Condição ligada ao uso inadequado de medicamentos como Wegovy e Mounjaro preocupa especialistas e levanta alerta sobre perda extrema de apetite.
O avanço no uso de medicamentos injetáveis para controle do peso e tratamento do diabetes disparou nos últimos anos no Brasil. Impulsionadas por promessas de emagrecimento acelerado, as chamadas “canetas emagrecedoras” passaram a integrar a rotina de milhares de pessoas. Nesse cenário, médicos começaram a observar um comportamento alimentar preocupante, que ganhou um novo nome: agonorexia.
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O termo, ainda não reconhecido oficialmente como diagnóstico, vem sendo utilizado para descrever um quadro semelhante à anorexia desencadeado pelo uso de análogos de GLP-1, classe de fármacos presente em medicamentos como Wegovy e Mounjaro. Em vez de apenas modular o apetite, como previsto no tratamento da obesidade, essas substâncias podem, em alguns casos, praticamente eliminar a fome.
Como a agonorexia se manifesta
A principal característica do quadro é a supressão intensa do apetite. O paciente passa a relatar ausência quase completa de vontade de comer, náusea ao se deparar com alimentos e sensação prolongada de estômago cheio. Com o tempo, torna-se comum pular refeições e reduzir drasticamente a ingestão calórica diária.
Além dos impactos físicos, há mudanças comportamentais relevantes. Algumas pessoas começam a evitar eventos sociais que envolvem comida, como almoços em família e confraternizações, o que pode afetar relações pessoais e o bem-estar emocional.
Esses medicamentos atuam diretamente em áreas cerebrais relacionadas à fome e ao prazer alimentar, diminuindo o desejo de comer. Também retardam o esvaziamento gástrico, mantendo a sensação de saciedade por períodos mais longos. Embora esse mecanismo seja terapêutico quando bem indicado, o efeito pode se tornar excessivo dependendo do perfil do paciente e da forma de uso.
Quem corre maior risco
Especialistas apontam que a agonorexia tende a surgir com mais frequência em pessoas que utilizam as canetas sem indicação médica clara. Entre os fatores associados ao risco estão:
- Distorções de imagem corporal;
- Busca por emagrecimento rápido a qualquer custo;
- Início do tratamento com doses elevadas, sem escalonamento gradual;
- Uso do medicamento fora dos critérios clínicos estabelecidos.
Os estudos que avaliaram a segurança e eficácia desses fármacos foram conduzidos principalmente em indivíduos com obesidade ou diabetes tipo 2. Fora desse contexto, os efeitos podem ser diferentes e menos previsíveis. Um dos temores é o chamado “efeito sanfona”, marcado por perda rápida de peso seguida de recuperação posterior, muitas vezes acompanhada de redução significativa de massa muscular.
Riscos associados ao quadro
Quando a ingestão alimentar se torna insuficiente por período prolongado, o organismo passa a sofrer consequências importantes. Entre os principais riscos observados estão:
- Desidratação;
- Redução da imunidade;
- Desnutrição;
- Queda de desempenho físico;
- Perda acentuada de massa muscular;
- Fadiga persistente.
A perda de massa magra, em especial, preocupa médicos, pois compromete o metabolismo, a força e a saúde geral, podendo dificultar a manutenção do peso a longo prazo.
Benefícios existem, mas exigem critério
Em pacientes com obesidade ou diabetes, medicamentos como Wegovy e Mounjaro podem trazer benefícios clínicos relevantes, incluindo melhora do controle glicêmico e redução consistente do peso corporal. No entanto, a indicação deve ser criteriosa e acompanhada por profissionais de saúde, com ajuste progressivo de dose e monitoramento regular.
Ao notar redução extrema do apetite, mal-estar frequente ou mudanças comportamentais relacionadas à alimentação, a recomendação é buscar avaliação médica imediata. A reavaliação da dose ou até mesmo a suspensão do tratamento pode ser necessária.
Especialistas reforçam que as canetas emagrecedoras não devem ser encaradas como solução estética ou atalho para padrões corporais idealizados. O uso sem supervisão pode trazer consequências duradouras para a saúde física e mental, transformando um recurso terapêutico em um fator de risco silencioso.