MEMÓRIAS

Doze mortes, um ano depois: como a cobertura mudou os repórteres

Por Leonardo de Oliveira, Pedro Dartibale e Giovanna Attili | da Redação
| Tempo de leitura: 10 min
Sampi/Franca
Giovanna Attili/GCN
Os 12 mortos na tragédia com estudantes da Unifran, em fevereiro de 2025
Os 12 mortos na tragédia com estudantes da Unifran, em fevereiro de 2025

Um ano após a tragédia que marcou 12 famílias de São Joaquim da Barra, os repórteres do Portal GCN/Sampi Leonardo de Oliveira, Giovanna Attili e Pedro Dartibale revisitam a cobertura que mudou suas rotinas - e suas vidas. Em um conjunto de textos pessoais e complementares, eles relatam os bastidores, os desafios profissionais e as marcas humanas deixadas pela experiência de acompanhar, de perto, a dor e o luto que atravessaram uma cidade inteira.

A tragédia que matou 12 estudantes da Unifran (Universidade de Franca), entre São José da Bela Vista e Nuporanga, completou um ano no último dia 20 de fevereiro. Este texto seria publicado no último domingo, 22, mas foi adiado por conta de uma nova tragédia na região: a morte de seis moradores de Franca na represa de Jaguara, entre Rifaina e Sacramento (MG), após a lancha em que estavam se chocar contra um píer, no dia 21.

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O tempo e o luto

Por Leonardo de Oliveira

O tempo não passa. Ele nos atravessa e, às vezes, nos parte.

Dizemos que “passa rápido” como quem tenta domesticar o inevitável. Mas, há um ano, para 12 famílias de São Joaquim da Barra, o tempo não correu: ele despencou. Num estalar de dedos, numa vibração de celular na madrugada de 20 de fevereiro, numa sucessão de mensagens que anunciavam que o fim de semana deixaria de ser comum.

Eu tinha menos de dois meses de profissão. Naquela noite, enquanto tentava dormir como qualquer outro brasileiro, não imaginava que estava prestes a aprender a diferença entre narrar um fato e suportar um fato. Fui ao local. Depois, ao IML (Instituto Médico Legal). A palavra “obrigação” me vestia como um escudo: estou aqui para reportar, estou aqui para informar. Mas nenhum manual ensina o que fazer quando a dor tem idade, rosto e alguém chamando por ela.

No IML, um pai, amparado por uma policial, subia a rampa para reconhecer o filho. Único. Dezessete, dezoito anos talvez. Jovem o suficiente para ainda acreditar que o futuro é uma garantia. Eu também já acreditei nisso. A diferença é que eu continuei. Ele não.

O tempo, ali, fez silêncio.

No sábado, voltei com Pedro Dartibale, que compartilhava o plantão comigo e com a Giovanna. Precisávamos contar aos ouvintes como acontecia o velório comunitário. A rádio informava; a cidade escutava; as famílias se despediam. Ao descer do carro, a primeira cena: uma mãe sendo carregada para fora. “Me deixem voltar, minha menininha precisa de mim.”

Há frases que não ecoam no ar - ecoam dentro. Meu cérebro fez silêncio outra vez.

Fumei um cigarro como quem tenta organizar o caos em pequenas tragadas. Dois senhores ao meu lado conversavam baixo. De repente, o avô de um dos meninos era amparado ao sair da sala onde velava o neto. Eu não vi aquele homem. Eu vi meu avô. Vi o que ainda tenho e o que, inevitavelmente, perderei. Pela primeira vez, a mortalidade deixou de ser conceito e virou presença. Descobri, ali, que a ausência de quem amamos não é um vazio - é um peso.

Horas depois, quando os velórios ficaram restritos às famílias, acompanhei os primeiros caixões até o cemitério. Do alto, ouvi o hino do São Paulo Futebol Clube ecoando no ginásio. Pode parecer deslocado falar de futebol em meio à morte. Não é. Futebol também é amor - e amor é o idioma que usamos quando não sabemos explicar a vida. Aquele torcedor não comemoraria mais um gol, não abraçaria mais os amigos na arquibancada. Mas os amigos estavam ali, cantando por ele. Fizeram questão de oferecer, na despedida, o que fariam em qualquer vitória.

Talvez o luto também seja isso - continuar fazendo pelo outro o que não poderemos mais fazer com ele.

Lembro também da mãe que recuperou forças para acompanhar o filho no trajeto do carro funerário. A mesma mãe cujo marido precisou de ajuda para subir uma rampa. Havia uma torrente de pessoas ao redor, todas feridas, mas ainda assim sustentando umas às outras. Fui criado por mulheres que me ensinaram que o amor, quando tudo falha, ainda sustenta. Ele não devolve o que foi arrancado, mas impede que o resto desmorone.

