ARTIGO

Saudades do Colégio Assunção...

Por Ivana Maria França de Negri |
| Tempo de leitura: 3 min

Há alguns dias houve a comemoração dos 100 anos da Igreja Nossa Senhora da Assunção. E uma onda nostálgica invadiu meu coração ao relembrar velhos tempos ... 

Fecho os olhos e transporto-me ao final dos anos sessenta. Era a época áurea da minissaia, e nós, alunas do Colégio Nossa Senhora da Assunção, seguíamos os ditames da moda enrolando o cós da saia azul marinho pregueada, até que ficasse um palmo mais ou menos acima do joelho.  

Quando a Madre Superiora ou alguma outra Irmã se aproximavam, desenrolávamos o cós rapidamente, para que o comprimento da saia descesse novamente à altura do joelho. Hoje, fico imaginando que as freiras sabiam de tudo, mas fingiam não ver, a fim de não ficar chamando a atenção das alunas a todo momento. 

Era obrigatório o uso da gravata e de meias brancas três quartos, daquelas que vão até o joelho. Quantas de nós não esquecíamos algumas vezes a gravata e levávamos aquela bronca! 

Nesse colégio aprendemos as mais belas lições de vida, de amor e de religiosidade. As sementes do conhecimento que foram plantadas e orvalhadas pelo amor à Senhora da Assunção, brotaram generosas. 

Era o auge da Jovem Guarda, e reinava na música dos adolescentes o rei Roberto Carlos. Tempo dos Beatles, da cuba-libre, das brincadeiras dançantes, dos bailes de debutantes e das idas semanais aos cines Politeama e Palácio. 

Com que orgulho cantávamos o hino do colégio! Éramos as “Meninas do Assunção!”. 

Recordo-me especialmente das aulas de geografia do Professor Lineu Cardoso, e do inesquecível saquinho de tômbolas, onde eram sorteadas as “vítimas” da temida chamada oral! 

Tínhamos aulas de francês com a Irmã Ismênia, que sempre eram iniciadas com a Ave Maria recitada em francês, e nas aulas de inglês da Irmã Elizabete, eram rezávamos  em língua inglesa. 

As frondosas mangueiras, eram nosso refúgio. Lá, conversávamos sobre nossos sonhos adolescentes, e fazíamos confidências sobre as descobertas do amor. Os recreios eram doces, assim como a visita obrigatória à gruta. A capela era o local sagrado onde íamos silentes orar e pedir graças à Maria.  

O passado intangível é uma dimensão mágica que visitamos quando estamos em estado de torpor, entre a vigília e o sono, e volta nítido e real, trazendo personagens que marcaram nossa vida. Uns já passaram para o outro lado, e outros, misteriosamente “desapareceram” de nosso convívio. 

Em meio às recordações, vultos familiares saltam do passado e adquirem vida: A Madre Superiora Maria Hortência, Irmã Cesta, Irmã Paulina, Irmã Inocência, Irmã Geralda, Irmã Luísa Maria, Irmã Maria Nastasie, Irmã Maria da Penha, Irmã São Francisco de Assis, Irmã Anésia, que mais tarde mudou o nome para Irmã Margarida. Por onde andarão? Certamente já moram naquele céu que descreviam para nós com tanta fé. 

Gerações vão se sucedendo, mas o vulto imponente e a cúpula majestosa da Igreja no alto da “Boa Morte”, são avistados de longe. Torre inspirada, pelo construtor Miguelzinho Dutra,  nos contornos da Igreja de Santa Maria Del Fiore de Florença. 

Meus três filhos também passaram por seus bancos acolhedores. E por isso, meu vínculo com o colégio continuou por muitos anos. E quando as Irmãs de São José deixaram o estabelecimento aos cuidados dos Padres Salesianos, eles tiveram o cuidado e a delicadeza de manter o antigo nome. As velhas mangueiras deram lugar às modernas quadras esportivas, e o laboratório de ciências, onde a Irmã Anésia fazia experiências mirabolantes, deu lugar às salas de informática. 

Muitas reformas foram feitas para acompanhar o progresso e a informatização do ensino. Mas... a magia continua, na memória das centenas de alunos que por lá passaram. 

E duas das minhas netas também estudaram nesse colégio. Foram três gerações. Um ciclo se fecha, outro se inicia, na eterna roda da vida. 

Comentários

Comentários