Então e de repente, o aparelhinho bloqueou. Bloqueou-se. E – ao idoso portador dele – enviou instruções de como fazê-lo ressuscitar. Mostrou-se, portanto, com inteligência apenas limitada, ao contrário do que se diz a respeito da outra, a artificial. Ora, se é tão capaz, se cada celular considera-se dono das pessoas, como não saber que o seu idoso portador era incapaz de entender o que ele recomendava? Palavras esquisitas, estranhas ao vocabulário daquele homem, uma salada completa de indiferença à idade dos simples mortais. Mas o cidadão respondeu à altura: “Não entendi bulhufas!”
O fato é que – também de repente – o homem foi tomado de receios: “E agora?” Como iria comunicar-se com os filhos, netos, amigos, saber do que estava acontecendo no mundo? O que o Trump aprontou? E o Corinthians: perdeu, ganhou? E mais torturante ainda: uma das filhas queridas estava em pleno voo do exterior vindo para cá ainda que temporariamente. Como não saber? Entenderia, o celular, o que é “estar no mato sem cachorro”? Pois, assim, o caipira pensava encontrar-se.
Aos poucos, porém – mas ainda com a sensação de perda – como que uma luzinha lhe foi pirilampeando em algum lugar do cérebro. Talvez, onde residem a memória, lembranças, recordações, fosse lá, ele, saber. E, então, uma conhecida e suave voz sussurrou-lhe: “Está ficando gagá? Não se lembra de, quando criancinha, na casa de seus pais, não tinha nem sequer rádio? Nem geladeira? E de que as gentes todas andavam a pé? Você se esqueceu do susto e do medo que levaram quando viram a primeira transmissão de tevê? O mundo vai acabar, vocês diziam. E não acabou. Agora, porque um celular emudeceu... Ora, vá se danar, ô, meu.”
Obviamente, ele não teve coragem de revelar para ninguém o sentimento de vergonha diante de sua descompensação. O que lhe acontecera, por que o celular emudecido lhe causara tal perturbação? Surgiu-lhe, então – agora, vindo-lhe do coração, não do cérebro – uma ponta de verdade atemorizante: “E fosse um vício? Se o uso do celular se lhe tivesse tornado, mais do que hábito, um vício?” Tentou fugir do receio que, no entanto, lhe parecia quase uma certeza que ele tentara desconhecer. Viciado em celular, dependente de um aparelhinho tão minúsculo?
Indignou-se consigo próprio. Viciar-se em fosse lá o que fosse em tal momento da vida, quase nonagenário? Vencera o cigarro após mais de 50 anos de vício, sim. Vencera dores de perdas, dores de amores; vencera milicos da ditadura, políticos desclassificados; sobrevivera a enfermidades graves... Derrotado por um celular? “Quiuspa!” – como diziam os saudosos jornalistas de “O Pasquim”.
Foi-se acalmando. Ou, mais honestamente, conformando-se. Retomou a escrevinhação mal iniciada. E, lentamente, pareceu-lhe que sentiu até maior carinho pelo computador. Um respeito agradecido, percebeu-o. Pois, doces lembranças começaram a brotar. De, ainda na meninice, escrevia com lápis e tiras de papel. E de como se sentia infeliz quando – acabado o lápis – não se tinha dinheiro para comprar outro. E a festa quando o seu pai conseguiu adquirir um aparelho de rádio justamente durante a Copa do Mundo de 1950? E a primeira geladeira? E a inacreditável bicicleta, verdadeiro presente dos céus?
O celular permaneceu mudo. A música ambiental – que lhe acompanha os trabalhos – ouviu-a mais sentimentalmente. Lembrou-se do que sempre lhe dizia aquela mulher amada: “Aquilo que não sei não existe.” Sem o celular, sentiu surgir-lhe uma esquecida serenidade. E, então, voltou a mergulhar em seu universo pessoal. Do qual não deve sair.