TAUBATÉ#400

Como a elite do café explorou a escravidão em Taubaté

Por Xandu Alves | Taubaté
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução/Almanaque Urupês/Acervo IMS
Fazenda de café
Fazenda de café

A história da prosperidade de Taubaté no século 19 está diretamente ligada ao trabalho de milhares de homens e mulheres escravizados. Foram eles que sustentaram a produção de café, responsável por transformar fazendeiros em barões, viscondes e conselheiros do Império, acumulando fortunas que influenciaram a economia, a política e o desenvolvimento da cidade.

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Pesquisas dos historiadores Angelo Rubim e Pedro Rubim, do Almanaque Urupês, mostram que a riqueza construída durante o ciclo cafeeiro teve como base um sistema escravista profundamente organizado e violento. Até 1888, a maior parte da mão de obra nas fazendas de café era formada por pessoas escravizadas, submetidas a jornadas exaustivas e privadas de qualquer direito.

Embora o auge econômico tenha ocorrido com o café, a presença de pessoas escravizadas em Taubaté começou muito antes. Os primeiros registros datam do século 17, poucos anos após a fundação da vila. Inicialmente, a ocupação da região esteve ligada à expansão colonial portuguesa, marcada pela expulsão, escravização e morte de povos indígenas para garantir o avanço das expedições rumo ao interior do Brasil.

Essa reportagem integra o projeto especial Taubaté#400, desenvolvido por OVALE, com apoio institucional da Prefeitura de Taubaté, Unitau (Universidade de Taubaté) e Creci (Conselho Regional de Corretores de Imóveis) e da empresa Milclean. Veja a apresentação do projeto nesse link.

Ocupação era projeto econômico da Coroa

Segundo os pesquisadores, a ocupação do Vale do Paraíba fazia parte de um projeto econômico da Coroa Portuguesa. A fundação de vilas como Taubaté tinha o objetivo de abrir caminhos para a exploração de riquezas, especialmente o ouro. Nesse contexto, expedições comandadas por bandeirantes, entre eles Jacques Félix, utilizaram a violência como instrumento para eliminar a resistência indígena e consolidar a presença portuguesa na região.

A descoberta das minas em Minas Gerais fortaleceu ainda mais a importância estratégica de Taubaté, que se tornou ponto de passagem entre o litoral e o interior. Com o declínio do ciclo do ouro, o café assumiu o protagonismo econômico, transformando completamente a região.

Foi nesse momento que a escravidão atingiu seu período de maior intensidade. O crescimento da cafeicultura elevou a demanda por trabalhadores escravizados, trazidos principalmente da África Central pelo tráfico atlântico.

Pesquisas indicam que, somente no início do século 19, mais de um milhão de africanos desembarcaram no Cais do Valongo, no Rio de Janeiro. Grande parte dessa população foi distribuída pelas fazendas do Vale do Paraíba, incluindo Taubaté, onde passou a trabalhar na produção cafeeira.

Sistema escravista reduzia resistência

O sistema escravista era planejado para reduzir qualquer possibilidade de resistência. Pessoas de diferentes etnias africanas eram separadas e misturadas propositalmente nas fazendas, principalmente grupos considerados rivais, dificultando a organização de rebeliões. A formação de famílias entre os escravizados também fazia parte dessa estratégia de controle social, funcionando muito mais como instrumento de vigilância do que como demonstração de humanidade por parte dos proprietários.

A violência fazia parte do cotidiano. Castigos físicos, trabalhos forçados, açoites e prisões eram mecanismos comuns de repressão. Mesmo diante desse cenário, a resistência nunca deixou de existir. Fugas, sabotagens na produção, revoltas e até assassinatos de feitores e proprietários aparecem em registros históricos e processos judiciais da época.

Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em 1855, quando um grupo de escravizados planejava uma insurreição em uma propriedade ligada ao padre Joaquim Pereira de Barros. A conspiração foi denunciada por outro escravizado. Após a descoberta do plano, os envolvidos foram presos e o líder recebeu a pena máxima prevista pela legislação imperial.

Riqueza produzida nas lavouras

Enquanto isso, a riqueza produzida nas lavouras transformava famílias tradicionais em algumas das mais influentes do país. O café criou os primeiros multimilionários de Taubaté. Muitos receberam títulos de nobreza, tornaram-se barões, viscondes e conselheiros do Império, financiaram obras públicas, emprestaram dinheiro ao governo imperial e exerceram enorme influência política.

Entre esses personagens está Francisco Alves Monteiro, apontado pelos pesquisadores como um dos principais responsáveis pela formação de grandes patrimônios na cidade. Seus descendentes se tornariam o Visconde de Tremembé e o Barão de Mossoró, integrantes da elite econômica construída durante o ciclo do café.

Outro nome de destaque foi o Conselheiro Antônio Moreira de Barros. Embora tenha se tornado uma das principais vozes do movimento abolicionista em Taubaté, também era proprietário de mais de 300 pessoas escravizadas. Sua defesa da abolição estava condicionada ao pagamento de indenizações pelo Estado aos fazendeiros, já que os escravizados representavam grande parte do patrimônio das propriedades rurais.

Pressão internacional pelo fim do tráfico negreiro

Na segunda metade do século 19, o sistema escravista começou a enfrentar dificuldades econômicas. A pressão internacional pelo fim do tráfico negreiro, a redução da oferta de mão de obra, o aumento dos custos e a queda da produtividade colocaram em xeque o modelo que sustentava a economia cafeeira.

Com isso, o movimento abolicionista ganhou força em Taubaté, reunindo políticos, intelectuais e setores da imprensa. Ao mesmo tempo, muitos fazendeiros passaram a libertar parte de seus trabalhadores mediante contratos temporários, tentando preservar a produção e reduzir os impactos financeiros do fim da escravidão.

O próprio Visconde de Tremembé anunciou, em 1887, a libertação de 90 escravizados, desde que permanecessem trabalhando até o início do ano seguinte como assalariados.

Taubaté antecipou a libertação dos escravizados

Apesar das mudanças, o fim da escravidão representava enorme prejuízo para a elite rural. Estimativas históricas apontam que cerca de três quartos da riqueza dos fazendeiros estavam concentrados justamente na posse de pessoas escravizadas.

Taubaté, porém, entrou para a história por antecipar esse processo. Em 4 de março de 1888, a Câmara Municipal declarou que a escravidão havia se tornado inviável e oficializou a libertação dos escravizados no município.

A decisão ocorreu semanas antes da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, tornando Taubaté uma das primeiras cidades brasileiras a abolir oficialmente a escravidão. A data deu origem, inclusive, ao nome de uma das principais vias da cidade: a Rua 4 de Março.

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