O PCC (Primeiro Comando da Capital), facção criminosa nascida dentro da Casa de Custódia de Taubaté, entrou oficialmente na mira do governo dos Estados Unidos. Nesta quinta-feira (28), a administração do presidente Donald Trump anunciou a inclusão do PCC e do CV (Comando Vermelho) na lista de organizações terroristas estrangeiras. O Vale do Paraíba é palco de uma guerra entre as duas facções.
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A medida anunciada pela Casa Branca passa a valer em 5 de junho e abre caminho para sanções financeiras, bloqueios internacionais e ações de combate ao crime organizado transnacional ligadas ao narcotráfico.
O governo brasileiro vinha tentando, nos últimos meses, evitar essa designação por avaliar que isso poderia abrir caminho para uma ação militar dos EUA no Brasil ou aplicação de sanções severas em setores econômicos e financeiros.
Segundo o Departamento de Estado norte-americano, a decisão integra uma estratégia internacional para ampliar o enfrentamento a grupos criminosos que atuam além das fronteiras nacionais e movimentam bilhões de dólares com tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que PCC e CV estão entre “as organizações criminosas mais violentas do Brasil” e destacou que as facções possuem alcance internacional.
A anúncio de Rubio também coincide com um encontro entre ele e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência da República, ocorrido nesta quarta-feira (28), em Washington.

“A Administração Trump continuará usando todas as ferramentas disponíveis para proteger nossos interesses de segurança nacional e negar financiamento e recursos a narcoterroristas”, declarou Rubio.
Segundo estimativas do Ministério Público, a organização movimenta cerca de R$ 10 bilhões por ano, reúne aproximadamente 40 mil integrantes e está presente em todos os estados brasileiros, além de atuar em 28 países. Uma verdadeira multinacional do crime.
"Juntas [PCC e CV], elas comandam milhares de membros e têm orquestrado ataques brutais contra policiais brasileiros, autoridades públicas e civis. Sua influência e suas redes ilícitas se estendem muito além das fronteiras do Brasil, alcançando toda a nossa região e também o nosso país", disse Rubio.
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O PCC nasceu em Taubaté
A origem da maior facção criminosa da América Latina remonta ao dia 31 de agosto de 1993, dentro do anexo da Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, conhecido pelos presos como “Piranhão”.
O local foi criado durante o governo Franco Montoro para receber presos considerados de alta periculosidade e líderes de rebeliões em um regime extremamente rígido, que mais tarde inspiraria o RDD (Regime Disciplinar Diferenciado).
Segundo o tenente-coronel da reserva da Polícia Militar Lamarque Monteiro, autor de livro sobre a história da unidade, o ambiente de repressão, isolamento e violência acabou servindo como combustível para o nascimento da facção.
“O anexo foi instalado com a finalidade de trazer os principais líderes de rebeliões de outras penitenciárias do Estado”, afirmou Lamarque em entrevista a OVALE.
De acordo com ele, a facção surgiu inicialmente como uma organização criada por presos que alegavam combater abusos dentro do sistema prisional paulista.
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De facção prisional a multinacional do crime
Ao longo de mais de três décadas depois, o PCC deixou de ser apenas um grupo ligado aos presídios paulistas e passou a operar como uma estrutura criminosa internacionalizada.
A avaliação é do promotor Alexandre Castilho, integrante do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público no Vale do Paraíba.
Segundo ele, o PCC funciona atualmente com características semelhantes às de uma multinacional.
“O PCC hoje é essa diversidade. É o tráfico internacional e as lideranças se encontram escondidas na Bolívia. Algumas ainda estão no Brasil, mas a maioria está fora do país”, afirmou o promotor a OVALE.
As investigações apontam que a facção atua no tráfico internacional de cocaína, no controle de rotas logísticas, na lavagem de dinheiro e em crimes financeiros sofisticados.
Operações recentes revelaram o uso de fintechs, empresas de fachada, laranjas e aplicações financeiras para ocultar milhões de reais movimentados pela organização.
Estrutura empresarial e disciplina rígida
Segundo o Ministério Público, o PCC mantém uma organização interna altamente estruturada.
Há divisão de funções, fluxo de caixa, arrecadação, cobrança de dívidas, financiamento de crimes e apoio financeiro a familiares de integrantes presos.
“O crime é profissional. Eles aprendem com as próprias investigações feitas pelo Estado. Quando uma estratégia policial é repetida, eles já conseguem se adaptar”, afirmou Castilho.
O grupo também mantém um sistema interno de punições. Integrantes acusados de traição, dívidas ou quebra de regras podem ser julgados pela própria facção e executados.
Vale virou palco de guerra entre facções
Enquanto o PCC expandia seus negócios internacionais, o Vale do Paraíba passou a viver uma guerra violenta pelo controle do tráfico de drogas.
A região se transformou em área estratégica de disputa entre o PCC e facções rivais vindas do Rio de Janeiro, como o Comando Vermelho, TC (Terceiro Comando) e ADA (Amigos dos Amigos).
A disputa explodiu principalmente em cidades do Vale Histórico e do Litoral Norte, como Cruzeiro, Lorena, Bananal, Ubatuba e Caraguatatuba.
Segundo investigadores, o avanço carioca ocorreu após o PCC concentrar esforços no tráfico internacional, deixando espaços no varejo do tráfico regional.
Quando tentou retomar o controle total das chamadas “biqueiras”, iniciou-se uma escalada de violência.
Chacinas, fuzis e corpos carbonizados
Nos últimos anos, o Vale do Paraíba registrou uma sequência de homicídios ligados diretamente à disputa territorial entre facções.
Relatórios do Ministério Público apontam execuções em plena luz do dia, uso de fuzis, chacinas e até corpos carbonizados em pneus — prática conhecida no submundo do crime como “micro-ondas”. A estratégia serve para eliminar vestígios, intimidar moradores e enviar mensagens aos rivais.
A guerra também impactou diretamente os índices de violência.
Levantamento de OVALE, com base nos dados oficiais da Secretaria de Segurança Pública, mostra que as seis cidades com maiores taxas de homicídio do estado de São Paulo estão na RMVale e no Litoral Norte.
Lorena lidera o ranking, seguida por Ubatuba, Cruzeiro, Caraguatatuba, São Sebastião e Pindamonhangaba.
Tarcísio admite avanço de facções do Rio
Em entrevista a OVALE, o governador Tarcísio de Freitas admitiu a existência da guerra entre facções na região.
Segundo ele, a proximidade geográfica com o Rio de Janeiro facilita a infiltração de organizações criminosas cariocas em território paulista.
“É o Comando Vermelho, Terceiro Comando e Amigos dos Amigos contra o PCC. Eles tentam entrar no território paulista e são contidos, mas aí tem disputa pelos pontos de drogas”, afirmou.
O governador também relacionou diretamente os altos índices de homicídio da RMVale à guerra do tráfico.
A inclusão do PCC na lista de organizações terroristas estrangeiras representa um novo capítulo no combate internacional à facção criada em Taubaté.