Piracicaba segue uma tendência que se espalha pelo país: o câncer passou a ser a principal causa de morte entre as doenças, superando as cardiovasculares, que por décadas lideraram as estatísticas.
Segundo levantamento do Observatório da Oncologia, em 2023 o câncer foi responsável por 685 mortes em Piracicaba, o equivalente a 21% de todos os óbitos por doença na cidade, que tem cerca de 423 mil habitantes. Os tipos mais letais foram o câncer de pulmão e brônquios (84 casos), seguido pelo de cólon (69), mama (55), pâncreas (40) e fígado (31).
Em todo o Brasil, as doenças cardiovasculares ainda lideram o ranking, com mais de 400 mil mortes anuais, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). No entanto, o câncer já ocupa o primeiro lugar em 670 municípios, número que vem crescendo ano a ano — um sinal de mudança no perfil de mortalidade e nos desafios da saúde pública.
Longevidade e estilo de vida explicam avanço
Para a médica oncologista Mariana Hamra Eleutério, do Centro do Câncer da Santa Casa de Piracicaba, essa virada é resultado direto de transformações sociais e demográficas. “O envelhecimento da população, o estilo de vida e o diagnóstico tardio ajudam a explicar o avanço da doença”, resume.
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Segundo ela, o aumento da expectativa de vida faz com que mais pessoas estejam sujeitas a doenças crônicas e de evolução lenta, como as neoplasias. Ao mesmo tempo, a redução das mortes por infarto e AVC, graças a avanços no controle da pressão alta, do colesterol e do tabagismo, abre espaço para que o câncer assuma o primeiro lugar. “O aumento do sedentarismo, do consumo de álcool, do tabagismo e da alimentação rica em produtos ultraprocessados está diretamente ligado ao risco de desenvolver a doença. A obesidade, por exemplo, já é apontada como fator de risco para diversos tipos de tumor”, alerta a especialista.
Outro desafio apontado por Mariana é o diagnóstico tardio, ainda comum no país. “Muitas vezes, ele é dificultado por barreiras culturais, demora em exames e acesso limitado a serviços especializados. Esse atraso reduz as chances de cura e aumenta a mortalidade.”, explica.
A médica defende que Piracicaba fortaleça ações preventivas e amplie o rastreamento em tempo oportuno. “Apesar do alerta, há um dado positivo: estamos vivendo mais. O desafio agora é transformar essa longevidade em qualidade de vida. Para isso, Piracicaba precisa investir em ações integradas, preventivas e proativas — capazes de reduzir o impacto do câncer e construir uma cidade mais saudável para todos, com políticas públicas voltadas à prevenção e diagnóstico precoce”, afirma.
Estudo
O levantamento nacional que embasa os dados de Piracicaba confirma uma mudança epidemiológica em curso. Em 2023, o câncer foi a principal causa de morte em 670 municípios brasileiros, o equivalente a 12% do total — um aumento de 30% em oito anos.
O estudo, realizado a partir do SIM (Sistema de Informação sobre Mortalidade) do Ministério da Saúde, mostra que as mortes por câncer cresceram 120% entre 1998 e 2023, enquanto as doenças cardiovasculares aumentaram 51% no mesmo período. Isso significa que a mortalidade por neoplasias avança 2,3 vezes mais rápido que a que a das doenças do coração.