A produção brasileira de trigo deve cair 27,1% em 2026, segundo o levantamento mais recente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A estimativa é de aproximadamente 5,7 milhões de toneladas, resultado que levanta uma preocupação comum para quem compra pão todos os dias: a redução na oferta do cereal pode fazer o preço do pão francês subir? Por enquanto, os indicadores de inflação não mostram uma alta expressiva relacionada à menor safra.
A projeção da Conab considera uma área plantada de cerca de 1,9 milhão de hectares, redução de 21,2% em relação ao ciclo anterior. A produtividade também deve recuar 7,5%, para aproximadamente 2,9 mil quilos por hectare. O Rio Grande do Sul continua como principal produtor nacional. A retração da área cultivada está associada, entre outros fatores, aos preços pouco atrativos recebidos pelos agricultores e às dificuldades financeiras enfrentadas no campo.
Os dados do IPCA ajudam a entender por que a queda na produção ainda não significa, automaticamente, pão mais caro. Em agosto, o pão francês subiu 0,40% e acumulou alta de 3,78% em 2026 e de 4,65% nos últimos 12 meses. Já a farinha de trigo teve alta de 0,43% no mês, mas registra queda de 4,33% no acumulado do ano e de 5,32% em 12 meses. Assim, até agora, não aparece nos preços ao consumidor uma pressão equivalente à redução prevista para a safra.
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Chuva pode afetar qualidade do trigo

Outro ponto que pode influenciar o preço está relacionado às condições climáticas durante a colheita. De acordo com a Conab, o excesso de chuvas nas regiões produtoras provocou problemas de doenças nas culturas de inverno, especialmente no trigo. A colheita já começou e alcançou 18% da área semeada, mas ainda não é possível avaliar completamente o resultado do ciclo.
Para o economista Felippe Serigati, da FGV Agro, a situação exige atenção porque a quantidade produzida não é o único fator relevante para o mercado. As chuvas registradas no Sul podem prejudicar a qualidade de parte do cereal, o que interfere na utilização do trigo pelos moinhos. Por isso, mesmo com uma produção menor, os efeitos sobre os preços dependerão também das características do produto que chegará ao mercado.
A retração da produção nacional, portanto, coloca o mercado de trigo diante de um cenário que ainda está em formação. Além da safra brasileira e da qualidade do cereal, o abastecimento depende das importações e das condições do mercado. Para quem compra pão francês, os números atuais não indicam uma disparada imediata, mas a evolução da colheita será importante para mostrar se a menor produção chegará ou não ao preço pago nas padarias.