Quem acompanha uma campanha eleitoral aprende rapidamente que obra pública tem um problema de comunicação: a placa aparece antes da obra e a fotografia da inauguração dura mais do que a memória do que foi feito. Só que algumas decisões importantes para uma cidade não cabem nesse calendário.
Tem obra que resolve um problema. Tem obra que muda o tamanho do problema que uma cidade consegue enfrentar. Uma nova ligação entre municípios pode encurtar caminhos que pareciam definitivos. Quando uma intervenção produz esse tipo de efeito por muitos anos e para muita gente, ela ganha outro peso. É o que se chama de obra estruturante.
A expressão é meio sisuda, confesso. O conceito, entretanto, é concreto. Uma obra estruturante é aquela capaz de resolver um gargalo que limita o desenvolvimento de uma cidade ou região e abrir espaço para outras coisas acontecerem. O que importa é o efeito produzido depois que as máquinas vão embora, quando a obra deixa de ser notícia e passa a fazer parte da rotina.
Quem já passou horas parado no trânsito entende isso sem precisar de uma aula sobre mobilidade urbana. É assim que infraestrutura entra na economia de uma cidade. Na região de Piracicaba, a SP-304, Rodovia Geraldo de Barros, é um exemplo próximo. A duplicação e os viadutos de acesso mostram como uma estrada pode reorganizar deslocamentos e acessos.
Há também uma consequência importante para quem olha uma região pelo lado econômico. Empresas precisam de estrada, energia, água e logística. Mercadorias precisam circular. Quando esses obstáculos diminuem, uma região ganha condições para receber investimentos e criar novas atividades e ampliar suas possibilidades de crescimento. Nenhuma estrada, sozinha, fabrica prosperidade. Mas é difícil imaginar desenvolvimento consistente onde os gargalos básicos permanecem intocados.
Obras estruturantes exigem uma disposição política pouco confortável: trabalhar para um resultado que muitas vezes será aproveitado por quem ainda nem está pensando em ocupar o cargo de quem tomou a decisão. Uma obra grande pode atravessar administrações, enfrentar licenciamento, desapropriações e dificuldades de financiamento. O calendário eleitoral não ajuda. Um anel viário ou uma ligação estadual como a Piracicaba–Panorama ajudam a entender essa escala: são projetos cujos efeitos ultrapassam a fotografia de uma inauguração.
Por isso, planejamento não deveria ser tratado como a parte chata da história. É justamente ali que se decide se uma grande obra vai cumprir o que promete. Projeto malfeito custa dinheiro. Cronograma mal calculado vira atraso. Uma obra parada continua ocupando espaço no discurso enquanto a população segue esperando o resultado.
Depois de algum tempo acompanhando campanhas e governos, comecei a perceber uma diferença entre fazer obra e pensar infraestrutura. A primeira coisa aparece e pode ser fotografada. A segunda exige imaginação sobre o que ainda não existe. Obras estruturantes pedem que uma cidade seja pensada para além da fotografia do mandato e do problema que está diante dos olhos hoje.
No dia da inauguração, é comum contar quantos metros de asfalto foram feitos, quanto foi investido e quem participou da cerimônia. Anos depois, ninguém lembra dos números da cerimônia. Lembra-se, quando a obra realmente funcionou, de que ficou mais fácil chegar, produzir, morar, trabalhar ou enfrentar uma chuva. O concreto envelhece, a placa perde a cor e o nome do político pode desaparecer da conversa O que fica é aquilo que realmente importa: uma cidade que passou a funcionar melhor.