Em uma cidade marcada por períodos de calor intenso, encontrar uma área de sombra pode fazer diferença no dia a dia. Mas, em Piracicaba, a presença de árvores não é distribuída de maneira uniforme. Há bairros com maior cobertura vegetal e outros onde o asfalto, o concreto e a falta de arborização contribuem para aumentar a sensação de calor.

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De acordo com o Plano Municipal de Arborização Urbana (PMAU), Piracicaba possui quase 100 mil árvores no sistema viário, sem contar as existentes em praças e parques urbanos. O número, porém, não significa que todas as regiões tenham a mesma quantidade de árvores.
Para o engenheiro florestal Flávio Mendes, formado pela Esalq/USP, Piracicaba ainda tem espaço para ampliar sua arborização. “Piracicaba tem espaço para mais árvores, assim como quase a totalidade das cidades brasileiras”, disse.
Leste é a região mais arborizada
Segundo o PMAU, a região Leste é a mais arborizada de Piracicaba. Entre os bairros citados pelo especialista estão Agronomia, Santa Rita e Monte Alegre.
Já as regiões Centro e Sul estão entre as menos arborizadas. A diferença na distribuição faz com que alguns bairros tenham maior cobertura vegetal, enquanto outros enfrentam maior exposição ao calor.
“A distribuição desigual no território faz com que cada bairro tenha suas características, sendo uns mais arborizados e outros menos. Então, cada um tem sua demanda”, explica Mendes.
No Centro, o desafio é ainda maior. A região é marcada pela intensa ocupação urbana e pela impermeabilização do solo, com grande presença de asfalto.
“O Centro, que é muito impermeabilizado, costuma ter o asfalto retendo mais calor”, afirma.
Onde há mais árvores, há mais sombra, mas o desafio vai além

A presença de árvores contribui para reduzir a exposição direta ao sol e melhorar o conforto térmico nos espaços urbanos. Para o especialista, porém, a arborização precisa ser planejada levando em consideração as características de cada local.
Todas as cinco regiões de Piracicaba, segundo Mendes, têm espaço para novos plantios. A questão é definir onde eles são mais necessários e como conciliá-los com a infraestrutura existente.
“Todas as cinco regiões de Piracicaba têm espaço para novos plantios. Conforme mencionado acima, a distribuição da arborização está concentrada em alguns bairros, sendo que o Centro tem esse desafio de conciliar novos plantios com a infraestrutura já existente”, completou.
Não basta plantar: árvore precisa de manejo

A escolha da espécie e do local de plantio está entre os principais pontos que precisam ser observados, segundo Mendes. “Os principais erros que vejo no plantio são a escolha da espécie e do local de plantio”, afirma.
O especialista destaca especialmente a importância das árvores de médio e grande porte diante das mudanças climáticas.
“São as árvores de médio e grande porte que possuem papel fundamental no cenário de mudanças climáticas, por isso é importante valorizá-las nas cidades por meio da gestão eficiente, tendo a tecnologia como aliada.”
O plantio, entretanto, é apenas o primeiro passo. Sem cuidados posteriores, a árvore pode não sobreviver.
“Precisamos cuidar dos novos plantios, pois se simplesmente plantarmos na calçada e não fizermos um manejo adequado, dificilmente ela vai sobreviver”, disse.
Fiação e calçadas são desafios
Um dos principais obstáculos para ampliar a arborização urbana é encontrar espaço em meio à infraestrutura já existente.
“Realmente, é um grande desafio conciliar as árvores com rede elétrica e calçadas”, afirmou Flávio.
Para ele, esperar por um local considerado perfeito para plantar pode significar não plantar. “Se esperarmos ter um local perfeito para plantar árvores nas cidades, dificilmente vamos encontrar”, afirmou.
O especialista defende planejamento principalmente nas novas áreas urbanizadas e chama atenção para a ocupação do espaço aéreo por fios que já não são utilizados.
“No caso da fiação elétrica, vejo que há muitos postes com fios que nem são mais utilizados, só ocupando o espaço aéreo que poderia ter uma árvore, proporcionando benefícios diretos à população”, disse.
Nas calçadas estreitas, Mendes afirma que também é possível buscar alternativas.
“Quanto às calçadas estreitas, já vi casos de prefeituras plantarem na rua, como divisor de vaga de carro, exemplos na Europa, aliás! Enfim, cada caso é um caso e precisa ser analisado.”
Árvores também são uma questão de saúde

