Um gênero literário que sempre me fascinou é o da série Vida Cotidiana. O primeiro que li, ainda adolescente, foi “A vida cotidiana na Rússia no tempo do último Czar”, do franco-russo Henri Troyat. Logo a seguir, li “A vida cotidiana em Portugal no tempo do Terremoto”, de Suzanne Chantal, “A vida cotidiana no Vaticano no tempo de Leão XIII, de Jacques Thierry, “A vida cotidiana no Brasil no tempo de Dom Pedro II”, de Frédéric Mauro, e inúmeros outros. São muitos. Algumas centenas,
A expressão “vida cotidiana” para designar um gênero literário e um tipo peculiar de abordagem historiográfica começou a ser usada em meados do século XX, inserindo-se entre as muitas consequências derivadas da renovação desencadeada pela chamada Escola dos Anais.
É muito ampla a bibliografia disponível sobre o conceito de vida cotidiana, ou seja, o conjunto de atividades exercidas pela generalidade das pessoas ao longo do dia (englobando residência, trabalho, modos de viver e se portar, deslocamentos e meios de transporte, hábitos de alimentação, higiene e lazer etc.). Além da perspectiva historiográfica, são numerosos os enfoques possíveis, a partir de diferentes disciplinas: sociologia, psicologia, antropologia, economia e outras mais. É, por excelência, um campo do conhecimento que requer multiplicidade de enfoques, vale dizer, é impossível estudá-lo em perspectiva unidisciplinar.
Para a disseminação e a entrada em voga da expressão “vida cotidiana” contribuiu enormemente o sucesso estrondoso obtido, desde o início, pela Coleção Vida Cotidiana, lançada a partir de 1938 pela tradicional Editora Hachette. Desde os primeiros lançamentos dessa coleção, tal foi o sucesso que não apenas seus livros passaram a ser traduzidos para diversos idiomas, mas também muitas outras editoras, em vários países, lançaram seriados claramente inspirados no modelo inicial da Hachette, para não dizer que copiados servilmente dele.
A editora fundada em Paris, no ano de 1826, por Louis Hachette, sempre se destacou por seu caráter inovador. Ainda no século XIX, aproveitando-se da expansão das redes ferroviárias, iniciou a venda de livros em estações de trem, chegando a possuir, em 1896, 1200 pontos de venda - as Bibliothèques de gare (Bibliotecas de estação) - em toda a França. Lançou numerosas séries de livros de grande vendagem, como as coleções La vie heureuse, Le Livre de poche e, mais tarde, La Vie quotidienne. Durante certo período, praticamente monopolizou os livros didáticos e os guias de viagem franceses.
Sucessivamente, foi adquirindo e incorporando dezenas de outras casas editoras e expandiu sua área de atuação para outros países, sendo hoje uma multinacional. Atualmente ainda é a maior rede distribuidora de livros na França e em todos os países francófonos. Desde 2009, 51% de suas ações passaram, infelizmente, para o controle de capitais chineses.
Ao público leitor em geral, o gênero “vida cotidiana”, lançado pela Hachette, despertou enorme curiosidade e, literalmente, fascinou. Os títulos publicados se multiplicaram, diversificando-se muito os temas abordados. Já são centenas, atualmente, e tudo leva a crer que continuarão se multiplicando os lançamentos.
Ao leitor mediano, não especializado, esse gênero de livro permite mergulhos em realidades sociais circunscritas no tempo histórico e no espaço físico, estudando-as e analisando-as em profundidade, desde os mais variados pontos de vista. Também aos leitores mais exigentes, mais especializados ou menos em determinado período histórico ou em determinada sociedade antiga, os livros da série atraem pelo seu poder de síntese e pela visão de conjunto que proporcionam.
Não é um gênero fácil. O autor de uma "vida cotidiana" necessita conhecer profundamente não só a história de uma época, mas precisa de conhecimentos pluridisciplinares muito extensos, sob pena de falhar redondamente no quadro que traçar.
Comecei a redigir estes apontamentos para introduzir um comentário sobre o livro “A vida cotidiana na Grécia no tempo de Péricles”, mas vejo que já ocupei todo o espaço desta coluna dominical. Fica para outra semana apresentar aos leitores esse livro de Robert Flacelière.