CIÊNCIA

Morre primeiro porco clonado do Brasil, criado em Piracicaba

Por Da redação - JP1 |
| Tempo de leitura: 3 min
Foto: Alyson Rodrigues/JP
Após quase quatro meses de vida, Boreal deixou como legado uma importante etapa da pesquisa sobre transplantes.
Após quase quatro meses de vida, Boreal deixou como legado uma importante etapa da pesquisa sobre transplantes.

O primeiro porco clonado do Brasil morreu no fim de julho, aos quase quatro meses de vida. Criado em Piracicaba, o animal fazia parte de uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) voltada ao desenvolvimento de técnicas que, no futuro, poderão permitir o uso de órgãos de suínos em transplantes para seres humanos.

A morte foi divulgada pelo G1, que ouviu o professor Ernesto Goulart, do Instituto de Biociências da USP e responsável pelo projeto. Segundo o pesquisador, o fim do animal estava previsto no protocolo da pesquisa, mas acabou sendo antecipado em cerca de dois meses devido às dificuldades financeiras enfrentadas pela equipe.

Mesmo com a antecipação, o clone havia cumprido a principal missão da primeira etapa do estudo. Durante os meses de acompanhamento, os pesquisadores avaliaram seu desenvolvimento e suas condições de saúde. O animal apresentou evolução considerada satisfatória e foi considerado saudável pela equipe.

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Porco será preservado pela USP

Após a morte, o animal passará por um processo de taxidermia e deverá ser levado ao Museu de Zoologia da USP, em São Paulo. A ideia é preservar o exemplar como parte da história da pesquisa científica brasileira e registrar uma etapa importante do desenvolvimento da clonagem de suínos no país.

O porco nasceu no Instituto de Zootecnia de Piracicaba e posteriormente foi transferido para as instalações da USP na capital paulista. A experiência permitiu aos pesquisadores acompanhar de perto o desenvolvimento de um animal produzido por clonagem e verificar se a técnica utilizada apresentava os resultados esperados.

Um segundo porco também chegou a ser produzido pela equipe, mas morreu apenas um dia depois do nascimento. O episódio demonstra uma das dificuldades envolvidas na clonagem, considerada uma técnica de alta complexidade e que ainda exige avanços para alcançar resultados mais consistentes.

Pesquisa mira transplantes no futuro

A clonagem, porém, é apenas uma das etapas do projeto. O objetivo seguinte é produzir suínos geneticamente modificados para que seus órgãos apresentem maior compatibilidade com o organismo humano e possam, futuramente, ser estudados como alternativa para transplantes.

A estratégia está ligada ao xenotransplante, área da ciência que investiga a utilização de órgãos, tecidos ou células de uma espécie em outra. No caso dos suínos, os pesquisadores buscam realizar alterações genéticas capazes de reduzir a rejeição do órgão pelo corpo humano.

O projeto começou a ser estruturado entre o fim de 2019 e o início de 2020 e reúne diferentes instituições e pesquisadores. A equipe recebeu recursos públicos, mas enfrenta dificuldades relacionadas ao financiamento, que afetaram a manutenção da estrutura e reduziram o número de profissionais envolvidos.

De acordo com informações do Ministério da Saúde apresentadas no projeto, a iniciativa integra o Programa Genomas Brasil. Foram aprovados R$ 11,6 milhões para a pesquisa, dos quais R$ 6,15 milhões já haviam sido liberados. A liberação das demais parcelas depende do cumprimento das metas, da prestação de contas e da disponibilidade orçamentária. Mesmo diante das limitações, os pesquisadores pretendem avançar para a próxima fase. O trabalho também busca dar continuidade à trajetória iniciada pelo professor Silvano Raia, um dos principais nomes ligados à pesquisa e pioneiro dos transplantes no Brasil, que morreu em abril de 2026.

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