A Polícia Civil passou a investigar o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, no inquérito que apura a morte da esposa, a policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, encontrada com um tiro na cabeça dentro do apartamento do casal, na zona sul de São Paulo.
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Com carreira marcada por atuação no Vale do Paraíba, o militar é nascido em Taubaté e possui apartamento em São José dos Campos, para onde viajou logo após a morte da esposa (leia aqui).
Um dos pontos que levantou suspeitas na investigação é o intervalo de 29 minutos entre o disparo ouvido por uma vizinha e o acionamento da Polícia Militar pelo oficial.
Segundo depoimentos colhidos pela polícia, o estampido foi ouvido por uma vizinha às 7h28. A primeira ligação do tenente-coronel à PM, no entanto, ocorreu apenas às 7h57, quando ele informou que a esposa havia atirado contra a própria cabeça.
"No dia dos fatos acordou exatamente às 7h28, ao ouvir um barulho de um estampido único e forte; que seus cachorros latiram sem parar e por isso tem total certeza do horário, pois acordou assustada e olhou rapidamente o horário em seu celular", diz o relato da vizinha.

Minutos depois, às 8h05, o oficial acionou o Corpo de Bombeiros dizendo que a mulher ainda respirava. As equipes de resgate chegaram ao prédio às 8h13. O intervalo entre o disparo e o pedido de ajuda passou a ser analisado pelos investigadores na tentativa de esclarecer a dinâmica da morte.
Veja a cronologia dos fatos de acordo com o inquérito
- 7h. Tenente-coronel relata ter discutido com Gisele.
"Dirigiu-se ao quarto de Gisele por volta das 07h00, encontrando-a deitada na cama, enrolada em uma toalha de banho, mexendo no celular. Disse a ela que, embora ainda a amasse, entendia que o melhor seria a separação, pois o relacionamento não estava funcionando. Afirma que, nesse momento, Gisele levantou-se de forma exaltada, dirigiu-se a ele, mandando-o sair do quarto, e bateu a porta. Relata que pegou uma toalha e entrou no banheiro para tomar banho. Esclarece que mantém sua arma de fogo sobre o armário, no quarto onde dorme, e que tem o hábito de trancar a porta do quarto desde que passaram a dormir separados, pois tinha conhecimento de que, em relacionamento anterior, Gisele teria jogado água quente no ex-companheiro após discussão. Na data em questão, afirma que não trancou a porta do quarto, apenas a do banheiro. Cerca de um minuto após entrar no banho, ouviu um barulho que inicialmente pensou ser de porta batendo. Ao abrir a porta do banheiro, visualizou Gisele caída ao chão, com intenso sangramento na região da cabeça e segurando a arma de fogo".

- 7h28. A vizinha acorda assustada com um estampido.
"No dia dos fatos acordou exatamente às 7h28, ao ouvir um barulho de um estampido único e forte; que seus cachorros latiram sem parar e por isso tem total certeza do horário, pois acordou assustada e olhou rapidamente o horário em seu celular", diz o relato da vizinha.
- 7h57. O tenente-coronel aciona a Polícia Militar e afirma que a esposa havia "se matado com um tiro na cabeça".
- 8h05. O tenente-coronel telefona para o Corpo de Bombeiros.

Leia mais: Vídeo mostra oficial do Vale com arma na cabeça; esposa morreu
Oficial passa a ser investigado
Inicialmente registrado como suicídio, o caso passou a ser tratado como morte suspeita após novas informações surgirem no decorrer do inquérito.
Com base em depoimentos, laudos periciais e novos elementos coletados durante a investigação, o tenente-coronel passou a ser formalmente investigado pela Polícia Civil.
Os investigadores também avaliam a possibilidade de pedir a prisão do oficial, medida que, caso seja formalizada, dependerá da análise do Ministério Público e da Justiça.
Novo laudo aponta lesões no pescoço e no rosto
A investigação ganhou novo capítulo após a exumação do corpo da policial militar e a emissão de um novo laudo necroscópico pelo IML (Instituto Médico Legal).
O documento aponta lesões contundentes na face e na região cervical da vítima, compatíveis com pressão feita por dedos e arranhões provocados por unhas — conhecidos tecnicamente como “estigma ungueal”.
O exame foi realizado um dia após a exumação do corpo e emitido no último sábado (7). Tanto esse laudo quanto o primeiro exame, feito em 19 de fevereiro, apontam que a causa da morte foi traumatismo cranioencefálico grave provocado por disparo de arma de fogo.
No laudo inicial já havia menção a marcas na face e no pescoço descritas como “estigmas digitais”, caracterizadas por lesões equimóticas arredondadas compatíveis com pressão feita com os dedos.
Também foram registradas lesões superficiais em formato de meia-lua, indicativas de arranhões causados por unhas.
Depoimento de socorrista levanta dúvidas
O depoimento de um socorrista com 15 anos de experiência também levantou questionamentos sobre a versão apresentada pelo oficial.
Segundo ele, a arma estava “bem encaixada” na mão da vítima, algo que considerou incomum em casos de suicídio. O profissional decidiu fotografar o local.
Ele relatou ainda que o tenente-coronel estava completamente seco, sem sinais de que havia saído do banho (versão apresentada pelo militar ao afirmar que a esposa teria se matado enquanto ele estava no banheiro).
O socorrista também observou que o chuveiro estava ligado, mas não havia poças de água no chão ou no corredor. Além disso, o oficial não apresentava manchas de sangue, o que poderia indicar que não teria prestado socorro diretamente.
Outro detalhe citado foi que o quarto da suíte estava desarrumado, com objetos espalhados pelo chão, sugerindo a possibilidade de um embate antes do disparo.
Cena do apartamento foi alterada
Laudos da Polícia Científica apontaram ainda que a cena do crime não foi preservada adequadamente, o que comprometeu parte da perícia inicial.
Em depoimento, a inspetora de condomínio Fabiana Capinan de Carvalho Pereira afirmou que três policiais militares femininas entraram no apartamento horas após a ocorrência para realizar a limpeza do imóvel.
Segundo ela, ainda havia sangue na sala, resultado das manobras de reanimação realizadas pelos socorristas.
A mesma testemunha relatou ter ouvido o tenente-coronel dizer que a esposa “não vai sobreviver”, enquanto equipes médicas ainda tentavam salvá-la.
De acordo com o depoimento, o oficial caminhava pelo corredor do prédio sem camisa e sem manchas de sangue, dizendo que a esposa havia se dado um tiro.
Quando uma policial informou que Gisele ainda estava viva, ele teria afirmado: “Com o tiro que ela levou, não vai sobreviver.”
Entre as ligações feitas pelo oficial naquela manhã, uma chamou atenção da família da vítima: o contato com o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo.
Segundo o inquérito, o magistrado chegou ao prédio às 9h07, subiu ao apartamento com o oficial e deixou o local cerca de 11 minutos depois.
Outro lado
A defesa do tenente-coronel afirma que ele tem colaborado com as autoridades. Já a defesa do desembargador informou que ele esteve no local como amigo e que prestará esclarecimentos à polícia.
Em nota, a Polícia Militar afirmou que acompanha as investigações conduzidas pela Polícia Civil e pela Corregedoria e que tomará as medidas cabíveis caso irregularidades sejam confirmadas.
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo disse que todas as circunstâncias da morte da policial seguem sendo apuradas.
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