O professor e produtor de conteúdo Fábio San Juan, de 52 anos, é um dos grandes estudiosos sobre Piracicaba, em seus aspectos históricos e culturais. Formado em Artes Visuais pela Unicamp e especialista em História da Arte pelo Centro Claretiano de Rio Claro, San Juan escreve e pesquisa sobre a história das artes em Piracicaba - e também sobre a história piracicabana - desde a década de 1990. É membro do IHGP (Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba) e autor de inúmeros artigos sobre o tema, além de ter publicado o livro “Modernidade Caipira e o Modernismo de 1922 em Piracicaba”.
Com toda essa bagagem e conhecimento sobre nossa cidade, San Juan destrincha, nesta entrevista, muitos aspetos interessantes sobre os equipamentos históricos de Piracicaba, sua valorização, e sua importância, não somente para os moradores da Noiva da Colina, mas também para todo o Estado e o país. “Piracicaba é um dos poucos centros regionais brasileiros com uma tradição cultural”, afirma.
San Juan entende, entretanto, que ainda há muito a ser explorado na história de Piracicaba. Um exemplo é a presença dos indígenas em nosso território. Para ele, “há um abismo de diferença entre o que foi escrito sobre a fundação de Piracicaba e trabalhos sobre povos originários na cidade”. “Estou escrevendo um livro a respeito, mas é um assunto que demanda muito mais do que somente um pesquisador e um só trabalho”. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista:
Você é um estudioso dos lugares históricos de Piracicaba. Então, quais são os principais lugares históricos de Piracicaba que todo morador deveria conhecer? Partindo-se dos locais para chegar às histórias, penso que todo morador de Piracicaba deveria conhecer lugares, como a Casa do Povoador, assim como o Largo do Pescador, o Engenho Central e tudo o que está na Rua do Porto e na avenida Beira Rio. Também é indispensável conhecer o Museu Prudente de Moraes, as igrejas e capelas católicas mais antigas, independente da sua religião, como a Igreja dos Frades, a Igreja do Bom Jesus, a Igreja de São Benedito, o Passo do Senhor do Horto e a Capela de São Pedro do Monte Alegre. A Catedral Metodista também merece ser conhecida. Os bairros do Centro e bairro Alto, os de Santana e Santa Olímpia, assim como o do Monte Alegre, são também incontornáveis. O campus da Esalq, que muitos moradores desconhecem, também precisa ser descoberto, ou redescoberto, por todos.
Qual desses locais você considera mais importantes para compreender a história da cidade? E por quê? As proximidades do Rio Piracicaba, na altura do salto, foram o local da primeira ocupação da cidade pelos portugueses. Também há registros arqueológicos da passagem dos indígenas por ali, no local da Fábrica Boyes, Engenho Central e avenida Beira Rio. A Casa do Povoador é um ótimo ponto de partida para conhecer nossa história, mesmo sendo um “falso histórico”, uma lenda urbana que atribuiu a casa ao fundador da cidade. Foi comprovado pelos estudiosos Hugo Pedro Carradore e João Chiarini que a casa pode ter sido construída próximo dos anos 1850, no máximo, portanto, não tendo abrigado bandeirantes e suas famílias. É, sim, um exemplar arquitetônico maravilhoso para falarmos da arquitetura de taipa de pilão e pau a pique e sapé, características das técnicas do interior paulista entre os séculos XVII e XIX. O complexo da Boyes e a antiga usina hidroelétrica do salto, hoje atual Museu da água, fruto da ação empreendedora de Luiz de Queiroz, e o bairro do Monte Alegre, construído em torno do Engenho do Monte Alegre, e depois, Usina, são testemunhas do início da industrialização piracicabana. O Engenho Central do Barão de Rezende também é importantíssimo nesta história.
Como esses espaços ajudam a preservar a memória e a identidade dos piracicabanos? Estes locais são testemunhos de iniciativas pessoais, como as do Barão de Rezende, com o Engenho Central, de Luiz de Queiroz, com a Fábrica de Tecidos Santa Francisca (depois, Arethusina, e por fim, Boyes) e a usina hidroelétrica do salto; mas também contam as histórias de como a cidade, em cada época, organizou.
