ARTIGO

Estamos mais para hospedeiros ou parasitas?

Por Walter Naime |
| Tempo de leitura: 3 min

Na natureza, há quem faça o ninho e quem chegue depois para aproveitar o serviço. O tico-tico constrói a casa, põe seus ovos, choca e alimenta os filhotes. O chupim, mais esperto que político em época de eleição, chega sem tijolo, sem cimento e sem aluguel: põe seu ovo no ninho alheio e deixa o tico-tico criar o filho. 

Não é maldade. É evolução. O parasitismo de ninhada é uma antiga estratégia de sobrevivência. A natureza descobriu cedo a lei do mínimo esforço: para que carregar piano se alguém pode carregá-lo por você? 

O chupim desenvolveu uma inteligência biológica danada. Seu ovo pode se parecer com o do hospedeiro e o filhote disputa alimento com os legítimos donos da casa. O tico-tico trabalha, trabalha e pode acabar alimentando um estranho. É a terceirização da maternidade, só que sem licitação. 

Agora troquemos o ninho pelo mapa-múndi. A biologia vira economia, diplomacia e poder. E surge a pergunta: Brasil e Estados Unidos são parceiros, hospedeiro e parasita, ou dois bichos disputando o milho? Os Estados Unidos têm economia gigantesca, capital, tecnologia e mercado consumidor.  

O Brasil tem alimentos, energia, minérios, indústria, território e mercado. 
Essa relação não nasceu ontem. Desde a velha ordem do comércio mundial, países fortes procuram mercados e países fornecedores procuram compradores. A diferença é que hoje o ninho tem satélite, bolsa de valores, dólar, contêiner e tarifa. O velho jogo apenas trocou as penas pelo terno e a bicada pelo decreto. 

Equilíbrio, portanto, não significa repartir tudo meio a meio. Significa evitar que a vantagem de um vire prejuízo permanente do outro. É a reciprocidade possível: cada lado preserva seu interesse, mas reconhece que o outro também precisa respirar. Mas parceria vira parasitismo quando um lado ganha vantagem justamente porque o outro fica sem alternativa. E aí aparece o tarifaço: a bicada econômica. 

As medidas de 2026 incluem sobretaxas americanas de 25% e 12,5%, que podem chegar a 37,5% em determinados produtos, que entrou em vigor em julho de 2026, e a disputa chegou à OMC. Agora os dois lados conversam. É a diplomacia tentando resolver a briga antes que o ninho vire galinheiro. 

Seria fácil pintar o americano de chupim e o brasileiro de santo tico-tico. Não funciona. O Brasil também possui seus parasitas: privilégios, desperdícios e grupos que vivem do Estado como se dinheiro público brotasse no quintal. Chupim não tem nacionalidade. 

Por isso, a lei do mínimo esforço também pode ser uma lei de equilíbrio: é mais inteligente cooperar quando cooperar custa menos que brigar. A natureza não busca justiça; busca sobrevivência. E sobrevivência exige moderação. Quem pode mais chora menos? Talvez. Mas quem pode mais também erra mais. A força impõe tarifa; não garante que o outro continue comprando, vendendo ou confiando. Soberania não é viver isolado nem aceitar qualquer bicada. É ter liberdade para negociar, diversificar e dizer “não” quando necessário, sem transformar todo “não” em guerra. 

No fim, Brasil e Estados Unidos podem ser, conforme a ocasião, um pouco tico-tico e um pouco chupim. Às vezes hospedamos; às vezes aproveitamos. A diferença está em saber quando a troca é parceria ou abuso. A queda de braço é difícil porque existe uma história entre os dois países. Mas história não é algema. A moral da história é simples: ninguém precisa expulsar o chupim. Precisa impedir que transforme o ninho em propriedade. Porque, quando o parasita exagera, o hospedeiro procura outro ninho. E quando o hospedeiro fecha todas as portas, o parasita procura outro hospedeiro. No comércio internacional, a melhor estratégia não é descobrir o vilão. É garantir que os dois continuem vivos e que nenhum finja que o outro é apenas comida. 

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