Profissionalmente, aprendi muito. Humanamente, aprendi mais. Nada prepara alguém para absorver tanto sofrimento alheio sem que ele se torne um pouco seu. Descobri que 80 ou 90 anos parecem pouco quando amamos viver - e são ainda menos quando aquilo que dá sentido aos dias é arrancado como um curativo: rápido, brusco, deixando a pele exposta.

Ouvi certa vez que o luto é apenas o amor que perdura. Um ano depois, acredito nisso. O amor daquelas 12 famílias continua. Não porque o tempo cura - mas porque o tempo não apaga.

Nós é que passamos.

A verdadeira face da dor

Por Pedro Dartibale

A despedida começa antes mesmo de atravessar a porta do salão. Começa na estrada até São Joaquim, no silêncio que se instala dentro do carro, nas mensagens que chegam sem saber o que dizer, no estacionamento lotado onde ninguém parece saber para onde olhar. Começa no instante em que se respira fundo, como se fosse possível reunir forças suficientes para enfrentar o que, lá dentro, tornará tudo definitivo.

Ao entrar, a dor ganha forma. O salão é amplo, mas parece pequeno diante do tamanho da ausência. O perfume das coroas de flores se mistura ao ar pesado, difícil de atravessar. Sobre os caixões, fotografias exibem sorrisos largos, congelados em um tempo que já não existe. Olhar para elas é um golpe silencioso: a vida ali, viva e luminosa, contrasta com o presente que insiste em doer.

As famílias chegam aos poucos, como ondas que quebram sem aviso. Há quem precise ser amparado pelos braços, porque as pernas já não sustentam o peso do momento. Há quem entre com passos firmes demais - a firmeza de quem ainda não conseguiu acreditar. Alguns tocam o vidro com delicadeza, como se fosse possível aquecer a frieza com a própria mão. Outros encostam a testa e fecham os olhos, numa conversa íntima que ninguém mais escuta.

O velório é o último encontro. E saber disso muda tudo. O jeito de olhar é diferente, o abraço é mais demorado, a voz sai mais baixa. As palavras parecem insuficientes, mas o silêncio também pesa. Ninguém quer ir embora, embora permanecer ali seja quase insuportável.

Do lado de fora, pequenos grupos se formam. Amigos de infância, colegas de trabalho, vizinhos que dividiram calçadas e cumprimentos diários. Pessoas que estiveram juntas em aniversários, jogos, planos para o futuro. Agora compartilham o mesmo gesto contido, os olhos marejados, a incredulidade que não encontra explicação. A cidade inteira parece encolher diante da própria fragilidade.

Quando os caixões começam a ser levados, algo muda no ar. O som das tampas sendo fechadas é seco, definitivo. Não há discurso que explique, não há consolo que alcance. Alguns familiares desabam; outros ficam imóveis, encarando o que não pode mais ser revertido. É nesse instante que a realidade deixa de ser notícia e se transforma em ausência concreta: não haverá outra conversa, outro riso, outra chance.

O cortejo segue devagar. Alguns preferem o silêncio; outros cantam hinos evangélicos, buscando na fé uma forma de suportar o que parece insuportável. Pelas ruas, a cidade observa em respeito. Não é apenas um comboio que passa - é uma parte da própria história que se despede.

As despedidas são sussurradas. “Eu vou cuidar.” “Eu não vou esquecer.” “Descansa.” Promessas simples, carregadas de amor e de tudo o que ficou por dizer. Cada flor depositada é uma tentativa de prolongar o vínculo que a morte não conseguiu apagar.

E então, pouco a pouco, as pessoas se dispersam. O cemitério volta ao silêncio habitual. Mas ninguém sai dali igual. Vai embora com a sensação de que a vida é frágil demais, de que o cotidiano pode se romper sem aviso. O amor, quando perde seu destino, não desaparece - ele se transforma em saudade.

O velório e o enterro não encerram a dor. Eles apenas a tornam visível. Dão nome à ausência. É ali que se compreende que a perda não é um ponto final - é uma mudança irreversível na forma de existir.

Destino e memórias

Por Giovanna Attili

Há um ano, uma das maiores tragédias dos últimos tempos na região de Franca aconteceu. Uma notificação no celular antes de dormir. Olhei rápido e pensei ser apenas mais um acidente, como tantos outros. Desliguei a internet, deitei a cabeça no travesseiro e dormi. Acordei no dia seguinte com minha mãe me chamando. Um acidente fatal havia tirado a vida de vários jovens.

