Mesmo reconhecida como uma das principais ferramentas para prevenir complicações graves do herpes-zóster, a vacina contra a doença não será incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS). A decisão, publicada no Diário Oficial da União nesta segunda-feira (12), reacende o debate sobre prioridades na saúde pública e o acesso desigual a tecnologias consideradas essenciais, especialmente para idosos e pessoas imunocomprometidas.
A avaliação foi conduzida pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), órgão responsável por analisar medicamentos, vacinas e procedimentos sob critérios que vão além da eficácia clínica. Embora os estudos apontem alta proteção contra o chamado cobreiro e suas sequelas, o parecer final foi negativo, com base principalmente no impacto financeiro da inclusão do imunizante no programa nacional.
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Custo pesa mais que o benefício
De acordo com o Ministério da Saúde, a projeção de gastos para ofertar a vacina recombinante adjuvada ultrapassaria R$ 5,2 bilhões em um período de cinco anos. O valor foi considerado incompatível com o orçamento atual do Programa Nacional de Imunizações, que precisa atender a diversas frentes simultaneamente.
O argumento central é que, nas condições avaliadas, a vacina não atingiu os critérios de custo-efetividade exigidos para incorporação. Na prática, isso significa que, apesar de funcionar bem, o preço cobrado pelo imunizante foi considerado alto demais para a realidade do SUS — um posicionamento que tem sido alvo de críticas por especialistas em saúde coletiva.
Doença silenciosa, impacto duradouro
O herpes-zóster surge a partir da reativação do vírus da catapora, que permanece adormecido no organismo por décadas. Com o avanço da idade ou a redução da imunidade, o vírus pode voltar a se manifestar, causando lesões na pele acompanhadas de dor intensa.
Em muitos casos, a doença evolui para a neuralgia pós-herpética, uma condição debilitante marcada por dores persistentes que podem durar meses ou até anos. Idosos e pacientes imunocomprometidos estão entre os mais vulneráveis às formas graves e às complicações.
Vacina moderna e novos indícios de benefício
O imunizante analisado pela Conitec é uma versão mais moderna, considerada superior às vacinas antigas contra o herpes-zóster. Além de reduzir significativamente os casos da doença e da neuralgia associada, pesquisas recentes vêm apontando possíveis efeitos indiretos positivos, como menor incidência de eventos cardiovasculares e até redução do risco de demência.
Apesar disso, essas descobertas ainda não fazem parte das indicações oficiais e foram tratadas com cautela pelos avaliadores. Mesmo assim, especialistas destacam que os dados reforçam a importância estratégica da vacina, sobretudo em uma população que envelhece rapidamente.
Acesso restrito à rede privada
Sem a oferta pelo SUS, a vacina segue disponível apenas em clínicas particulares. O esquema exige duas doses, com custo total que pode variar entre R$ 1.800 e R$ 2.400, dependendo da região — um valor inacessível para grande parte da população brasileira.
Entidades como a Sociedade Brasileira de Imunizações recomendam a aplicação a partir dos 60 anos, ou antes em situações específicas, além de indicarem o imunizante para pessoas imunocomprometidas a partir dos 18 anos. Ainda assim, sem cobertura pública, a prevenção acaba restrita a quem pode pagar.
Decisão pode ser revista
O Ministério da Saúde afirma que a negativa não é definitiva. Novos estudos, mudanças nos preços ou negociações com fabricantes podem levar a uma reavaliação futura. Até lá, permanece a crítica de que uma vacina considerada segura, eficaz e potencialmente capaz de reduzir internações e sofrimento ficou fora do SUS por questões orçamentárias — levantando dúvidas sobre o real custo de não prevenir.