ARTIGO

A caneta emagrece mas é o músculo que sustenta

Por Rogério Cardoso |
| Tempo de leitura: 3 min

Durante algum tempo, houve quem imaginasse que as chamadas canetas emagrecedoras seriam uma ameaça para as academias. Já cheguei a ouvir isso das pessoas. Afinal, se medicamentos como semaglutida e tirzepatida conseguem produzir perdas importantes de peso, por que alguém investiria ainda mais em exercício?

Mas está acontecendo justamente o contrário.

Pesquisas de comportamento do consumidor nos Estados Unidos vêm mostrando que usuários de medicamentos GLP-1 estão investindo mais em fitness, procurando academias, treinamento personalizado, suplementação e estratégias de recuperação. Existe uma explicação bastante humana para isso: depois que o peso começa a diminuir, surge outra preocupação. Não basta simplesmente ficar menor. As pessoas querem se sentir fortes e gostar do corpo que estão construindo. E principalmente, manter o que perdeu...

E aqui existe uma questão que vai muito além da estética.

Medicamentos dessa classe reduzem o apetite e podem proporcionar uma perda de peso expressiva. Mas o organismo não escolhe perder exclusivamente gordura.

Uma parte do peso eliminado também pode vir da massa magra. 

Um estudo chamado “Weight Loss Effects of Semaglutide in Adults With Overweight or Obesity: The STEP 1 Trial”, publicado no periódico Journal of the Endocrine Society, analisou a composição corporal de participantes tratados com semaglutida. Após 68 semanas, a redução do peso corporal foi de aproximadamente 15%, acompanhada de importante diminuição da gordura corporal. Entretanto, a massa magra absoluta também caiu cerca de 9,7%.É aqui que a musculação ou treino de força seja ele qual for ganha um significado diferente.

Imagine alguém que perde vinte quilos. A balança comemora. As roupas ficam largas. O espelho muda rapidamente. Mas, se parte importante dessa redução veio dos músculos, existe uma conta que talvez apareça mais tarde. Menos força para levantar, caminhar, subir escadas e realizar tarefas cotidianas. Para quem já passou dos 50 ou 60 anos, preservar músculos durante o emagrecimento torna-se ainda mais importante. E tem outra coisa, seu gasto de energia em repouso diminui também, o que facilita a volta ao peso antigo, já que se tem menos músculos.

A caneta pode ajudar a diminuir o tamanho do corpo. O treinamento precisa ajudar a preservar sua capacidade. Talvez seja justamente por isso que tantos usuários estejam entrando nas academias. O medicamento resolve uma parte da equação, enquanto o exercício cuida de outra. E não existe competição entre eles.

Existe complementaridade. Treinamento de força oferece ao organismo um motivo para preservar tecido muscular. Proteína adequada fornece matéria-prima. Sono e recuperação permitem adaptação. E o exercício aeróbico continua cuidando de coração, vasos sanguíneos e capacidade cardiorrespiratória.

Há ainda uma mudança interessante acontecendo dentro das academias. Talvez estejamos recebendo pessoas que passaram anos tentando emagrecer, frustraram-se inúmeras vezes e agora, ao finalmente perceberem resultados na balança, começam a enxergar o exercício de outra maneira.

Elas não querem apenas perder peso.Querem descobrir o que aquele novo corpo consegue fazer.

E talvez essa seja a melhor consequência dessa revolução. Se as canetas levarem mais pessoas para o treinamento de força, podemos transformar um tratamento inicialmente procurado para emagrecer em uma oportunidade para construir saúde.Perder peso e ficar saudável nunca foram exatamente a mesma coisa.A caneta pode ajudar você a emagrecer. Mas são os músculos que precisarão carregar você pelo resto da vida.

Até a próxima.

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