Supercraques no Vale.
Antes de levantar a taça da Copa do Mundo de 1962, no Chile, a Seleção Brasileira encontrou em Campos do Jordão o cenário ideal para preparar uma das campanhas mais marcantes da história do futebol.
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Entre o fim de março e o início de abril daquele ano, craques como Pelé, Garrincha, Didi, Zagallo, Bellini e Vavá trocaram os grandes centros pela tranquilidade da Serra da Mantiqueira para realizar os últimos ajustes antes da busca pelo bicampeonato mundial.
Com altitude média superior a 1.600 metros e clima semelhante ao chileno, Campos do Jordão foi escolhida como centro de preparação da equipe comandada por Aymoré Moreira. O período de treinamentos transformou a rotina da cidade e deixou um legado que permanece vivo mais de seis décadas depois.
Hoje, enquanto pleiteia ser uma das subsedes da Copa do Mundo Feminina de 2027, Campos do Jordão relembra com orgulho os dias em que recebeu os maiores ídolos do futebol brasileiro.
Segundo o secretário de Esportes de Campos do Jordão, Marco Aurélio Zoffoli, a passagem da Seleção representa o maior marco esportivo da história do município.
“Você imagina uma Seleção Brasileira que era campeã do mundo [em 1958] vir para Campos do Jordão fazer a sua preparação para o bicampeonato. Pelé, Garrincha, Bellini e tantos outros ficaram aqui por um período significativo. Não foi apenas uma visita rápida. Eles vieram fazer uma preparação completa antes da Copa”, afirma.
Na época, a cidade tinha cerca de 20 mil habitantes. A chegada dos campeões mundiais provocou uma verdadeira comoção popular. Os treinos realizados no campo da Abernéssia, na região central da cidade, eram abertos ao público e atraíam multidões.
“Chegou a ter mais de 6 mil pessoas acompanhando um treinamento. Todo mundo queria ver os craques do Brasil de perto. Foi algo surreal para a época”, relembra Zoffoli.
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Hotel virou quartel-general da Seleção
Durante a estadia em Campos do Jordão, os jogadores ficaram hospedados no tradicional Hotel Vila Inglesa, um dos empreendimentos mais emblemáticos da cidade.
Inaugurado em 1948, o hotel tornou-se parte da história do futebol brasileiro ao receber os futuros bicampeões mundiais.
Para a gerente de planejamento do hotel, Fabrizia Nunes, a escolha do Vila Inglesa não foi por acaso.
“O Vila Inglesa é um hotel icônico. Faz parte dos primeiros hotéis da cidade e ajudou a consolidar o estilo arquitetônico que se tornou uma marca de Campos do Jordão. Tenho certeza de que a Seleção não poderia ter sido acomodada em outro lugar”, destaca.
A passagem da equipe deixou marcas que permanecem preservadas até hoje. Fotos históricas decoram corredores e áreas comuns do empreendimento, transformando o hotel em uma espécie de museu da conquista de 1962.
“Quando tivemos acesso ao acervo histórico, fizemos questão de preservar toda a arquitetura e as imagens da Seleção. Hoje, o hotel é decorado com fotografias dos campeões mundiais”, conta Fabrizia.
Entre os espaços mais disputados está a famosa suíte da torre onde Pelé ficou hospedado.
“A suíte do Pelé continua sendo a mais requisitada do hotel. Recebemos pedidos constantes de hóspedes que querem viver essa experiência. Ela costuma ser uma das primeiras a ser reservada”, revela.

Cardápio histórico e homenagem a Garrincha
Além das fotografias e da suíte histórica, o Vila Inglesa preserva outro item curioso da passagem da Seleção: o cardápio preparado especialmente para os jogadores.
Segundo Fabrizia, os pratos receberam nomes inspirados nos integrantes da delegação brasileira.
“O chef criou receitas homenageando jogadores, comissão técnica e até o massagista. Esse cardápio é tratado como uma obra histórica e guardado com muito carinho”, afirma.
O legado gastronômico também inspirou um dos drinques mais conhecidos do hotel. Batizado de “Meia Dois”, em referência ao Mundial de 1962, ele homenageia Garrincha, protagonista da campanha após a lesão de Pelé.
“O drink leva cachaça, melaço e pimenta. É uma homenagem ao Garrincha, que foi decisivo para a conquista”, explica.
Craques também participaram da Festa do Pinhão
A presença da Seleção não se limitou aos campos de treinamento. Os jogadores participaram de eventos tradicionais da cidade e interagiram com a população local.
Um dos momentos mais lembrados ocorreu durante a Festa do Pinhão, evento que continua sendo uma das principais atrações do calendário jordanense.
“Pelé participou da festa e colocou a faixa na rainha do evento. A Festa do Pinhão já era tradicional e continua acontecendo até hoje”, recorda Zoffoli.
Moradores que eram adolescentes na época ainda guardam lembranças daqueles dias. Muitos abandonaram temporariamente suas atividades para acompanhar os treinamentos dos ídolos. Outros viajaram quilômetros a cavalo apenas para conseguir ver de perto os jogadores que encantavam o país.

O início do caminho para o bicampeonato
Pouco tempo depois de deixar Campos do Jordão, a Seleção embarcou para o Chile. Durante a competição, o Brasil enfrentou um desafio inesperado com a lesão de Pelé ainda na fase de grupos.
Foi então que Amarildo assumiu o protagonismo ao lado de Garrincha. A equipe eliminou Inglaterra e Chile e derrotou a Tchecoslováquia por 3 a 1 na decisão, conquistando o bicampeonato mundial.
Para Fabrizia Nunes, existe até uma superstição envolvendo a passagem da equipe pelo hotel.
“Quem passa pelo Vila Inglesa ganha mais sorte. A Seleção esteve aqui em 1962, perdeu o Pelé durante a Copa e, mesmo assim, conquistou o título. Gostamos de acreditar que um pouco dessa sorte começou em Campos do Jordão”, brinca.
Mais de 60 anos depois, o campo da Abernéssia, o Hotel Vila Inglesa e a memória dos moradores mantêm viva uma história que transformou a cidade em parte do caminho rumo a uma das maiores conquistas do futebol brasileiro. Um capítulo que une esporte, turismo e tradição e que continua sendo motivo de orgulho para Campos do Jordão.