Quando liguei a internet, as mensagens eram infinitas. O caos já estava instaurado. Leonardo Oliveira, Pedro Baccelli e Hevertom Talles haviam passado a noite acordados, tentando apurar informações. Lembro de acessar o sistema de publicação e ver os títulos sendo atualizados a cada confirmação oficial. O número de mortos só crescia: seis, oito, nove, onze. Doze estudantes haviam perdido a vida.

Eu estava apenas na metade do meu segundo mês como jornalista. Ao chegar à redação, encontrei um silêncio pesado. Dois repórteres haviam seguido para o IML (Instituto Médico Legal), em São Joaquim da Barra, para acompanhar o reconhecimento dos corpos. Conversei com o Leonardo pouco depois. Ele demonstrava, sem precisar dizer muito, o choque diante do que presenciava.

Permaneci na redação, dando suporte aos bastidores da cobertura. A busca por informações, a tentativa de confirmar quem eram as vítimas, a lista de nomes de quem estava no ônibus naquela noite. A cada foto que surgia, uma história interrompida se formava na minha cabeça.

Minha reflexão se aprofundou quando percebi que eu poderia ter cruzado com alguns daqueles 12 estudantes. Eu havia me formado na mesma instituição no fim do ano anterior. Andamos pelos mesmos corredores, talvez nos mesmos horários. Pessoas que existiram tão perto e que, infelizmente, nunca conheci.

O momento mais duro veio na homenagem realizada na faculdade. Eu e Laís Bachur fomos cobrir a despedida e encontramos uma multidão. Um mural foi montado no bloco lilás, com fotos, flores e mensagens. A imagem que ficou marcada foi a de uma família que parou em frente ao mural e, em silêncio, se desfez em lágrimas.

Depois, todos se reuniram em frente ao bloco azul. Balões foram soltos e subiram juntos, até se perderem no céu. Aquilo representou, para mim, exatamente a morte. Um dia estamos aqui, visíveis, presentes. Em outro, simplesmente não estamos mais.

Os dias seguintes giraram em torno do caos. As suspeitas sobre o motorista do ônibus, a fuga do caminhoneiro, o áudio de um dos sobreviventes, os feridos internados, sem saber se o número de mortos aumentaria ou não.

Acompanhei de perto o caso da sobrevivente Priscila Teixeira Lombardi, então com 20 anos, estudante do terceiro ano de Odontologia. Ela foi quem permaneceu mais tempo internada, após sofrer traumatismo craniano. Até hoje, é impossível não pensar em como seguiram as vidas dela e dos outros sobreviventes. Relatos indicam que alguns nunca mais conseguiram retornar à universidade, tomados pelo medo.

O sofrimento das famílias permanece. Em julho de 2025, entrevistei alguns pais que protestavam em frente ao Fórum da Comarca de Nuporanga. Um banner resumiu a dor coletiva: “A imprudência destruiu nossas vidas. Que a justiça ao menos nos traga um consolo”. Nenhum dos pais pôde entrar no Fórum naquele dia.

Cada entrevista deixou claro que o luto não tem prazo. Tristeza, desânimo, saudade, incredulidade, sensação de injustiça. Palavras que se repetiam nas falas de quem perdeu filhos de forma tão abrupta.

Um ano depois, volto a refletir. Uma entrevista em especial, com Expedita Saraiva, mãe de Pedro Saraiva, de 17 anos, ficou marcada. Ela contou que o filho morreu ao lado do melhor amigo, João Pedro Reis, de 19. Eram inseparáveis. As famílias, após a tragédia, também se tornaram uma só. Saber que partiram juntos sempre me leva a pensar em destinos cruzados, em histórias que vão além do que conseguimos explicar.

Minha mãe, que foi espírita na juventude, chamou o ocorrido de “desencarne coletivo”. Eu escuto, reflito, respeito. A minha compreensão é outra, mais simples e talvez mais dolorosa. A de que a vida pode ser interrompida de forma brutal, sem aviso, e que isso nos obriga a olhar com mais cuidado para quem está ao nosso lado.

A tragédia ficará marcada por muitos anos. Talvez para sempre. Inclusive no dia em que, no futuro, eu sentir medo de colocar um filho de 18 anos em um ônibus rumo à faculdade. Mas a vida desses 12 jovens seguirá viva na memória de quem os amou. Pessoas que, no tempo que tiveram, viveram intensamente, amaram, ajudaram e sorriram.

Eles significaram tudo, e irão significar tudo até o fim.

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