O drama do criador João Pedro Gimenes Malaquias, de São José da Bela Vista, a 30 km de Franca, ganhou um novo e trágico capítulo nesta semana. O número de cavalos mortos em sua propriedade, supostamente por intoxicação alimentar, subiu para quatro. Enquanto o prejuízo do pecuarista ultrapassa os R$ 200 mil, a empresa Nutratta Nutrição Animal Ltda., fabricante da ração, emitiu um comunicado oficial. Em nota, a companhia aponta uma possível causa para as mortes, mas não menciona o ressarcimento dos valores aos produtores afetados.
O novo óbito agrava a situação de João Pedro, que agora avalia, junto a outros criadores, a possibilidade de uma ação judicial coletiva. "Morreu mais um animal. Não conseguimos nenhum contato, e ninguém da empresa falou mais nada com a gente", desabafou o criador.
Ele relembra a promessa inicial da empresa, que não se concretizou. “Vieram a Franca só para conversar com a gente na época. Disseram que iam pagar, porém foi no início, quando não tinha muito animal morto. Depois, sumiram”, relata. Diante do impasse, a via judicial parece ser o caminho mais provável. “Era muito melhor se a empresa assumisse os erros e fizesse o certo, mas, se continuar assim, é provável uma ação coletiva”, completou.
Entre as perdas de João Pedro, está uma égua avaliada em R$ 100 mil, que estava prenhe e morreria em sua estreia nas competições, além do potro que nasceu dela e de outros dois animais jovens.
Empresa aponta possível toxina
Em seu primeiro comunicado oficial desde o início da crise, a Nutratta lamentou as mortes e afirmou que colabora integralmente com a investigação do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária). A empresa levantou a hipótese de que a contaminação tenha ocorrido pela "possível presença da substância monocrotalina", um alcaloide tóxico produzido por plantas do gênero Crotalaria.
Segundo a nota, essa planta, usada como adubo verde, "pode estar presente em matérias-primas de origem vegetal utilizadas em diversas cadeias agroindustriais". A empresa informou ter reforçado o controle de qualidade e a rastreabilidade de seus insumos.
A Nutratta também disponibilizou um canal de atendimento via WhatsApp para os clientes, mas não detalhou, no comunicado, nenhum plano para o ressarcimento dos prejuízos materiais e genéticos sofridos pelos criadores.
Investigação e riscos persistem
O caso segue sob investigação do Mapa, que já confirmou oficialmente 284 mortes de equinos em cinco estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Alagoas, Goiás e Minas Gerais), todas associadas ao consumo de lotes de ração da marca. Desde a primeira denúncia, em 26 de maio de 2025, a fabricação e comercialização de todos os produtos da Nutratta foram suspensas cautelarmente.
O médico-veterinário Danilo de Almeida Durigan, que acompanha o caso na região, reitera o alerta sobre os efeitos da intoxicação. “O problema mais comum é a falência hepática, que pode se manifestar até seis meses após a ingestão da toxina. É uma bomba-relógio dentro do corpo dos animais”, explica.
A doença causa apatia, emagrecimento e distúrbios neurológicos, sendo quase sempre fatal, já que não existe um antídoto específico.
Enquanto a investigação do Mapa avança, criadores como João Pedro vivem um misto de luto e incerteza, monitorando os animais sobreviventes e aguardando uma solução para os prejuízos que, para muitos, são irreparáveis.
Leia mais: "Cavalos morrem na região após consumirem ração contaminada"
Confira a nota oficial da empresa Nutratta Nutrição Animal Ltda. na íntegra:
Comunicado Oficial Nutratta
Prezados,
A empresa lamenta profundamente os relatos de intoxicação e óbitos de animais
supostamente associados ao produto e, além da suspensão do uso e da comercialização do
produto, reforça que vem colaborando integralmente com o Ministério da Agricultura e
Pecuária (MAPA), fornecendo todas as informações e documentos solicitados, além de ter
recebido os técnicos da autarquia em sua planta industrial.
Embora as investigações ainda estejam em curso, informações preliminares indicam a
possível presença da substância monocrotalina, produzida por plantas do gênero Crotalaria
— uma leguminosa amplamente utilizada em adubação verde —, que pode estar presente
em matérias-primas de origem vegetal utilizadas em diversas cadeias agroindustriais.
Diante da situação, a empresa adotou medidas preventivas e corretivas imediatas, incluindo
o reforço nos controles laboratoriais, revisão dos critérios de qualificação de fornecedores,
rastreabilidade de matérias-primas vegetais, além da reestruturação dos protocolos sanitários
e do layout fabril.
Com o objetivo de apoiar seus clientes, a empresa disponibiliza um canal exclusivo para
relatos e esclarecimentos: https://wa.me/556434327220
Com mais de 13 anos de atuação no setor de nutrição animal, a empresa reafirma seu
compromisso com a qualidade, a segurança alimentar e o bem-estar animal, valores que
sempre orientaram sua trajetória.
Com respeito e solidariedade genuína, Equipe Nutratta
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