Quais prédios, monumentos ou espaços históricos sofreram maiores transformações ao longo dos anos? Não há nenhum imóvel que ainda sobreviva na cidade que não tenha sofrido alguma transformação: todos, em qualquer época, recebem adaptações para o seu uso atual. A introdução de novos serviços estruturais, como a eletricidade, a água encanada e a rede de esgoto, assim como a telefonia, a introdução de banheiros dentro das casas e equipamentos públicos, exigiram alterações na estrutura de qualquer edifício que continuou a ser usado ao longo de mais de um século. Um dos edifícios que mais tiveram alterações foi a Igreja Matriz, depois Catedral; dependendo de como se encarem suas modificações, são cinco ou seis versões diferentes do mesmo prédio. A igreja São Benedito também foi bastante modificada, desde sua primeira versão, de 1857. É curioso verificar que a maioria esmagadora dos nossos edifícios mais antigos não possuem mais que 170 anos, embora a cidade tenha 259 anos de idade, oficialmente. Os mais antigos são a Casa do Povoador, (1850/1860), a Igreja da Boa Morte (original de 1851, mas foi destruída em um incêndio); a Igreja de São Benedito (1857), a casa de Prudente de Moraes (1870) e o Passo do Senhor do Horto (1875). Nos primeiros cento e vinte anos, mais ou menos, Piracicaba foi uma vila acanhada, sem grande desenvolvimento urbano, como Auguste de Saint-Hilaire testemunhou em 1822: uma vila simpática, situada entre bananeiras e laranjais, mas “destituída de importância, possui largas ruas mal calçadas, praças regulares e algumas casas bem construídas (…) A igreja matriz é pequena e nada apresenta de notável; a do Rosário não passa de uma capela”. Foi somente a partir da segunda metade do século XIX que o café e a cana-de-açúcar resultaram em prosperidade suficiente para a construção de edifícios de grande, assim como equipamentos e serviços urbanos. Há mais de uma cidade em cada cidade, como Giulio Carlo Argan poderia dizer. Em Piracicaba, há surtos de construção que são originados por surtos econômicos: o primeiro da cana de acúcar e do café no século XIX e começo do XX, da indústria metalúrgica, do álcool.
Existe algum lugar histórico de Piracicaba que esteja pouco conhecido ou valorizado pela população? Em vista da educação precária que temos tido na cidade, nos últimos anos, bem como da desvalorização da história não só aqui, mas no Brasil, os piracicabanos não conhecem sua história. É possível dizer que os piracicabanos, na média, não conhecem bem nenhum lugar histórico piracicabano. Nas ocasiões recentes que conduzi visitantes da própria cidade para visitar o bairro do Monte Alegre, o Engenho Central e a Rua do Porto, piracicabanos revelaram ter total desconhecimento do que é considerado mínimo para um cidadão conhecer dos acontecimentos passados do próprio local onde nasceu ou habita. E notei algo interessante: muitos estrangeiros ou brasileiros que não nasceram em Piracicaba costumam ter mais interesse pela história piracicabana do que muitos piracicabanos.
O turismo histórico poderia ser mais explorado em Piracicaba? Há muito o que ser explorado quanto ao turismo histórico em Piracicaba. Seria necessário haver oferta de roteiros permanentes, com guias de turismo treinados na história, geografia e aspectos sociológicos, antropológicos e artísticos da cidade, pois o que não falta são boas histórias e belos locais para serem visitados por turistas, internos e externos.
Como você definiria a importância de Piracicaba para a história da arte no interior paulista? Piracicaba é um dos poucos centros regionais brasileiros com uma tradição cultural. Temos ligações fortíssimas com a cultura, política e arte sacra de Itu, Porto Feliz e Sorocaba: Piracicaba integrava o antigo Oeste Paulista, fronteira de onde partiam as expedições bandeiristas para o Mato Grosso no século XVII e XVIII. Fomos visitados também por expedições de cientistas, os chamados “naturalistas”, como a de Auguste de Saint-Hilaire. Essas expedições sempre contavam com artistas para documentar visualmente suas descobertas e pesquisas. Por isso, Miguelzinho Dutra é tão importante em nossa historia local, mas também como pioneiro que bebe diretamente da tradição desses artistas das expedições dos naturalistas. Na história mais recente das artes plásticas, nossos artistas, como os artistas Dutra, bisnetos de Miguelzinho, e Joaquim de Mattos, discípulo de Almeida Júnior, integraram os grupos acadêmicos que compuseram o meio artístico paulista, contra o qual se insurgiram os modernistas – uma das razões pelas quais Piracicaba foi reduto de sobrevivência da tradição de pintura acadêmica por mais de meio século depois da Semana de Arte Moderna de 1922.
Quais artistas piracicabanos tiveram maior importância para a cultura e para as artes na cidade? Miguelzinho Dutra, os seus bisnetos Alípio, Antônio de Pádua, João e Arquimedes Dutra, Joaquim de Mattos, Pacheco Ferraz, Joca Adâmoli, Renato Wagner, Clemência Pizzigatti, Ermelindo Nardin. Na difusão artística, João Chiarini, Umberto Cosentino e José Maria Ferreira.
