhou textos de outras mulheres que também questionam o posicionamento de Campopiano.

A deputada eleita foi a candidata mais votada para a Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), com mais de 1,9 milhão de votos, e se apresenta como a "inimiga número um das feministas".

Campopiano já declarou que não considera o feminicídio uma categoria criminal específica e também se posicionou contra a criminalização da misoginia. "Eu não acho que feminicídio seja algo que exista", afirmou a parlamentar em declaração que passou a ser alvo de críticas nas redes sociais.

No Brasil, o feminicídio é previsto na legislação como crime praticado contra a mulher por razões da condição do sexo feminino, especialmente em situações que envolvem violência doméstica e familiar ou menosprezo e discriminação à condição de mulher.

Posição de deputada

Em uma das publicações, Laura afirmou que lembrar da irmã e se posicionar sobre a violência contra as mulheres também são atos políticos.

"Lembrar também é um ato político. Se posicionar também é. Não adianta se sensibilizar com a história da Lívia e, ao mesmo tempo, escolher apoiar quem nega a existência do feminicídio ou contribui para disseminar discursos de ódio contra as mulheres", escreveu.

Laura também criticou a associação da morte da irmã com homenagens que, segundo ela, não seriam acompanhadas de posicionamentos contra a violência de gênero.

"Não podemos transformar a dor em homenagem enquanto, nas urnas, legitimamos discursos que invisibilizam a violência que mata mulheres. Por Lívia, por todas nós e por justiça", afirmou.

Em outra publicação, a irmã relembrou as circunstâncias do assassinato. Segundo Laura, Lívia havia obtido uma medida protetiva contra o ex-namorado antes de ser morta.

Na manhã de 10 de agosto, a estudante de Direito, então com 23 anos, foi perseguida e baleada nas proximidades de casa, no Jardim Campo Alegre, em Pindamonhangaba. Ela era aluna de Direito da Unitau (Universidade de Taubaté).

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'O não dela virou a sua morte'

Laura também compartilhou uma publicação de uma profissional da área de Direito que relaciona o caso de Lívia à discussão sobre misoginia e feminicídio.

No texto, a autora afirma que comportamentos de violência psicológica podem evoluir para agressões físicas e, em casos extremos, para assassinatos. Ela cita a morte de Lívia como um dos episódios que motivaram a criação de um projeto voltado à discussão sobre misoginia e feminicídio.

A publicação também questiona a imagem que o acusado apresentava socialmente e afirma que o comportamento de um agressor nem sempre é percebido pelas pessoas ao redor.

Ao compartilhar o conteúdo, Laura endossou a crítica à deputada eleita e defendeu a adoção de políticas públicas de prevenção à violência contra a mulher.

"Falar sobre violência contra a mulher não é 'politizar uma tragédia'. Não é exagero. Não é caça às bruxas. É falar sobre prevenção. Sobre proteção. Sobre responsabilização", escreveu Laura em outra publicação.

Ela afirmou ainda que a aparência social de um homem não necessariamente revela o risco que ele pode representar para uma mulher.

"Nem sempre o homem que representa perigo para uma mulher parece perigoso para o mundo", publicou.

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Críticas a Campopiano

Laura também compartilhou uma publicação de Juliana Andrade, da área de Direito, com críticas diretas à deputada estadual eleita.

A autora questiona o apoio de mulheres a uma candidata que, segundo ela, se posiciona contra o reconhecimento do feminicídio e contra direitos das mulheres.

Em outra publicação compartilhada por Laura, a autora afirma que a agressão, a desqualificação intelectual e moral e o terror psicológico fazem parte da violência contra a mulher e defende a importância da tipificação do feminicídio.

Lívia tinha medida protetiva

Antes de ser assassinada, Lívia havia registrado uma ocorrência de violência doméstica contra o ex-namorado Carlos Eduardo Barbosa Vieira Leite, de 25 anos. A Justiça concedeu uma medida protetiva de urgência que determinava que ele mantivesse distância mínima de 100 metros da estudante.

Segundo informações registradas no boletim de ocorrência, familiares relataram que o homem não aceitava o fim do relacionamento e já havia feito ameaças contra a jovem.

Na manhã de 10 de agosto, Lívia saiu de casa para ir à academia e foi abordada pelo ex-namorado nas proximidades da residência. Imagens de uma câmera de segurança registraram parte da perseguição. A estudante aparece correndo pela rua e tentando pedir ajuda a um carro que passava pelo local.

O veículo não parou. Na sequência, Lívia foi alcançada e atingida pelas costas. O suspeito fugiu a pé e acabou localizado pela Polícia Militar.

Carlos Eduardo foi encontrado ferido em um apartamento no bairro Bela Vista. Segundo o registro policial, ele teria efetuado um disparo contra si próprio após retornar ao imóvel.

No local, os policiais apreenderam um revólver Taurus calibre .38, com quatro munições deflagradas no tambor. O homem foi levado ao Pronto-Socorro Municipal de Pindamonhangaba e permaneceu internado.

A prisão em flagrante foi convertida em preventiva pela Justiça no dia 11 de agosto. Como estava hospitalizado, Carlos Eduardo não participou presencialmente da audiência de custódia.

Acusado foi transferido

Carlos Eduardo foi posteriormente transferido para um hospital penitenciário. A informação foi divulgada por Laura nas redes sociais.

Segundo a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária), ele foi incluído na Divisão de Ações de Segurança Hospitalar, antigo Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário de São Paulo.

A Polícia Civil investiga o caso como feminicídio. O investigado deverá prestar depoimento quando estiver em condições clínicas para participar dos atos processuais.

A família de Lívia afirma que continuará acompanhando o processo até o julgamento. "Seguimos na luta por justiça e por respostas. Essa história não pode ser esquecida", escreveu Laura.

A discussão levantada pela irmã da vítima ocorre em meio à repercussão da eleição de Campopiano e às declarações da deputada eleita sobre feminicídio. Para Laura, o caso da irmã reforça a necessidade de discutir prevenção, proteção às vítimas e responsabilização dos autores de violência contra a mulher.

A deputada eleita Eduarda Campopiano ainda não se posicionou sobre as críticas. O espaço segue aberto.

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