Os benefícios da arborização, segundo o engenheiro florestal, vão muito além da sombra.
“Sim, há diversos estudos que relacionam cidades arborizadas com menos problemas de saúde, ou seja, menores gastos públicos na área da saúde”, afirmou.
Mendes afirma que existem pelo menos 22 benefícios associados às árvores, entre eles sombra, regulação climática e impactos positivos sobre a saúde. “Há pelo menos 22 benefícios que as árvores nos proporcionam, desde sombra, regulação climática e até mesmo redução da pressão arterial, melhoria da saúde emocional e psicológica!”
Dessa forma, ampliar a arborização pode ser também uma estratégia de saúde e qualidade de vida, além de uma medida para enfrentar temperaturas mais elevadas.
O calor também afeta as árvores
Se as árvores ajudam a população a enfrentar o calor, elas próprias também sofrem com temperaturas elevadas.
Mendes chama atenção para os períodos de calor acima da média e reforça a necessidade de acompanhamento e manutenção da vegetação urbana.
“Consequentemente, as árvores também podem sofrer com isso e as árvores urbanas ainda mais. Por isso é importante ter um sistema de gestão eficiente para monitorar e cuidar das árvores.”
A preocupação ganha importância diante de um cenário de mudanças climáticas, em que eventos extremos de temperatura podem se tornar mais frequentes ou intensos.
PMAU é considerado um instrumento de planejamento
Piracicaba possui desde 2020 o Plano Municipal de Arborização Urbana, documento que reúne um diagnóstico da arborização da cidade e propostas de melhorias.
Para Mendes, o plano deve ser constantemente atualizado para acompanhar as transformações urbanas. “Piracicaba tem um documento muito importante, que é o PMAU. Elaborado em 2020, ele traz um panorama de como está a arborização urbana e propostas de melhorias”, completou.
Segundo ele, o planejamento não pode ser estático. “É um documento vivo que precisa estar sempre atualizando, pois as cidades são dinâmicas.”
Morador também pode ajudar
A ampliação da arborização, na avaliação do especialista, depende também de uma mudança cultural.
“Todo mundo gosta de árvore, mas em frente à casa do vizinho.”
Para Mendes, a frase resume uma resistência que ainda existe em relação às árvores no ambiente urbano. A solução passa por pensar nos benefícios coletivos proporcionados pela vegetação. “Precisamos mudar essa mentalidade e pensar mais no coletivo. Por isso, parcerias entre a sociedade civil e prefeitura podem produzir bons frutos.”
O desafio dos próximos anos
Mais do que simplesmente aumentar a quantidade de árvores, o desafio de Piracicaba é entender onde elas são mais necessárias, escolher as espécies adequadas, garantir a sobrevivência dos novos plantios e cuidar do patrimônio arbóreo já existente.
Mendes defende que a tecnologia seja usada para identificar as áreas prioritárias e melhorar a gestão. “Hoje há muita tecnologia para cuidar das árvores, então é necessário entender a atual situação de cada região, mapeando áreas prioritárias de plantio e cuidar do patrimônio arbóreo existente de modo integrado, fazendo a gestão das árvores urbanas.”
Com quase 100 mil árvores no sistema viário, Piracicaba já possui uma base importante de arborização. Mas a distribuição desigual mostra que o desafio não é apenas plantar mais: é plantar onde há maior necessidade, escolher corretamente as espécies e garantir que as árvores cresçam e permaneçam saudáveis.
Em uma cidade cada vez mais preocupada com o calor, sombra, planejamento urbano e áreas verdes deixam de ser apenas questões paisagísticas. Passam a fazer parte da discussão sobre conforto térmico, saúde, qualidade de vida e preparação para um clima mais quente.