Uma tecnologia desenvolvida no Brasil está transformando o tratamento de queimaduras e abrindo novas possibilidades na medicina regenerativa. Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) descobriram que a pele de tilápia pode atuar como um curativo biológico altamente eficiente, graças à sua grande concentração de colágeno do tipo 1 — proteína essencial no processo de cicatrização da pele humana.
A técnica, estudada há mais de uma década, já originou dezenas de publicações científicas e parcerias com instituições nacionais e internacionais de pesquisa. Além do uso em queimaduras, o material vem sendo testado em procedimentos de reconstrução e até em tratamentos veterinários.
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Curativo natural para queimaduras
A pele do peixe possui propriedades que favorecem a recuperação da pele lesionada. Entre os principais benefícios estão a alta elasticidade e a presença de colágeno em quantidade superior à encontrada na pele humana.
Essas características permitem que o material se adapte à área lesionada e permaneça aderido ao local durante vários dias, protegendo a ferida e contribuindo para a regeneração dos tecidos. Em casos de queimaduras de segundo e terceiro grau, o curativo pode permanecer na lesão por quase uma semana, ou até mais em ferimentos superficiais.
Outra vantagem é a redução da dor e da manipulação da área ferida. Diferentemente dos tratamentos convencionais com pomadas e gazes — que precisam ser trocados com frequência — a pele de tilápia diminui a necessidade de substituição do curativo e, consequentemente, o desconforto do paciente.
Dois tipos de produtos derivados
A partir das pesquisas, foram desenvolvidas duas versões principais do curativo biológico.
Uma delas é a pele de tilápia conservada em glicerol, que precisa ser mantida sob refrigeração para preservar suas propriedades. A outra é a versão liofilizada, que passa por um processo de desidratação que permite seu armazenamento em temperatura ambiente.
Esse segundo formato reduz custos logísticos e facilita o transporte e a distribuição do material, o que pode ampliar o acesso ao tratamento em diferentes regiões.
Aplicações além das queimaduras
Embora tenha se tornado conhecida pelo uso em vítimas de queimaduras, a tecnologia também tem sido aplicada em outras áreas da medicina.
Entre as possibilidades está a reconstrução vaginal em pacientes com malformações congênitas ou que perderam parte do canal vaginal após tratamentos contra o câncer. O material estimula a formação de novos tecidos a partir das próprias células da paciente.
A técnica também vem sendo utilizada em cirurgias de redesignação sexual e em procedimentos realizados fora do Brasil, onde centenas de pacientes já passaram por intervenções com o uso do material biológico.
Uso em animais também apresenta resultados
Na medicina veterinária, a pele de tilápia tem sido testada em tratamentos de ferimentos e queimaduras em cães e gatos. Pesquisadores também investigam o uso do material em lesões na córnea e em reconstruções ósseas.
Nesses casos, o colágeno extraído da pele do peixe é transformado em uma matriz dérmica, permitindo que o material seja aplicado internamente para estimular a regeneração dos tecidos.
Por que a tilápia foi escolhida
A escolha da tilápia como fonte do material não aconteceu por acaso. O peixe é amplamente criado no Brasil, possui alta resistência a diferentes condições ambientais e se reproduz rapidamente, o que garante grande disponibilidade.
Além disso, a pele normalmente é descartada durante o processamento do peixe para consumo, o que torna o aproveitamento do material uma solução sustentável.
Outro fator relevante é que, por ser um animal de água doce, o risco de transmissão de doenças é considerado menor quando comparado a outras fontes biológicas.
Tecnologia pode chegar ao SUS
Apesar dos resultados promissores, o tratamento ainda não está disponível em todos os hospitais públicos. No entanto, um acordo firmado no final de 2025 pode acelerar a expansão da tecnologia.
A transferência da produção da pele de tilápia liofilizada para uma empresa brasileira abre caminho para o registro do produto na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e para a construção de uma fábrica dedicada à produção em larga escala.
A expectativa é que, com a industrialização do processo, o curativo biológico passe a integrar de forma mais ampla o sistema público de saúde, beneficiando pacientes em todo o país.