ARTIGO

Cartas

Por Edson Rontani Júnior |
| Tempo de leitura: 3 min

Há exatos 94 anos atrás, a Revolução Constitucionalista estava em curso. Agosto foi um mês repleto de manifestações, muitas através de cartas escritas por piracicabanos que estava nos fronts de batalha. Vamos conferir duas. 

Os piracicabanos no “front” – oriunda de Morro Frio, 1/8/932 

“Depois do descanço em Arêas, passou o nosso pelotão a occupar trincheiras no Morro Frio. Obedecem a planos estratégicos as deslocações de sectores e mudanças de trincheiras. Manobras de guerra moderna. Manobras que dependem da topographia, da direcção dos ribeirões e das bacias. Dependem de estudos de engenharia e exigem muito trabalho. 

Os sectores e as trincheiras precisam de communicação fácil e rapida com o Quartel General, que aqui chamamos, na gyria militar, de QUEGÊ – fonia das iniciaes Q. G. 

Esta zona, de cidades mortas e de campos sem cultura, vae ficar cheia de estradas. Porque cada sector precisa de uma estrada de automóveis, para o transporte de munições e de comida para os soldados. Também essas estradas teem que ser estratégicas, para não serem cortadas pelo fogo inimigo. De quando em quando, fazem se necessários desvios, procurando fugir da hostilidade das balas adversas, que procuram tambem impedir, com as metralhadoras assestadas nos morros, a passagem dos automóveis com munições e com a “chepa” (chepa, na gyria militar, é a BOIA). 

É por isso que as turmas de engenheiros teem aqui grandes serviços, no levantamento de plantas e croquis e no traçado e construcção de estradas e desvios. E são perturbados, muitas vezes, nesses serviços, pela fuzilaria, que em dos montes longinquos, ou pelos aeroplanos, que do alto os ameaçam. Ás vezes recorrem a arbustos. Os engenheiros e os operários trazem sempre comsigo um pequeno arbusto, para passarem por arbusto á vista dos binóculos dos morros mais afastados ou dos aeroplanos da dictadura. 

Autoria de Luiz Silveira Mello, em carta publicada pelo Jornal de Piracicaba em 7 de agosto de 1932 

Noticias do "Front" - Do nosso companheiro Mario Neme, recebemos a carta abaixo, emitida em Cachoeira, 3/8/1932 

Amigos (...) 

Nunca me orgulhei tanto de ter nascido neste rincão paulista como nos dias ultimos em que a alma bandeirante marcha destemida, levandio o animo e a coragem a todos os soldados, a todas as trincheiras - em que a voz de Fernão Dias fala a todos os corações, unindo-os numa só molecula, num só atomo, viril, portentôso, cadenciado em côro affim e invariavel com o cantico de metralha - toc, toc, toc, toc - canção sublime, de liberdade e justiça ! 

Os voluntarios piracicabanos - fique este registro a titulo de gratidão e premio justo - tem sabido honrar as tradições de bravura dos conterraneos de Aquilino Pacheco. Em todas as frentes piracicabano é sinonymo de enthusiasmo, piracicabano quer dizer bravura civica. Tenacidade e firmeza de acção são qualidades que distinguem os meus bravos conterraneos. Nem um titubiou no instante preciso, nem um se mostrou fraco. Todos, nos momentos mais difficeis, tem um sorriso franco a florear nos labios e uma piada original positivando consciencia tranquila - conhecimento de causa, confiança em si mesmos. 

-..."e os peixinhos gritaram: Viva D. Pedro de Toledo!" 

O meu grupo, incompleto, intercallado ao 12 R. 1. de Bello Horizonte e por praças deste completado, esteve guarnecendo duas peças – setenta e cinco – do 2.° G. I. A. P., entrincheirado entre Sant’Anna dos Tócos e São João do Barreiro – flanco direito. As praças do 12 R. I. receberam ordens para descer, ficando o meu grupo reduzido a nove homens, nove abnegados, nove gigantes. Estivemos guardando três posições, - duas metralhadoras e uma garganta de estrada – tres homens em cada uma, durante 5 noites e seis dias, alimentação difficilima, sem poder dormir um minuto, ao relento, expostos ao sol e á chuva, ao vento cortante, ao frio absoluto. A nossa posição éra no cume de um morro elevadissimo. A ordem de descer para descanço não foi recebida com alegria: ninguém queria abandonar as posições... 

Abraços 

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