O avanço do conflito no Oriente Médio começou a provocar uma corrida silenciosa entre moradores ricos de Dubai.
Temendo que a guerra se intensifique e comprometa ainda mais a segurança da região, famílias com alto poder aquisitivo estão desembolsando valores que chegam a centenas de milhares de dólares para deixar a cidade rapidamente.
Nos últimos dias, a movimentação no céu e o risco de novos ataques transformaram o clima no tradicional centro financeiro dos Emirados Árabes Unidos.
Com parte do espaço aéreo fechado e aeroportos operando de forma limitada, quem tem recursos financeiros está recorrendo a voos fretados, rotas terrestres longas e até conexões em países vizinhos para conseguir sair.
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A fuga ocorre em meio a uma escalada militar que já atingiu diretamente o território dos Emirados, com drones e mísseis cruzando o céu e provocando mortes e danos em infraestruturas estratégicas.
Luxo e segurança sob pressão
Durante décadas, Dubai se consolidou como um dos destinos preferidos de milionários e celebridades. A cidade atraiu investidores e expatriados ricos com uma combinação de fatores: baixa tributação, ambiente seguro, infraestrutura de alto padrão e um governo voltado à expansão de negócios internacionais.
O emirado tornou-se símbolo de prosperidade no Golfo Pérsico. Ali estão atrações que se tornaram ícones globais, como o edifício mais alto do planeta, parques temáticos gigantescos, resorts luxuosos e um dos maiores centros comerciais do mundo, que inclui até uma pista de esqui coberta.
Essa imagem de refúgio seguro, porém, começou a ser questionada após o agravamento das tensões na região.
Desde o último sábado, os Emirados Árabes Unidos foram alvo de mais de 800 drones e cerca de 200 mísseis. Os ataques fazem parte de uma ofensiva retaliatória do Irã contra países do Golfo, após uma operação militar conjunta de Estados Unidos e Israel que resultou na morte do líder supremo iraniano, Ali Hosseini Khamenei.
Além de provocar três mortes, os ataques também atingiram áreas sensíveis, incluindo aeroportos e instalações ligadas ao setor petrolífero.
Explosão perto de casa acelerou decisão
Entre os moradores que decidiram sair está Evrim, uma cidadã turca que vive em Dubai com o marido e dois filhos. A decisão da família ocorreu após uma explosão causada por destroços de um míssil interceptado atingir um hotel de luxo próximo à residência deles.
A família mora em Palm Jumeirah, o famoso arquipélago artificial em forma de palmeira que se tornou um dos principais símbolos da ostentação imobiliária da cidade.
“Quando vimos o fogo, percebemos que era hora de ir embora”, relatou Evrim.
Para garantir uma saída rápida, eles pagaram cerca de 200 mil dólares — aproximadamente R$ 1,03 milhão — por um voo fretado que partiu de Mascate, capital do sultanato de Omã, com destino a Genebra, na Suíça.
Antes de embarcar, porém, foi necessário enfrentar uma longa jornada por terra. A família dirigiu cerca de seis horas pelo deserto até chegar ao país vizinho, onde ainda era possível encontrar voos disponíveis.
Segundo Evrim, o impacto psicológico do episódio foi grande, especialmente para as crianças.
“Estamos muito nervosos, principalmente por causa dos nossos filhos. Quando ouviram a explosão, ficaram muito assustados”, contou.
O medo maior da família era que o conflito se expandisse ainda mais, tornando praticamente impossível deixar a região.
A preocupação aumentou com a possibilidade de a Arábia Saudita — responsável por grande parte do controle do espaço aéreo regional — entrar diretamente na guerra.
Disputa por jatos e rotas de fuga
Empresas especializadas em aviação executiva relatam um aumento expressivo na procura por voos privados.
Glenn Phillips, responsável pelas relações públicas da empresa Air Charter Service, afirma que a demanda por evacuações cresceu rapidamente.
“Já organizamos diversos voos para retirar pessoas da região e há mais programados para os próximos dias”, disse.
Grande parte dessas viagens tem origem em Mascate, capital de Omã, que se tornou uma alternativa viável para quem consegue sair de Dubai por terra.
Mesmo assim, o processo está longe de ser simples. A disponibilidade de aeronaves é limitada porque muitos aviões ficaram retidos em aeroportos que foram fechados após os ataques.
Além disso, operadores de jatos privados demonstram receio de operar na região por questões de segurança.
Com menos aeronaves disponíveis e maior procura, os preços dispararam.
Phillips alerta que a situação pode piorar caso o conflito se prolongue.
“Se a guerra continuar, haverá cada vez menos aviões disponíveis”, afirmou.
Trânsito intenso nas fronteiras
A rota terrestre para Omã se transformou na principal alternativa para quem tenta escapar do emirado.
No entanto, o fluxo crescente de veículos provocou congestionamentos significativos nos postos de fronteira. Há relatos de viajantes que aguardam entre três e quatro horas para conseguir atravessar.
Empresas de transporte também registraram aumento na procura.
Mike D’Souza, coordenador de operações da empresa Indus Chauffeur, afirmou que a demanda por carros particulares para deixar os Emirados aumentou consideravelmente, principalmente entre cidadãos europeus e norte-americanos.
Outra rota utilizada por alguns estrangeiros envolve a travessia para a Arábia Saudita, país cujos aeroportos seguem operando normalmente.
Contudo, esse caminho apresenta um obstáculo adicional: a necessidade de visto de entrada no território saudita, o que tem dificultado a evacuação de alguns viajantes.
Famílias com menos recursos enfrentam mais obstáculos
Enquanto milionários conseguem pagar voos fretados ou contratar motoristas particulares para atravessar fronteiras, moradores com renda mais baixa encontram dificuldades muito maiores para deixar Dubai.
Um britânico que pediu anonimato contou que tentou, sem sucesso por vários dias, comprar passagens comerciais para sair da região com a esposa grávida e o filho de três anos.
Segundo ele, os poucos voos disponíveis partindo de Mascate esgotam rapidamente.
“Os preços são extremamente altos e os assentos desaparecem quase imediatamente quando tentamos reservar”, relatou.
Depois de muitas tentativas, a família conseguiu garantir lugares em um voo para Hyderabad, na Índia. De lá, o plano é seguir viagem até a Tailândia.
Mesmo sem compreender completamente o que está acontecendo, a situação tem afetado o filho pequeno.
“Meu filho ainda não entende o que está acontecendo, mas está claramente confuso. Minha esposa também tem ficado bastante nervosa”, contou.
Apesar da decisão de deixar a cidade, ele diz que a família mantém forte ligação com o emirado.
“A verdade é que amamos Dubai e a consideramos nosso lar. A ideia é voltar assim que nosso filho nascer e a situação na região estiver mais estável”, afirmou.