Continuemos a apresentar o livro “A vida cotidiana na Grécia no século de Péricles”, um dos títulos mais bem-sucedidos da coleção “A vida cotidiana”. Seu autor, Robert Flacelière (1904-1982) foi um grande helenista francês. Sua formação universitária se deu na famosa École Normale, prestigiosa instituição universitária cujas origens remontam a 1794 e que possui diversos cursos, divididos em duas grandes seções, a de Ciências e a de Letras. Nesta última, Flacelière se especializou na Antiguidade grega, juntamente com dois colegas de turma - Pierre Demargne e Pierre Devambez - que também seguiriam, com Flacelière, carreiras paralelas. Ao final do curso, os três foram convidados a prosseguir os estudos em Atenas, na École Française d´Athènes. Mais tarde, cada um deles desenvolveria uma carreira acadêmica própria, mas todos concluiriam sua trajetória no ponto mais alto da intelectualidade francesa, como membros da Académie Française.
Durante os anos passados na Grécia, Flacelière se concentrou de início na epigrafia helênica, tornando-se grande autoridade nesse campo. A epigrafia consiste no estudo das inscrições antigas, que foram gravadas sobre pedra, madeira ou metal com a intenção de transmitir informações para o futuro. Lápides mortuárias, estátuas com inscrições, medalhas, moedas, leis gravadas em locais públicos etc. – tudo isso pode ser analisado e estudado, fornecendo informações preciosas para os historiadores de determinado período.
A especialidade de Flacelière era o estudo de inscrições na cidade de Delfos, onde se situava o famoso templo de Apolo, ao qual acorriam pessoas desejosas de conhecer seu futuro, o qual lhes era revelado pela Pitonisa, a sacerdotisa de Apolo, geralmente em versos enigmáticos que permitiam mais de uma interpretação. Sendo Delfos o maior centro religioso da Grécia Antiga, o estudo das numerosas inscrições ali preservadas, deixadas não só pelos moradores do local, como também por visitantes de todas as partes da Hélade, oferece abundante matéria para a compreensão da sociedade e da vida dos antigos gregos.
Na sua tese de doutorado, defendida em 1935, Flacelière estudou o período em que os etólios, depois de terem conquistado Delfos, estabeleceram uma coligação de cidades-estado que exerceu forte predomínio sobre toda a Grécia central. Em seguida, lecionou Língua e Literatura grega em Lyon até 1948, quando se transferiu para a Sorbonne, em Paris, onde continuou a reger essas mesmas disciplinas. Em 1963 assumiu a direção da École Normale, ali se mantendo até 1971, e em 1967, aos 65 anos de idade, foi eleito para a Academia Francesa - que é a matriz de todas as Academias de Letras (e/ou de Ciências) de todo o mundo.
Na sua trajetória intelectual, Flacelière manteve o interesse pela epigrafia, mas abriu o leque de suas pesquisas, entrando no campo da literatura, da filosofia e da moral, traduzindo e editando obras gregas clássicas, como a Ilíada, que, curiosamente, quis traduzir em versos alexandrinos franceses, por considerar que essa forma poética tinha ritmo análogo ao do original grego. Pouco a pouco, estendeu seu interesse para a transição do Mundo Antigo para o Cristianismo, e como personagem dessa transição focalizou de modo especial a figura de Plutarco, cujas obras traduziu e editou em numerosos volumes. Na sua ótica, Plutarco, mesmo sendo pagão, pela moral, pela filosofia e até mesmo pelas ideias religiosas, de certa forma preparava os espíritos para a aceitação do Cristianismo. Avançando seu interesse pelos primeiros séculos da Era Cristã, traduziu também parte da obra de São João Crisóstomo.
A par da produção científica, publicou obras de divulgação sobre a Grécia, algumas delas com tiragens muito elevadas. A primeira dessas obras de divulgação é precisamente a “Vida cotidiana”, seguindo-se livros sobre amor e sexualidade, adivinhação e magia, literatura e Plutarco. Depois de retirado na École Normale, ainda trabalhou alguns anos como diretor da Fundação Thiers, uma antiga instituição que subvenciona com bolsas de estudo jovens pesquisadores. Ao completar 75 anos, aposentou-se definitivamente e faleceu dois anos depois.