ARTIGO

Correr devagar também é correr

Por Rogerio Cardoso |
| Tempo de leitura: 3 min

Durante muitos anos trabalhando com corrida, percebi uma coisa curiosa. Uma das maiores dificuldades de quem começa não está nas pernas. Está na cabeça. A pessoa começa a correr e imediatamente acredita que precisa correr rápido. Olha o relógio, compara o pace com o amigo e, poucos minutos depois, está ofegante pensando: “correr não é para mim”. Ou também quando envelhecemos nos comparamos a antes. Talvez tenhamos complicado uma coisa que poderia ser muito mais simples.Te digo o por quê. Um estudo publicado em 2026 no periódico científico Imaging Neuroscience intitulado “Slow Running Benefits: Boosts in Mood and Facilitation of Prefrontal Cortex Function Even at Very Light Intensity”, resolveu investigar exatamente isso: o que acontece quando simplesmente corremos muito devagar. 

 Os pesquisadores colocaram 24 adultos saudáveis para correr durante apenas dez minutos em uma intensidade correspondente a aproximadamente 35% do VO₂ de pico. A velocidade média foi de 5,46 km/h entre os homens e 3,86 km/h entre as mulheres. Estamos falando de velocidades em que seria perfeitamente possível caminhar. A diferença é que eles mantinham o gesto da corrida, com passadas pequenas e uma breve fase em que os dois pés deixavam o chão. Talvez nas midias sociais já tenham visto coreanos e japoneses correndo assim em fila indiana... E então aconteceu algo interessante. 

 Depois de somente dez minutos, os participantes apresentaram melhora do humor e também melhor desempenho no teste de Stroop, utilizado para avaliar funções executivas como atenção, controle e capacidade de lidar com informações conflitantes. Os pesquisadores observaram ainda maior ativação de regiões do córtex pré-frontal envolvidas justamente nessas funções. 

 Dez minutos. Correndo quase tão devagar quanto alguém poderia caminhar. Isso me faz pensar em quantas pessoas desistiram da corrida simplesmente porque começaram rápido demais. Tem uma aluna minha que falou que sempre esteve na moda, já que a moda agora parece ser esta. Existe até um nome para essa proposta: slow running. Não significa correr mal, tampouco correr sem objetivo. Significa utilizar velocidades muito baixas, passadas curtas e esforço confortável. É uma forma de corrida que pode permitir permanecer mais tempo em movimento sem transformar cada treino numa batalha contra o próprio corpo. 

 E existe uma descoberta ainda mais curiosa no estudo. Durante a corrida acontece uma pequena oscilação vertical da cabeça. Os pesquisadores observaram que quanto maior essa aceleração vertical, maior tendia a ser a melhora na sensação de prazer após o exercício. Essa relação explicou cerca de 17% da variação observada na melhora do humor. Ainda é apenas uma hipótese sobre o mecanismo, mas abre uma pergunta fascinante: será que existe algo no próprio movimento de correr que conversa de maneira diferente com nosso cérebro? 

 Claro que precisamos colocar os pés no chão. Foram apenas 24 participantes, todos adultos jovens e saudáveis, e o estudo avaliou efeitos imediatos de uma única sessão. Não podemos concluir que dez minutos de corrida lenta previnam demência ou produzam benefícios de longo prazo. Os próprios pesquisadores reconhecem que isso ainda precisa ser investigado.Mas podemos aprender alguma coisa. Para quem está sedentário, acima do peso, envelhecendo ou simplesmente acredita que nunca conseguirá correr, talvez a primeira meta não precise ser cinco quilômetros. Muito menos determinado pace.Pode ser apenas correr devagar por alguns minutos. Caminhar quando precisar. Voltar a correr. Deixar o corpo aprender.

Porque existe um momento muito bonito no treinamento em que alguém que sempre disse “eu não consigo correr” percebe que consegue.Talvez ainda seja devagar.Mas quem disse que isso importa? Agora sabemos que até o cérebro parece gostar quando você simplesmente corre. Talvez seu sonho de correr uma prova comece assim. Já pensou nisso? Até a próxima. 

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