Como a arte popular e as manifestações culturais tradicionais contribuíram para a identidade artística da cidade? Apesar de termos poucos estudiosos sobre arte popular e manifestações tradicionais, e por isso, termos pouca pesquisa sobre o assunto na cidade, é possível observar que a identidade artística piracicabana se divide em dois campos: a cultura erudita, que mostra a arte acadêmica, e mais recentemente, os salões de arte contemporânea, o Salão Internacional de Humor; e a cultura popular, onde estão as manifestações folclóricas, religiosas e artísticas como a Festa do Divino, o cururu, a catira, a umbigada, o cateretê, os pratos da culinária caipira, como o cuscuz de peixe, a pamonha e a garapa; e artistas populares como Laureano Dorta e Elias dos Bonecos, que somente são valorizados quando trazidos do âmbito popular para o erudito. Em geral, as manifestações folclóricas raramente se comunicam; posso citar as obras de Marilu Trevisan e Antonio Morelato como uma das manifestações eruditas que bebem dessa cultura popular.
O patrimônio histórico de Piracicaba poderia ser mais utilizado como espaço de educação e produção artística? Sem dúvida alguma. Mas para isso acontecer, o poder público, que é o proprietário e guardião da maioria desses patrimônios, deveria realizar programas pedagógicos integrados com eles, e a partir deles.
Que obra, artista ou movimento artístico você considera indispensável para quem quer conhecer a história da arte de Piracicaba? A Pinacoteca Municipal, o Museu e Centro de Ciências, Educação e Artes "Luiz de Queiroz" e o Centro Cultural Martha Watts guardam a maior parte do acervo artístico piracicabano em suas coleções. Infelizmente, os dois últimos não realizam exposições regulares ou permanentes dos artistas locais em seu acervo; a pinacoteca sim, mas no meu entender, a exposição dessas obras deveria ter um espaço para mostra permanente, mesmo que fosse pequeno, de uma seleção que fosse representativa da história das artes visuais na cidade. A instituição possui obras suficientes e muito importantes que tornaria possível essa exposição, a exemplo do que acontece na Pinacoteca do Estado, em São Paulo.
O que Piracicaba perderia se deixasse de preservar sua memória histórica e artística? Perderíamos nossa identidade, nossa “cara”. Somos brasileiros, mas sobretudo, somos paulistas e piracicabanos; a cultura paulista tem uma enorme contribuição de piracicabanos em muitos aspectos. Por isso, perderíamos também a continuidade entre o que os nossos antepassados construíram – tanto portugueses da época dos bandeirantes, quanto pretos, indígenas e imigrantes que vieram de vários países - e o que fizeram para que estivéssemos aqui hoje. Seria no mínimo ingratidão para com nossos ancestrais; no máximo, jogaríamos no lixo toda uma história de realizações que merecem ser contadas e recontadas, pois são a nossa inspiração para a construção do presente e do futuro.
Que mensagem você deixaria para os jovens sobre a importância de conhecer a história e a arte da cidade? “O mundo não começou hoje: tudo o que existe hoje, inclusive o seu celular e a conexão de internet, foi construído por pessoas abrindo picadas com um facão no meio do mato, para você estar aqui. Conheça a sua história, sem conhecer o passado não é possível construir o futuro”.
O que ainda precisa ser descoberto, pesquisado ou contado sobre a história artística de Piracicaba? Uma das grandes lacunas na escrita e pesquisa de História de Piracicaba é a presença dos indígenas em nosso território. Há um abismo de diferença entre o que foi escrito sobre a fundação de Piracicaba e trabalhos sobre povos originários na cidade. Estou escrevendo um livro a respeito, mas é um assunto que demanda muito mais do que somente um pesquisador, e um só trabalho.
Como você gostaria que Piracicaba fosse lembrada pelas futuras gerações quando o assunto é história, cultura e arte? Que a geração atual de piracicabanos – seja de pessoas nascidas aqui, seja de “filhos adotivos”, todos movidos por amor à nossa terra - fosse a responsável por um reavivamento do estudo da História de Piracicaba. Uma das ações necessárias para isso é a preservação de patrimônios que estão em risco de desaparecer, como aqueles sob guarda da Unimep, como o Arquivo Rocha Netto, jornal “O Diário” e Acervo João Chiarini, mas também da Escola de Música “Ernst Mahle” e os acervos da própria instituição. Acervos particulares, de pessoas que estão falecendo também estão sob risco de dispersão, venda e até descarte. Gostaria também que houvesse uma revalorização do patrimônio arquitetônico das casas e imóveis particulares antigos, especialmente os de estilo eclético da primeira metade do século XX, muitos sendo demolidos sem nenhuma proteção. E por fim, que fosse valorizada a arte produzida em Piracicaba, resgatando do esquecimento vários artistas que as novas gerações não conhecem.