ESPOSA DE OFICIAL

Caso Gisele: Justiça envia caso de PM morta à vara de feminicídio

Por Da redação | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução
Gisele morreu com um tiro na cabeça
Gisele morreu com um tiro na cabeça

O TJ (Tribunal de Justiça) de São Paulo distribuiu o inquérito que investiga a morte da policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, para a Vara do Júri da Capital, unidade responsável por julgar crimes dolosos contra a vida, como homicídio, feminicídio e induzimento ao suicídio.

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A decisão ocorre em meio ao avanço das investigações sobre o caso, que inicialmente foi registrado como suicídio, mas posteriormente passou a ser tratado pela Polícia Civil como morte suspeita.

Gisele foi encontrada morta com um tiro na cabeça, em 18 de fevereiro, no apartamento onde morava com o marido, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, na zona sul de São Paulo.

Na ocasião, o oficial estava no local, acionou o socorro e informou às autoridades que a esposa teria atirado contra a própria cabeça. Com o surgimento de novos elementos no inquérito, a investigação passou a reavaliar a dinâmica da morte.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, a apuração segue em andamento e a tipificação do crime ainda pode ser alterada.

“A Polícia Civil já colheu depoimentos e aguarda laudos complementares para subsidiar as investigações. O caso é rigorosamente apurado, sob sigilo, com acompanhamento da Corregedoria da Polícia Militar”, informou a SSP em nota.

Novo laudo aponta lesões no pescoço e no rosto

Um novo laudo necroscópico elaborado pelo Instituto Médico Legal (IML) após a exumação do corpo da policial apontou lesões contundentes na face e na região cervical da vítima.

O documento, obtido pela reportagem de OVALE, indica que as marcas são compatíveis com pressão digital e escoriações provocadas por unhas, conhecidas tecnicamente como “estigma ungueal”.

O exame foi emitido no último sábado (7), um dia após a exumação do corpo.

Segundo os peritos, tanto o novo laudo quanto o primeiro exame necroscópico, realizado em 19 de fevereiro, apontam como causa da morte traumatismo cranioencefálico grave provocado por disparo de arma de fogo.

No laudo inicial já havia registro de marcas na face e no pescoço descritas como “estigmas digitais”, caracterizadas por lesões compatíveis com pressão feita com os dedos.

Também foram identificadas lesões superficiais em formato de meia-lua, indicativas de arranhões provocados por unhas.

Polícia avalia pedir prisão do tenente-coronel

Com base nos novos elementos reunidos no inquérito, a Polícia Civil avalia pedir a prisão do tenente-coronel, marido da vítima.

Caso o pedido seja formalizado, caberá ao Ministério Público analisar o caso e decidir se solicita a medida à Justiça.

O oficial tem carreira marcada por atuação no Vale do Paraíba. Ele nasceu em Taubaté e possui um apartamento em São José dos Campos.

Após a morte da esposa, o tenente-coronel teria viajado para o Vale. A informação consta em depoimento prestado à Polícia Civil pela inspetora de condomínio Fabiana Capinan de Carvalho Pereira, que acompanhou parte da movimentação no prédio após o disparo.

Segundo a testemunha, o oficial permaneceu no corredor após o atendimento inicial e retornou ao apartamento para buscar pertences antes de seguir para a região.

Depoimentos levantam dúvidas sobre a dinâmica

Depoimentos de testemunhas e profissionais que atenderam a ocorrência passaram a levantar questionamentos sobre a versão inicial apresentada pelo oficial.

Um socorrista com 15 anos de experiência afirmou que a arma estava “bem encaixada” na mão da vítima, algo que considerou incomum em casos de suicídio.

Ele também relatou que o tenente-coronel estava completamente seco, sem sinais de que teria saído do banho — versão apresentada pelo militar ao afirmar que estava no banheiro quando a esposa teria se matado.

Segundo o socorrista, o chuveiro estava ligado, mas não havia água no chão ou no corredor. O oficial também não apresentava manchas de sangue, o que poderia indicar que não teria prestado socorro diretamente.

Outro detalhe observado foi que o quarto da suíte estava desarrumado, com objetos espalhados pelo chão, o que poderia indicar um possível embate antes do disparo.

Leia mais: Caso Gisele: novas pistas implicam PM do Vale por morte da esposa

Intervalo para acionar resgate também é investigado

A sequência de fatos relatada pelo tenente-coronel também é analisada pelos investigadores.

Uma vizinha afirmou ter ouvido um estampido às 7h28. A primeira ligação do oficial à Polícia Militar ocorreu apenas às 7h57, quando ele informou que a esposa havia atirado contra a própria cabeça.

Às 8h05, o militar acionou o Corpo de Bombeiros afirmando que a mulher ainda respirava. As equipes chegaram ao local às 8h13.

Entre as ligações feitas naquela manhã, uma chamou a atenção da família da vítima: o contato com o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Segundo o inquérito, o magistrado chegou ao prédio às 9h07, subiu ao apartamento com o oficial e deixou o local cerca de 11 minutos depois.

Cena do crime pode ter sido alterada

Laudos da Polícia Científica indicaram ainda que a cena do apartamento não foi preservada adequadamente, o que pode ter comprometido parte da perícia inicial.

A inspetora do condomínio relatou à polícia que três policiais militares femininas entraram no imóvel horas depois da ocorrência para realizar a limpeza do local.

Segundo o depoimento, ainda havia sangue espalhado na sala, resultado das manobras de reanimação feitas pelos socorristas.

Investigação segue sob sigilo

O caso é acompanhado pela Corregedoria da Polícia Militar e pela Polícia Civil.

A família da policial contesta a versão inicial de suicídio e pede que o caso seja investigado como feminicídio. A mãe de Gisele afirmou à polícia que o relacionamento do casal era conturbado e que o oficial teria comportamento abusivo.

Outro Lado

A defesa do tenente-coronel apontou que a morte de Gisele decorreu de um “trágico suicídio”. O termo aparece em nota divulgada pelo escritório de advocacia Malavasi Sociedade de Advogados, que representa o militar.

Segundo a defesa, até o momento, o tenente-coronel não figura como investigado, suspeito ou indiciado no procedimento formal em curso.

“Desde o início das apurações, tem colaborado com as autoridades competentes e permanece à disposição para o esclarecimento dos fatos”, diz a nota.

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