Um relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) aponta que uma série de falhas envolvendo a tripulação, a Voepass Linhas Aéreas e a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) contribuiu para a queda da aeronave da companhia em Vinhedo, no interior de São Paulo, em agosto de 2024. O acidente resultou na morte de 62 pessoas.
O documento foi obtido pela Folha de S.Paulo e encaminhado às autoridades da França e do Canadá, países responsáveis pela fabricação da aeronave e dos motores. O relatório ainda passa por revisão e não foi publicado oficialmente pelo Cenipa.
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Falhas apontadas na atuação da tripulação
Segundo a investigação, os pilotos mantiveram conversas sem relação com a operação do voo durante parte da viagem, reduzindo a atenção em um momento em que havia condições favoráveis à formação de gelo nas asas da aeronave.
O relatório também aponta falhas no cumprimento dos procedimentos operacionais. De acordo com o documento, a tripulação não identificou a gravidade da situação em tempo hábil, deixou de solicitar uma descida imediata e não declarou emergência, apesar dos alertas emitidos pelo sistema da aeronave antes da perda de controle.
A investigação ainda informa que um dos pilotos enfrentava problemas pessoais que, conforme a análise técnica, podem ter influenciado sua atuação durante o voo.
Problemas operacionais na Voepass
O Cenipa também identificou falhas nos procedimentos internos da companhia aérea.
Conforme o relatório, havia registros de problemas no sistema de degelo da aeronave antes da decolagem. Mesmo assim, o voo foi mantido, apesar da previsão de condições meteorológicas favoráveis à formação de gelo.
A investigação aponta ainda que alertas recorrentes passaram a ser tratados como situações rotineiras dentro da empresa. Além disso, falhas registradas em voos anteriores não teriam sido inseridas nos diários de bordo, o que impediu a adoção de medidas como manutenção corretiva, substituição da aeronave ou alterações na operação.
Investigação também cita atuação da Anac
O relatório também faz apontamentos sobre a atuação da Agência Nacional de Aviação Civil.
Segundo o Cenipa, auditorias e inspeções realizadas pela Anac identificaram não conformidades relacionadas à manutenção das aeronaves e ao registro de falhas operacionais. No entanto, essas constatações não resultaram em medidas consideradas suficientes para reduzir os riscos identificados.
Relatório definitivo ainda será divulgado
O advogado Leonardo Amarante, representante da associação formada por familiares de 130 vítimas do voo 2283, afirmou que o documento divulgado ainda não corresponde ao relatório final da investigação.
Segundo ele, a versão definitiva poderá apresentar ajustes na redação ou em pontos específicos, mas a expectativa é de que as conclusões técnicas sejam mantidas.
Além da investigação conduzida pelo Cenipa, seguem em andamento o inquérito da Polícia Federal, que apura eventual responsabilização criminal, e as ações judiciais relacionadas à reparação dos danos causados pelo acidente.
Posicionamento dos órgãos
Em nota, a Anac informou que ainda não recebeu oficialmente o relatório final e que somente irá se manifestar após a divulgação do documento.
O Cenipa afirmou que a investigação está na fase final de revisão e que fará comentários apenas após a publicação oficial do relatório.
Já a Voepass informou que não irá se pronunciar antes da conclusão das investigações e reiterou que permanece colaborando com as autoridades responsáveis pela apuração do caso.