ESCRAVIDÃO

Uma vida dedicada a uma família, mas sem direitos

Por Vitória Duarte / JP1 |
| Tempo de leitura: 2 min
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Idosa começou a trabalhar aos 7 anos de idade e viveu mais de cinco décadas sem acesso à educação, autonomia financeira ou direitos trabalhistas.
Idosa começou a trabalhar aos 7 anos de idade e viveu mais de cinco décadas sem acesso à educação, autonomia financeira ou direitos trabalhistas.

Aos 7 anos de idade, em 1971, uma menina chegou à casa de uma família em Fortaleza, no Ceará, acompanhada da mãe e da irmã. O que parecia ser uma ajuda dentro do ambiente doméstico se transformou em uma relação de exploração que durou mais de meio século.

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Aos 62 anos, ela foi encontrada em uma situação de trabalho análogo à escravidão durante uma operação que reuniu órgãos de fiscalização e equipes de assistência social. Segundo as investigações, durante todos esses anos, ela realizou tarefas domésticas, cuidou de crianças e acompanhou o crescimento de três gerações da mesma família.

O detalhe que mais chamou atenção dos investigadores foi a ausência completa de autonomia. A mulher nunca teve salário mensal, não construiu patrimônio próprio e não teve acesso à educação formal. Enquanto os membros da família estudavam, trabalhavam e formavam suas próprias vidas, ela permaneceu presa a uma rotina de dependência.

Da infância ao cuidado de gerações

Depois da morte da mãe, a trabalhadora continuou vivendo com a família. Em 1982, passou a morar com uma das filhas da antiga empregadora, onde ficou responsável pela casa e pela criação dos três filhos do casal.

Décadas depois, em 2014, começou a cuidar também da geração seguinte da família, em outra residência. A rotina incluía os serviços domésticos e o cuidado diário das crianças.

Mesmo já idosa e com problemas de saúde, ela mantinha uma jornada intensa. Segundo a fiscalização, começava as atividades por volta das 4h30 da manhã e não tinha garantidos períodos regulares de descanso.

Sem estudo e sem controle do próprio dinheiro

A investigação revelou ainda que a mulher permaneceu analfabeta durante toda a vida e que seus recursos financeiros eram administrados pelos empregadores.

Ela recebia um benefício do Bolsa Família, mas os saques eram feitos pela empregadora, que entregava apenas uma parte do valor à trabalhadora.

A situação mostra como a exploração não acontecia apenas pelo trabalho sem remuneração, mas também pela perda da liberdade de tomar decisões sobre a própria vida financeira.

Dívida trabalhista passa de R$ 1,5 milhão

A auditoria trabalhista calculou que os valores devidos podem ultrapassar R$ 1,5 milhão, considerando salários não pagos, férias, 13º salário, FGTS, verbas rescisórias e horas extras.

Em um acordo firmado após o resgate, os empregadores assumiram compromissos para garantir proteção à trabalhadora. Entre as medidas estão o pagamento de R$ 50 mil em verbas rescisórias, a compra de um imóvel no valor mínimo de R$ 150 mil, o pagamento de contribuições previdenciárias até a aposentadoria e uma complementação financeira caso ela complete 64 anos sem conseguir o benefício.

Depois de 55 anos, a mulher passa a ter a oportunidade de construir uma nova fase da vida com direitos reconhecidos e maior autonomia.

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