Aos 30 anos, Jan Carlos Tineo Aguirre carrega uma trajetória marcada por deslocamentos, perdas e reconstrução. Morador de Piracicaba há cerca de três anos, ele deixou a Venezuela em meio à crise política e econômica e hoje acompanha à distância a queda de Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, episódio que considera decisivo para o futuro do país que precisou abandonar.
Da Venezuela ao interior paulista
A saída da Venezuela não foi direta para o Brasil. Em 2018, Jan Carlos se mudou para Lima, no Peru, tentando escapar do colapso econômico e da falta de perspectivas. Anos depois, incentivado por um amigo que já vivia no interior paulista, decidiu apostar em Piracicaba.
A adaptação foi rápida. Ele afirma ter se identificado com a cidade e com as oportunidades encontradas. “Gostei muito daqui e acabei ficando”, resume. Hoje, Piracicaba é o lugar onde trabalha, mora e planeja o futuro.
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Trabalho, estudos e novos planos
Com experiência na área de logística, Jan Carlos atua como analista e vê no mercado brasileiro a chance de crescimento profissional. A faculdade de Engenharia Industrial, iniciada fora do país, precisou ser interrompida por causa da crise venezuelana.
Agora, o plano é retomar os estudos por meio de uma formação técnica ligada à logística, área em que já atua há anos. Para ele, a estabilidade profissional é parte essencial do processo de reconstrução pessoal longe de casa.
Família distante e desafios do exílio
A maior parte da família vive atualmente em Curitiba. A mãe faleceu ainda fora do Brasil, e a separação familiar é um dos aspectos mais difíceis da migração. Mesmo assim, Jan Carlos afirma que criou vínculos em Piracicaba e não descarta permanecer no município por mais tempo.
Ele também relata desconhecer programas sociais como o Cadastro Único, realidade comum entre imigrantes que chegam ao país sem informações claras sobre a rede de assistência disponível.
Comunidade venezuelana e apoio social
Dados da Secretaria de Assistência, Desenvolvimento Social e Família indicam que 90 famílias venezuelanas, somando 242 pessoas, estão inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) em Piracicaba. O número revela que a história de Jan Carlos se repete em diferentes contextos: pessoas que fugiram da crise e buscam apoio para se estabelecer no Brasil.
Especialistas apontam que o CadÚnico é fundamental para mapear vulnerabilidades e orientar políticas públicas voltadas à população migrante, embora a falta de informação ainda seja um obstáculo para muitos.
Queda de Maduro reacende esperança
Para Jan Carlos, a queda de Nicolás Maduro representa o fim de um governo que ele classifica como ditatorial. Na sua avaliação, o país foi destruído por anos de autoritarismo, repressão e má administração, fatores que levaram milhões de venezuelanos a deixar o território nacional.
Ele reconhece que o modo como o regime terminou gera controvérsia, mas acredita que não havia mais caminhos democráticos viáveis. “O povo tentou e foi reprimido”, resume.
Apesar de tudo, o desejo de voltar à Venezuela permanece. Mas só faria sentido, segundo ele, se o país oferecesse condições melhores do que as que encontrou ao sair. Até lá, Piracicaba segue sendo o lugar onde ele constrói, dia após dia, um novo capítulo da própria história.